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O churrasco da contradição

Gostaria de convidar meus amigos para uma festa peculiar. Sonho em celebrar as contradições entre goles de cerveja e um bom rock 'n' roll. "O churrasco da contradição". Seria uma festa anual! Nas edições seguintes poderíamos relembrar, dependendo da quantidade de cerveja ingerida, as nossas incoerências e estaria tudo bem. Acredito que iríamos dar boas risadas, tropeçar em justificativas por vezes engenhosas, mas instintivamente trocaríamos para outros assuntos banais - a banda do momento ou a tabela do campeonato de futebol. Acredito que seria uma forma ridícula, mas eficiente, de entender e não esquecer jamais que somos confusões ambulantes. 

Vamos avançar no tempo.

Na primeira edição da festa, o Jorge só comeu salada de batatas porque tinha se tornado vegetariano. Na segunda edição, faltou carne porque ele não era mais vegetariano e não avisou ninguém. Na terceira edição, ele já era novamente vegetariano e tinha parado de beber, mas também não avisou ninguém (sobrou carne e cerveja). Na quarta edição, não teve rock, apenas jazz chato porque o Marcelo estava empolgado com os filmes do Woody Allen e preparou uma "seleção" que durou seis horas - o pessoal tirava e ele dava o play novamente. A quinta festa quase foi cancelada, pois o Vagner colocou na cabeça que era budista e quis se isolar justo no dia da confraternização (a festa seria no apartamento dele). O churrasco, então, teve que ser transferido às pressas. Ninguém entendeu nada, ele também não entendeu ninguém, mas disse que meditou sobre o assunto. O sexto "Churrasco da Contradição" também foi marcado por desentendimentos. Primeiro, porque o Jorge resolveu encher a churrasqueira de cebolas espetadas com outros vegetais esquisitos. O espaço era pequeno e o carvão era escasso, assim como a paciência do Rodrigo. Virou uma guerra de cebolas contra galetos com direito a dedos e espetos em riste. Houve espaço também para discussões excêntricas envolvendo religião e direitos dos animais. E direitos dos humanos gaúchos, como citou o Rodrigo. No fim das contas, o Rodrigo comeu mais vegetais do que carne e isso foi visto com um sinal de reconciliação. A sétima edição do churrasco foi marcada pela nostalgia. Alguém (não se sabe ainda quem) pendurou uma lista na geladeira com supostas contradições do pessoal. Alguns riram e levaram na boa, enquanto outros tentaram desesperadamente se justificar, ocasionando, como sempre, um princípio de peleia. Na oitava edição do churrasco, não teve churrasco. Fazia um calor desgraçado naquele dia e a turma optou por beber, apenas. Lá pelas tantas, o Bruno apareceu rapidamente com o filho. Tinha saído para comprar sorvete e deu uma passada para beber uma cerveja escondido da mulher. "E saber que você dizia que jamais teria filhos", disse o Marcelo. Na nona edição, questões envolvendo saúde e aparência ganharam destaque. O Jorge, antes cabeludão, agora era careca, assim como o Vagner (que tinha deixado de ser cabeludo muito cedo em função da calvície). O Rodrigo, que antes tirava sarro dos gordos, agora estava terrivelmente gordo e com hérnias de disco: "quando o dia está carregado, tipo, pra chuva, eu me obrigo a andar meio torto tipo um zumbi". O Bruno, por sua vez, parecia melhor do que antes.

"A grande festa do ano no bairro: 10 anos do churrasco da contradição". Para a festa de dez anos, a turma incrivelmente chegou num consenso de que já estava mais do que na hora de abrir a festa ao público, em geral. A celebração da contradição iria se alastrar, contagiando o bairro e depois o país inteiro, certamente.

Não vamos avançar demais.

Nós, os transtornados, vamos do caos apocalíptico à plenitude quando percebemos que basta rolar a pedra sem cessar. Mas de vez em quando bate um tédio e a 3ª Guerra Mundial parece iminente. Até essa leitura se torna desgastante. É isso e é aquilo. Um pingue-pongue frenético ainda sem um vencedor.

Então, a vida passa a valer a pena por algumas horas, depois ela não vale mais nada e depois passa a valer a pena de novo. E o absurdo se torna claro e nítido. Um olhar derruba a melhor das teorias, um tremor de lábios arranha a verdade e atingimos o nirvana ao som de "In bloom".

É claro que existem os sujeitos mais rígidos - mais rígidos nas suas próprias concepções - que afirmam categoricamente:

- Transtorno bipolar! Não vem me dizer que isso é normal. Eu não mudo.

Contudo, eles também mudam, a gente sabe, mas finge não saber. Eu e você não somos palanques, muito menos androides de b-movies programados para fazer sempre a mesma coisa, do mesmo jeito e para uma mesma finalidade. Somos programados apenas para morrer. Justamente em virtude dessa dolorosa limitação de ordem natural, somos obrigados a mudar. E as mudanças, sejam elas intencionais ou lapidadas pelo acaso, por vezes, carregam contradições. 



O retorno

Voltei a produzir.

Por forças além de meu controle, entre elas, preguiça e as regras da ABNT para trabalhos científicos, fiquei algum tempo afastado de uma escrita mais consistente, porém livre, sem tantos formalismos.

Fui dominado ora pela escrita acadêmica e, com mais força, pela vontade de não fazer nada.

Reduzi-me a poemas esparsos.

Anotei frases num velho caderninho.

Imaginei pequenos trechos de cabeça.

Contrariei Domenico de Masi, meu ócio não foi criativo.

Reconheço que deixei de lado o ato de escrever por escrever.

Teias de aranha surgiram entre um neurônio e outro.

O método cartesiano, acadêmico, engessa.

Esqueci do prazer torturante que é ter uma ideia e puxá-la pelos cabelos. Acariciar a criatividade com murros.

Estava com saudade dessa batalha interna. Palavras brigando para ver qual vai sair primeiro.

Adjetivos pedantes.Verbos gritando na primeira pessoa do singular. Sinônimos se multiplicando, querendo dominar as frases. Bagunça generalizada no plano imaginário.

Algo precisa ser feito. E vai.

Pé na porta, voltei para pôr ordem nessa suruba. 

Observando os dois atos, comparo que, escrever, por vezes, assemelha-se a um fumante tentando acender um cigarro ao ar livre.

O vento atrapalha.

Vontade não basta, é preciso esforço. Jeito. Manha. Prática. O ângulo certo.

Um velho e experiente fumante, do alto de sua habilidade adquirida com os anos, acende seu cigarro até numa tempestade.

O inexperiente, encontra dificuldades em qualquer brisa.

Para acender uma ideia, sou um fumante inexperiente. 

A ideia surge mas, algo invisível, misterioso, apaga a chama da escrita.

Perco o fio condutor.

Giro a cadeira de um lado para o outro. Não tem canto confortável onde se enfiar.

Deu branco. Procuro a melhor tática para inflamar a inspiração.

Levo a mão no queixo. Mexo no cabelo. Suspiro.

O cotovelo apoiado na mesa e a mão segurando a cabeça que pende para o lado. Como se o pescoço não aguentasse o peso de tantas palavras pressas.

Com a mão esquerda pego uma borrachinha de dinheiro e faço um malabarismo desastrado com os dedos.

Coço a orelha. Destreinado. Apreensivo. Deixo de olhar para a tela do computador.

Imagino já o final do texto.

Olho para a janela. Percorro uma linha ascendente.

O parapeito. A calçada. A rua. Os postes de luz. Descanso o olhar no horizonte. Trago alguma coisa para a página. O cursor pisca pedindo mais. Terminaram os ingredientes.

Não roo unhas. Canalizo minha impaciência e meu nervosismo esfregando um dedo no outro. Arranco pequenos pedaços de pele.

Antigamente era mais fácil. Fluía.

Parágrafos inundavam a tela branca.

Agora, olha o nível.

Precisei dividir o texto em frases para encher a página.

Usei a técnica que toda dona de casa conhece quando chega mais gente para o almoço. Coloquei mais água no feijão.

Aumentei o caldo que já não era nutritivo.

Enganei a fome de escrever, mas não a matei.

Enfim, o retorno.

Voltei.



Primavera em detalhes

Estamos na primavera. Flores, abelhas, mel e mulheres calçando sapatilhas. Tenho grande simpatia por estas belezas que a nova estação proporciona. E mesmo parecendo que não há ligação entre si, para mim, elas guardam uma íntima relação. Poderia escrever sobre cada uma separadamente que, ainda assim, não esgotaria o assunto. A estação recém-iniciada atiça todos os cinco sentidos. É o momento do anúncio com um grande cartaz colorido pendurado nas árvores, letras em forma de pétalas no ipê amarelo: Em breve o verão, aguardem. 

Qualquer canteirinho na calçada e a estação das flores faz jus ao nome. Margaridas, tulipas, azaléas, rosas e violetas. A primavera tem muito mais tipos de flores do que a minha memória suporta. Várias com nome de mulher, ou seriam mulheres com nome de flores? A primeira ligação salta aos olhos. A maioria das mulheres adora flores. Nada forçado, a preferência se confirma em qualquer floricultura.


E já que toquei nas flores, agora, com cuidado, toco nas abelhas. Magnífico inseto do nosso planetinha. Vivem numa espécie de monarquia. As operárias colhem o pólen, as soldados protegem a colmeia, enquanto a rainha, soberana, administra a continuidade da espécie. Invejo o senso de coletividade delas. Só não bato palmas para não deixá-las ainda mais agitadas. Pois com o início da primavera, a florada, vem a época em que elas saem para coletar alimento. 

Provavelmente você vai cruzar com alguma abelha por aí. E por favor, não a mate, tratamento desonroso basta o uso abusivo de agrotóxicos nas lavouras que, segundo alguns estudos, são uma, senão a principal causa da diminuição da população de abelhas no mundo. Logo elas, que de flor em flor, vão polinizando em torno de 75% de nossas plantações. Ou seja, a produção mundial de alimentos tem ligação com a intensa atividade destes extraordinários insetos. Trabalho quase invisível e silencioso, elas transportam material genético de uma planta para outra. A biodiversidade agradece às abelhas. Consequentemente, nós deveríamos fazer o mesmo.


De flor em flor, de abelha em abelha, mel. Tudo doce no quinto parágrafo. Há quem não goste do produto, mas é altamente recomendável trocar o açúcar refinado pelo mel. Usar mel puro, sem exageros, para adoçar vários tipos de alimentos. Opções não faltam. Bater junto com o café. Passar no pão. Misturar nas vitaminas ou no suco de frutas. No início a troca é complicada, o gosto forte do produto dá a impressão de matar o sabor de outros alimentos, mas, com o tempo, acostuma-se, verá que ruim mesmo era o açúcar, repugnantemente doce. Aposte no mel, seu sistema imunológico ficará reforçado, traduzindo-se em mais saúde.


Agora, o último item da estranha combinação de belezas da nova estação. As Sapatilhas. Antes que alguém pense que estou disposto a usá-las, - mesmo parecendo tão confortáveis, ou então pior, que já as uso, completo; Sapatilhas em pés femininos. Sou um fervoroso defensor de que as mulheres devem usar cada vez mais esse tipo de calçado. Poucas coisas no mundo são tão singelas, charmosas e meigas, quanto ver uma bela mulher calçando sapatilhas. Além da beleza, calçados baixos não sobrecarregam determinadas partes dos pés e contribuem para uma melhor postura corporal.


É um charme fulminante, eu olho, admiro, penso na França, imagino bailarinas. Mulheres têm mais chances de voar - como se fossem lindas abelhas-rainha – se usarem sapatilhas do que salto alto. Elas flutuam. Não entendo de onde vem a minha atração por este tipo de calçado feminino e também não reduzo meu gosto por elas a um fetiche. Deve ser algo muito mais complexo. A maioria dos homens prefere mulheres calçando saltos altíssimos. Comigo, a coisa é mais embaixo, pequenas sapatilhas, cada passo e eu quase infarto.

As ligações ficaram nítidas? Primavera, desabrochar das flores. Abelhas saindo para alimentar-se e produzir mel. Dias mais iluminados, temperatura agradável, mais gente nas ruas e a beleza das sapatilhas invadindo as calçadas. Haja coração para tanta primavera.


     
O verme-ponteiro

Reclamar sobre a passagem do tempo é perdê-lo. Dizer que não temos tempo para determinada tarefa é o mesmo que dizer, - isso não está entre minhas prioridades. Fazemos tudo para encontrar a fórmula de controlar o tempo. Penduramos na parede. Colocamos no pulso. Nas torres das igrejas. Nos nossos monitores de computador. Transformamos o desejo de vida eterna em creme antirrugas. Mesmo tratando o tempo como algo tão valioso, - e realmente é, ele, indiferente e faminto, nos devora. Somos um delicioso banquete. Mastigados segundo após segundo.


Ao passar, o tempo deixa marcas. Chame de rugas ou perdas. Mas essas marcas, embora pareçam na nossa própria carne, nada mais são do que as nossas referências que vão sumindo. O cantor preferido que faleceu. O parente conselheiro que, pelo avançar da idade, já não consegue encontrar-se nas próprias ideias. Algum sabor da infância que não encontramos mais. As coisas da vida vão rareando. Pagamos um alto preço ao avançarmos na nossa própria história.

- Tudo passa! Tenho vontade de encerrar por aqui a crônica.

- Não vamos perder tempo. Algo em mim quer pressa.

Fico tentado a cair na lógica simplista e enxertada do lema, “tempo é dinheiro”, ou “times is money”, como satirizava o herói atrapalhado Super Sam, do seriado mexicano Chapolim. 

- Alguém lembra? 

Aquele que não larga por nada o saco cheio de dinheiro. Parece uma crítica ácida à forma com que a maioria dos norte americanos lida com o tempo.

Contemporaneamente, devido a crescente globalização do capital e dos meios de produção, adquirimos um pouco da lógica do Super Sam.


- Tô correndo atrás da máquina.

- Sigo nadando contra a maré.

Cada um tem o seu lema preferido, qual é o seu?

De um lado, o passar do tempo leva nossas próprias referências de mundo. Do outro, talvez por sentirmos a história nos engolindo, o verme-ponteiro dando suas mordidas, nos iludimos achando que, ao correr, ganhamos tempo.


Se refletíssemos mais sobre a passagem do tempo, em como ela é uma sólida parede que nos empurra para frente, ficaria um pouco mais claro que qualquer ato contrário a essa realidade é um mero desperdício de força. Basta ver a sombra do sol que avança. A noite que vem de arrasto. A foto que aos poucos vai amarelando. A ferrugem na dobradiça da porta e o cupim na perna da cama. Rugas do cotidiano. Fatos corrosivos diários. Os detalhes não mentem. Mas a pressa impossibilita a apreciação. 

Se o passar do tempo fosse tão bom, veríamos um velho de cabelos brancos ostentando uma vistosa franja caindo sobre os olhos. Nada disso, o que vemos é uma enorme testa que cresce ano após ano conforme a idade avança e que o deixa com a mesma cara de joelho que tinha quando saiu do ventre materno. Isso, somado à sensação de não pertencimento à sociedade que o rodeia, deixa evidente o ciclo da vida. 

Nascer, crescer, reproduzir e morrer. Meu tom pessimista termina com a frase do cineasta sueco Ingmar Bergman: “Somos mortos insepultos, apodrecendo debaixo de um céu cruento e vazio”.

O tempo é um mistério. Um estranhamento chamado eternidade, que nós, seres finitos, tentamos de todas as formas controlar e decifrar. E na falta de respostas claras, permanece a afirmação. Reclamar sobre a passagem do tempo é perdê-lo. 


Todo esse meu blá blá blá é por um único motivo, justificar a minha falta de tempo para escrever aqui no site. 


- Tempo, que vermezinho implacável.




Passa-tempo

Da primeira à última palavra. Vim para ser banal. Confirmar que na vida cabem comparações das mais variadas. 

Dou um tapinha nas costas. Aprovo as palavras daquele que afirma que a vida assemelha-se à subida de uma longa escada. Degrau por degrau. Há momentos sem corrimão. Prédio antigo sem elevador. Mas quem será que mora na cobertura? Quem conhece o zelador?

Sorrio para outros ainda mais poéticos. Os que dizem que este período entre o nascimento e a morte tem os mesmos elementos do curso de um grande rio. Momentos de fúria e correntezas. Pedras, curvas, lixo e remorsos acumulados na margem. Terra arrastada. Represa de anseios. Erosão de sentimentos. 

Logo em outros trechos do mesmo rio, temos água calma e parada. Céu refletido no espelho d’água. Pai pescando com o filho. Mãe esperando ansiosa. Pastor batizando o rebanho. Procissão de barcos. 

Sendo a vida um rio, ocorrem enchentes. A fé desce por água abaixo. Leva casas, carros e cães. Coisas que amamos. Peixes e esperanças, os dois escassos. Rede vazia. A fome é um bicho de sete cabeças contaminado por mercúrio. Moramos num grande aquário. Mário Quintana escreveu: Para os peixinhos do aquário, é Deus quem troca a água... Imagino o tamanho do balde.

Entre tantas comparações, confesso a minha total admiração, morro de amores, por quem fala que a vida é uma viagem. Que grandiosa banalidade. E eu, feliz, embarco nessa. Raso feito uma tampinha de garrafa, coloco um detalhe íntimo. A vida é uma grande viagem onde todos montam os próprios Quebra-Cabeças. 

Sem paradas. Passagem só de ida. O maquinista colocou no piloto automático. Vamos sacolejando até a estação final, entretidos entre uma peça que não se encaixa e outra que julgamos ser perfeita. 

Passamos por túneis. A escuridão nos faz perder peças ou quase perder a cabeça. As peças que surgem da caixa do jogo, misteriosamente refletem nossas atitudes. Cada uma é um pedaço de espelho. Se forçar o encaixe elas se quebram. As suas e as minhas digitais marcadas em todos os movimentos. 

Estrada de ferro cheia de curvas. Os trilhos têm a força do destino? Coloco a cabeça para fora da janela. O trem avança rápido. Solta fumaça a locomotiva. Ventania. Olho para trás. Nada além de vagões a perder de vista. Volto os olhos para o meu Quebra-Cabeça. Roubaram algumas peças. Mas quem, nesse trem lotado de gente? 

Soa estranha essa (des)graça de viagem. Essa finitude certa. Embora não saibamos qual é a distância até a estação final, conheço pessoas que não querem chegar lá com o Quebra-Cabeça montado. Já jogaram as peças pela janela e agora curtem a viagem. Outros, só pensam nas próprias peças. De tão dedicados à montagem, chegam às raias do egoísmo. Extremos e extremistas trocam olhares desconfiados no corredor do trem.

Uns em pé. Outros sentados. Ouço comentários que no vagão da frente alguém desistiu da viagem. No mesmo vagão uma grávida dá a luz. A criança chora. A balança mantém o equilíbrio. Como não dizer: Que viagem! 

E tome mais carvão na caldeira. Sigo montando minha vivência. Peça por peça. Dentro do vagão vinte e nove, sentado na poltrona nº três. Murmuro palavras no ritmo da jornada. O rápido e incontrolável movimento desse trem imita o relógio na parede. Passa-Tempo. Passa-Tempo. Passa-Tempo... Acordo um quilômetro mais velho. 



Monocromática

A vida na cidade
Escoa 
No vão das grades
Ressoa 
Sob o som de alarmes
Ecoa 
Na ditadura das paredes 


A cidade infestada 
Monólogos
Celulares
Caras amarradas


Há pessoas
Em toda 
Parte
Chaves trancas câmeras


Olhares tristes
Nas vitrines
Nas calçadas
Nas sacadas 
Pétalas sem cor


A cidade infestada
Rios de carros
Mar de placas
Greve de risos
Bocas fechadas


Doces rostos raivosos
Desvios de caráter
Atores de quinta categoria
Manto de fios
A vida finda
Cinza
A cidade fica




Os Brasis e a Copa do Mundo

Os quintais estão em festa. Os brasileiros, cada qual em seus Brasis, “comemoram”, de modos distintos, a realização da copa do mundo de futebol. E tem turma comemorando a própria contradição. Ficaram anos sonhando com a segunda copa no país – a primeira foi em 1950, e agora, que ela está prestes a começar, criticam, dizem que vão boicotar, manterão as televisões desligadas. – Vou torcer pela Argentina. Ouvi de um colega da graduação. 

Outra turma sai e continuará saindo às ruas até que a copa termine. Protestam contra os gastos públicos e os incentivos dados à iniciativa privada para construir e reformar os estádios. Essa turma tem suas subdivisões e alguma razão em protestar. Alguns levam cartazes. Outros bradam frases de ordem como; “Não vai ter Copa”. E ainda tem aqueles que prometem quebra-quebra, como se isso, nessa altura do campeonato, impedisse a realização do evento.

Os protestos, - não falo em quebra-quebra, deviam ter ocorrido, no mínimo, em 2006. Naquele ano começavam, efetivamente, os preparativos para a candidatura brasileira. De que adianta promover a baderna no entorno dos estádios como estão prometendo? Colocar fogo em pneus, apedrejar ônibus, danificar patrimônio público, fará retornar aos cofres públicos os 25,6 bilhões de reais já “investidos” em obras para a realização do evento? O tom ambíguo que dei a pergunta não é por acaso. Há razões para os protestos, mas, o momento oportuno, como falei, já passou. 

Seguindo a lista quase interminável de “comemorações”, há quem fique feliz com a possibilidade, - creio que remota, de que a copa dê totalmente errado. Que seja uma vergonha para o País inteiro e um fiasco internacional. Verdadeiro chute de canela. 

Importante citar que o interesse em ver o circo pegar fogo, não é mero espírito de porco. Existem interesses políticos no fiasco. Estamos em ano de eleição. O resultado da possível má organização do mundial, será usado como pano de fundo para futuras campanhas partidárias. Quem viver até 19 de Agosto, dia do início das campanhas políticas no rádio e na televisão, verá. 

Comemoração maior se vê daqueles que pintam os rostos com as cores da nossa bandeira. Colocam bandeirinhas nos carros. Nas sacadas. Pintam as ruas. Os turistas deliram com esse “calor comemorativo” que alguns brasileiros apresentam nesses dias de jogos. 

Bom seria se víssemos todo esse “calor comemorativo”, toda essa união em prol de um ideal, no momento de escolhermos quem vai governar o país nos próximos quatro anos. Lembrando que em 2016 os jogos olímpicos serão realizados no Brasil, Rio de Janeiro como cidade sede. Novamente os olhos e os interesses estrangeiros estarão presentes. Será que os gastos públicos com outro megaevento internacional serão, novamente, recordes? 

Para acabar com minha própria visão romântica sobre a democracia, recorro ao falecido, conservador e controverso político Inglês, Winston Churchill; "A democracia é a pior forma de governo imaginável, à exceção de todas as outras que foram experimentadas."

Por fim, há ainda quem comemore não a copa do mundo em si, mas sim, a movimentação do capital que ela proporciona. O espetáculo do futebol não é para o trabalhador assalariado, não vamos nos iludir. Mesmo que para realizar tal espetáculo, seja necessária a criação de vagas de empregos. Como será o equilíbrio da balança após a copa do mundo? Os Investimentos na copa serão equivalentes ao retorno para a administração pública e consequentemente aos cidadãos? 

Como um circo, a copa do mundo de futebol, orquestrada com mão de ferro pela FIFA, percorre o mundo exigindo dos países sede que se adequem às suas exigências. Isso inclui obras em vias públicas e desalojamento de moradores sem o devido processo legal, passando também por adequações em estabelecimentos comerciais, em grande parte estabelecimentos ligados ao setor de alimentação, atendendo aos contratos milionários da FIFA com os patrocinadores multinacionais. 

Evidente que melhorar setores sabidamente deficitários faz muito bem à população, mas, depois do mundial, essas exigências padrão FIFA, serão mantidas? O dinheiro investido na realização da “copa das copas” honrará o nome de investimento? Ouço a pergunta fazer ecos; Que legado a copa vai deixar para os próximos anos?


Então, nossa segunda copa do mundo vai ser marcada por inusitadas formas de comemorá-la? Talvez sim. Embora existam grandes oposições com relação à realização do evento no Brasil, cabe, agora, fazer tudo para que seja, ao menos, uma copa do mundo normal. Que os turistas sejam bem tratados. Que o transporte público apresente condições aceitáveis de uso. A segurança pública seja efetiva e o principal, algo que deveria ser rotina, que todos esses serviços públicos que citei, mais outros de suma importância, mantenham-se nas mesmas condições quando a copa terminar e os olhos estrangeiros voltarem-se para outro lugar do mundo. Afinal, melhorar o país somente para gringo ver, é coisa da turma que recebe a visita empurrando a sujeira para debaixo do tapete. E nos muitos “Brasis” que falei, nas inúmeras formas de “comemorar” a copa, temos grandes craques nessa modalidade.


Série Despertar: O medo de

Há uma apressada tentação em traçar uma linha imaginária e colocar lado a lado as palavras medo e despertar. Alinhar seus significados justamente para tentar entender como agem sobre nós. Com a mesma força que surge a tentação, surgem as dúvidas. Em que ordem tais palavras devem ser colocadas? O sentimento de medo antecede o ato subjetivo de despertar? A vontade de alinhá-las seria algo ordinário e errôneo? Algo como atribuir peso igual a moedas de tamanho e material diferentes?

Em uma primeira análise rápida e desinteressada, as duas palavras, bem como o que representam, parecem misturar-se em um emaranhado impossível de ser alinhado. Cortes no raciocínio e na própria carne serão necessários.

Em algum ponto remoto da existência humana na Terra, muito antes de surgirem representações simbólicas dos nossos pensamentos – palavras ou desenhos para expressá-los, o ser humano reagia a situações que colocavam em risco a sua vida ou que, aparentemente, sugeriam isso. Mesmo primitivo, aquele ser demonstrava traços daquilo que, com o passar do tempo, ganharia o nome de medo. Algo marcado em nosso DNA. 

Mesmo marcado em todos nós, não há como entrar no campo do medo coletivo, incutido em grande parte da sociedade moderna de maneira “mediática”, a intenção aqui é discutir o medo no campo subjetivo, tomando por base reflexões próprias.

Quando uma pessoa externa sua posição de que não tem medo de absolutamente nada, não estaria ela apresentando uma das formas mais básicas do medo? Pois, não estaria ela afirmando implicitamente que tem medo de sentir medo? Precisa ela, então, parecer alguém de coragem inabalável? Este medo em pequeno grau misturado com dúvida, travestido de afirmação, poderia atuar, talvez até erroneamente, como um escudo ao evitar que outras pessoas coloquem o rótulo de não corajoso no emissor daquela autoafirmação?

Ainda, quando alguém afirma não temer a morte, mas, emenda com outra afirmação, que tem medo da velhice, não estaria tal pessoa apenas declarando de uma forma velada seu medo de morrer? Tomando como ponto de partida que a chegada da velhice, o passar do tempo, aproxima dia após dia a pessoa da morte, fica evidente sua falha ao tentar enfraquecer o medo de morrer transformando-o em outro medo, o medo de ficar velho. Maquiando um dos medos, ela apenas troca seis por meia dúzia.

Se fosse possível, no final de nossa existência, contabilizar o tempo despendido somente imaginando os riscos que uma possível decisão acarretaria, seria este tempo a representação numérica, quantificada, do quanto desperdiçamos energia apenas tecendo receios? 

Receio, então, estaria numa espécie de primeiro fio condutor para outros possíveis sentimentos que se alinham com o medo. O receio, na maioria das vezes, é a fase mental em que a pessoa cogita a possibilidade que determinada situação, determinado ato ou omissão, possa gerar perigo para ela ou para outras pessoas. 

Quando vemos a imagem de alguém na beira de um edifício ou montanha, não sentimos uma espécie de receio ou medo que a pessoa caia? Inconscientemente, antecipamos o risco que aquela exposição ao perigo venha a trazer. 

Já o medo propriamente dito, algo com mais intensidade, repousa alguns fios acima do receio. Em um raciocínio lógico, mas aberto a todo tipo de equívoco, se nós continuarmos subindo o olhar para os fios condutores posicionados mais acima, a fobia, espécie de medo patológico, seria o último fio condutor de pensamentos e sensações que nos levam a uma condição dupla. Nela, apenas duas saídas parecem viáveis, permanecer estático ou retroceder diante do medo. 

Em grau máximo, a fobia paira sobre grande parte da razão do individuo. Quase que totalmente controlado por estranhas emoções, surge uma enorme leva de sensações e pensamentos que dominam corpo e mente. Ocorre a partir disso, a perturbação dos sentidos. O medo mórbido distorce a realidade. Não sobram fios onde possam pousar sentimentos que conduziriam o ser afetado a uma condição mais benéfica. O indivíduo está paralisado. Preso ao próprio medo. Tem, justamente nesse momento, a necessidade de esvaziar-se. De olhar sobre si e sobre aquilo que o aflige. Despertar é o marco zero pós-medo. É o vazio.


E se pudéssemos condensar em uma palavra todas as possíveis formas de despertar? Se fosse possível reduzir todos os filmes, livros, músicas, pesquisas científicas e conselhos sobre como enfrentar os próprios medos, que palavra restaria?  Reflexão pode ser a palavra restante. 

No exato momento em que alguém desperta para os próprios medos, encara-os, sejam eles meros receios ou enormes fobias, na hora que aprende a lidar com seus sentimentos e suas sensações decorrentes, ocorre o esvaziamento. Nesse esvaziamento, os possíveis fios condutores que levariam aos vários graus do medo, subitamente desaparecem. Nada mais está pairando sobre os sentidos e há uma comunicação mais confiável entre mente e corpo. 

É importante ressaltar que o esvaziamento não pode ser confundido, embora exista alguma semelhança, com o estado profundo de meditação, esta, é um grau elevadíssimo e talvez poucos consigam alcança-la. Esvaziar-se, seria a meditação em momentos diários, uma forma corriqueira de meditação. É o parar e pensar por alguns segundos. Técnica usada por atletas de vários esportes em momentos que necessitam de máxima concentração. É nessa cobrança, justamente por essa exigência, que surgem os medos.  

Um maratonista, por exemplo, que lidera a prova e no quilômetro final, sobre a pressão do cansaço e dos outros adversários, começa a se perguntar se realmente terminará a corrida em primeiro. Afastar esse tipo de auto pergunta e não ceder ao medo da derrota, nesse exemplo específico, é justamente o despertar para o vazio. O medo da derrota, a reflexão sobre esse medo e o despertar, isso tudo, em uma fração de segundos, por vezes até inconscientemente, o levarão até a vitória.

Outro exemplo que pode ser encaixado, com ressalvas, no ato individual de despertar, seria quando necessitamos criar uma barreira contra nosso nervosismo. Digamos que você tenha estudado meses para um concorridíssimo concurso, então, chega o dia da tão esperada prova objetiva. Na sala lotada onde vai ser aplicada a prova, momentos antes de ser distribuída, você sente a auto cobrança. Afinal, é o cargo dos seus sonhos e, como todos os outros candidatos, um entre tantos motivos de todos estarem tão nervosos, está o fato de que vocês dedicaram meses de suas vidas para essa prova. Logo, não interessa a questão se o candidato da mesa ao lado está mais preparado que você ou não, mas sim, o fator de refletir sobre o momento e tomar o controle de si. Controlar-se, automaticamente o coloca na frente de outros candidatos dominados pelo nervosismo. 

Você estudou e sabe disso, agora, tem que despertar para o fato que é só mais uma prova. E outras provas virão. O fim do mundo não é um caderno de questões múltipla escolha. Sem encorajar ninguém a fazer isso, mas, se você não tivesse estudado sequer um dia para essa mesma prova, será que a pressão em obter êxito no concurso seria a mesma?

Se você está perdido na selva e conta apenas com um canivete para sua sobrevivência, você vai fazer de tudo para garanti-la ou vai ficar sentado se lamentando por ter apenas este pequeno utensílio?

Depois que atingimos certa idade, nossos atos de despertar vão ficando cada vez mais raros. Não só pelo condicionamento natural que a sociedade nos impõe, mas também, por nossa própria culpa, passamos a repetir paradigmas negativos que se intercalam freneticamente imitindo um som que podemos batizar de rotina. Esse som rotineiro embala o sonambulismo da maioria de nós. Despertar do sono-andante, então, seria emitir outro tipo de ruído? Que tipo de ruído ouviríamos ao quebrar nossas próprias rotinas? 

Uma das mais belas fases da infância, para o terror da maioria dos pais, é aquela que a criança sente a necessidade de ver o que há dentro de seus brinquedos. Parece que, atingida pela rotina de apenas brincar, movida por um impulso natural, ela desperta e “quebra” a rotina dos brinquedos, não mais brinca com eles, mas sim, desmonta-os. É esse impulso natural, é essa curiosidade positiva, que deveríamos manter, como essência, pelo resto de nossas vidas. Manter a essência positiva da curiosidade pelo resto da vida, consequentemente, nos joga em inúmeras possibilidades. Outros horizontes são estendidos a nossa frente. Novas possibilidades trazem mais dificuldades. Porém, surgem os fatores relacionados a tudo que é desconhecido. Ressurgem, novamente, os receios, os medos e as fobias. Temos que enfrentar este ciclo.

Despertar seria aceitar os ciclos e as instabilidades da vida? Seria buscar o âmago verdadeiro daquilo que atrai nosso interesse? Creio, momentaneamente, que o ato de despertar é sustentado por dois pilares, como um pórtico de entrada. O primeiro pilar seria o autoconhecimento, devemos buscá-lo, mesmo que o autoconhecimento tenha o impagável preço de ser uma tarefa perpétua. O segundo pilar de sustentação do pórtico, é o conhecimento da sociedade que nos cerca e como esta é apresentada aos nossos sentidos. Treinar a percepção e evitar os curtos-circuitos embutidos em nós mesmos e no nosso modo de viver. Acordar, sem medo, a criança adormecida dentro de nós, para que ela volte a “desmontar brinquedos”.

Despertar, embora haja dúvida, é lutar contra uma força tão poderosa quanto a própria vida (seria a força da autopreservação?) que tende a nos manter na zona de conforto. Em última análise, podemos chamar tal força de “o medo de despertar?”

Ao receber a proposta de escrever este texto, com tema pré-definido, aceitei na hora. Porém, dias depois, fiquei adormecido pelo medo de escrever. Existem inúmeras possibilidades de abordar o tema, variadas eram as ideias-semente, mas nenhuma vingava. Apavorado, cheguei a cogitar a possibilidade de recusar o pedido. Com uma pequena tortura interna despertei. O medo ainda existe, mas voou para outro lugar.


Cada um de nós é como um homem que vê as coisas em um sonho e acredita conhece-las perfeitamente, e então desperta para descobrir que não sabe de nada. (Platão)


Série Despertar: Regidos pelo medo

Quase todos os dias, inevitavelmente, nos deparamos com os mais diversos tipos de imprevistos. Simples e complexos. Acordamos pela manhã sem saber o que nos espera. O que projetamos pode ou não acontecer. Medimos as incertezas pela velocidade das batidas do coração. Temos que tomar decisões. Somos levados pelo tempo e não podemos recomeçar do zero, mas podemos ir ajustando as velas durante a jornada. Por outro lado, precisamos também pisar em terra firme. 

Recentemente, tomei a decisão de me mudar para outra cidade, em outro estado. Minutos após a decisão, fui levado por uma onda, ou melhor, um tsunami de emoções. Contudo, já estava decidido e eu tinha que lidar com aquilo, tratando de dissipar a insegurança. Analisando o meu passado, percebi que parte do meu receio era devido a uma antiga mudança mal sucedida de cidade. Na época, então com vinte e poucos anos, recebi uma boa oferta de trabalho e não pensei duas vezes. Pensei uma vez só e mal pensado! Agora, eu tinha a consciência de que o contexto era muito mais favorável do que na ocasião anterior por diversos fatores, no entanto, ainda existia aquele frio na barriga. Na verdade, o que me faltava era entender melhor como age esse monstro invisível chamado MEDO.


Tenho medo de gente e de solidão
Tenho medo da vida e medo de morrer
Tenho medo de ficar e medo de escapulir
Medo que dá medo do medo que dá

Tenho medo de acender e medo de apagar
Tenho medo de esperar e medo de partir
Tenho medo de correr e medo de cair
Medo que dá medo do medo que dá

O medo é uma linha que separa o mundo
O medo é uma casa aonde ninguém vai
O medo é como um laço que se aperta em nós
O medo é uma força que não me deixa andar

Miedo - Pedro Guerra/Lenine

Em primeiro lugar, vamos aos aspectos biológicos. O medo, o estresse e a ansiedade ajudaram o homem primitivo a evitar o perigo. Analisar os riscos. Foram ferramentas evolutivamente importantes que auxiliaram no controle dos impulsos. Elas desencadeiam uma série de reações químicas no corpo que aumentam a eficiência do organismo, deixando-o pronto para a peleia, em caso de necessidade. Doses de endorfina, dopamina e adrenalina são lançadas para a corrente sanguínea e nós vamos progressivamente sentindo as alterações. Em algumas espécies, elas são inatas, vem desde o nascimento. Basta sentir o odor de um gato para que o rato se sinta em perigo, mesmo nunca tendo visto um felino antes. 

E qual será o papel do ego nas nossas construções mentais? O filósofo budista Han de Wit diz que o ego “é uma reação afetiva ao nosso campo de experiência, um movimento mental de recuo baseado no medo”. Criamos uma bolha (ego) e nos escondemos nela por medo do novo, dos outros, por receio de sofrer e assim por diante. É difícil se desapegar por completo dessa falsa noção de “eu”, mas o simples fato de se ter conhecimento do seu mecanismo já nos possibilita um enorme progresso.

Descobri também que o medo pode ser aprendido. Sim, pode. Já havia se dado conta? Pode ser aprendido por condicionamento, surgido de uma experiência ruim, por exemplo, que não queremos reviver. Exatamente o que estava acontecendo comigo. Então, procurei colocar tudo no papel para ter mais clareza. Separei um contexto do outro e analisei os detalhes sem pressa. Ao final do processo, superada a minha insegurança, comecei a me questionar sobre como o medo pode agir numa esfera maior. Eu havia acabado de lidar com um medo intrinsecamente meu, mas não pude fugir de uma monumental questão:

O medo pode ser plantado em nós intencionalmente? 

Partindo do pressuposto de que o medo condiciona, controlando a vida em maior ou menor grau dependendo do nosso nível de consciência, não é de se espantar que alguém queira utilizar essa brecha visando moldar uma pessoa ou grupo para as mais sórdidas finalidades. É o medo potencializado pela ignorância. Mesmo se o medo for apenas uma ansiedade generalizada, sem um porque aparente, o indivíduo vai ter o forte desejo de se livrar dessa “coisa” indefinida. Sem clareza, corre-se o risco de agir de maneira equivocada. 

O medo torna o indivíduo vulnerável. A História já nos mostrou inúmeras vezes as consequências catastróficas da exploração da vulnerabilidade por parte dos mais diversos aproveitadores. Desde Hitler (que encheu de promessas e iludiu o sofrido povo alemão pós-primeira guerra) até líderes de seitas religiosas como Jim Jones (que arquitetou o suicídio em massa de quase mil fiéis da sua igreja). 

Em determinados casos, essa desarmonia causada pelo medo pode afastar gradativamente a pessoa da realidade. Aos poucos, vamos percebendo o mundo através do olhar distorcido das nossas ilusões. Isso pode evoluir para uma fobia ou estado paranoico. Poderia me estender aqui citando também como exemplo a "cultura do medo", como é chamada por certos pensadores, que predomina há décadas nos Estados Unidos, mas isso é assunto para outro artigo. Vamos voltar para o núcleo.

Após ter estudado sobre o nascimento e disseminação do medo juntamente com seus derivados, acredito que a introspecção, ou seja, a observação dos nossos próprios processos mentais, tão em baixa atualmente devido ao aumento substancial de distrações de todos os tipos, ao que tudo indica, parece ser o antídoto a ser buscado para combater o medo. Digo combater, por tratar aqui daquele medo nocivo, que afeta o dia-a-dia do indivíduo.

O monge budista francês Matthieu Ricard argumenta que “o genuíno destemor surge com a confiança de que seremos capazes de reunir os recursos interiores necessários para lidar com qualquer situação que surja à nossa frente”. De modo abrangente, podemos fazer uma comparação com o que Morpheus diz para Neo em Matrix: “Não pense que é. Saiba que é”.