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Você está sendo enganado

O título soa apelativo e de extremo mau gosto, eu sei. Hesitei por um momento. No entanto, essa foi a primeira coisa que eu aprendi na faculdade. Como assim? Eu estou sendo enganado? Na verdade, é claro que existe informação de qualidade circulando, mas é preciso aprender a separar o joio do trigo. Eu já sentia que havia algo estranho no ar desde a minha adolescência, quando comecei a prestar mais atenção nas letras de algumas músicas. Tanto artistas nacionais como os Titãs, quanto gringos como o Bad Religion, por exemplo, teorizavam sobre assuntos que ninguém abordava no colégio. 

A ferrenha luta pela manutenção da hegemonia econômica e política de determinadas instituições/corporações não segue leis, tratados e, muito menos, algum código de ética. É um jogo de xadrez com movimentos "alternativos". O Rei não anda apenas uma casa em qualquer direção, assim como o Bispo não se move apenas na diagonal, mantendo-se nas casas de mesma cor. Mas o peão, coitado, se resigna a ir em frente, por amor e honra até o momento do abate.

Ao longo da minha jornada acadêmica, conheci algumas figuras-chave da área da comunicação que me fizeram acordar. Pra ser honesto, jogaram um balde de água fria. Dentre elas, posso destacar um sujeito chamado Michael Moore. Esse documentarista norte-americano fez, praticamente sozinho, mais pelo jornalismo investigativo do que quase todos os grandes veículos de comunicação nos últimos quinze anos. E tem pagado um preço altíssimo por mostrar uma face quase oculta da realidade. 

Dividido entre a literatura e o cinema documental, ele ganhou projeção mundial após receber o Oscar por Tiros em Columbine, um ensaio sobre a cultura da violência nos Estados Unidos; e a Palma de Ouro do Festival de Cannes por Fahrenheit 9/11 que analisa os atentados de 11 de setembro e as ligações entre as famílias Bush e Bin Laden. Vale dar uma conferida no restante da filmografia de Moore, em especial, SiCKO (no Brasil S.O.S. Saúde), sobre o sistema de saúde norte-americano e a sórdida indústria farmacêutica.

Quando Moore subiu no palco para receber a sua estatueta, em março de 2003, os EUA estavam em guerra contra o Iraque. Ninguém que estava na cerimônia tinha permissão para falar com a imprensa. Havia o medo de que alguém pudesse falar alguma coisa indigesta sobre a batalha, comprometendo os esforços do governo para "unir a nação". No entanto, o documentarista chamou os outros indicados da categoria para que se juntassem a ele e disse:

"Convidei meus colegas indicados ao Oscar de melhor documentário para subirem ao palco comigo. Eles estão aqui em solidariedade a mim porque gostamos de não ficção. Gostamos de não ficção, embora vivamos tempos de ficção. Vivemos em um tempo em que temos resultados eleitorais fictícios que elegem um presidente fictício. Vivemos em um tempo em que temos um homem nos mandando para uma guerra por motivos fictícios. Quer seja a ficção da fita vedante ou a ficção dos alertas laranja: somos contra essa guerra, senhor Bush. Tome vergonha, senhor Bush. Tome vergonha na cara. E quando o papa e as Dixie Chicks (trio popular de música country) ficarem contra o senhor, seu tempo terá se esgotado. Muito obrigado."

Logo após o discurso, a caos tomou conta da cerimônia. Alguns aplaudiram, outros tantos vaiaram e houve também aqueles que tentaram agredir o documentarista. Depois daquele dia fatídico, os norte-americanos tinham um novo inimigo a combater.

Você deve estar com algumas dúvidas sobre o conflito. Mas o Iraque tinha armas de destruição em massa? A guerra era legítima, não era?

Bush invadiu o Iraque, um país soberano, de forma ilegal. Posteriormente, George Bush e Tony Blair assumiram que não havia o perigo, mas colocaram a culpa no trabalho dos serviços secretos. No entanto, 70% da população aprovava a intervenção, na época. E aprovava sobretudo porque o New York Times veiculou diversas reportagens de primeira página fictícias a respeito de como Saddam Hussein possuía essas armas. No futuro, o jornal viria a se desculpar por apoiar a guerra. Para o povo, se um jornal liberal diz isso, deve ser verdade. Feito o estrago.

Moore nunca mais teve um dia normal. Começou a sofrer ameaças diariamente através de cartas e telefonemas. Frequentemente, tentavam invadir a sua casa. E sair da residência também era difícil, pois ele e sua família eram hostilizados e agredidos. A partir de então, o documentarista se obrigou a contratar uma equipe de segurança que ficava 24 horas ao seu lado. Além disso, instalou um moderno sistema de câmeras e alarmes na casa.

Tudo isso por que mesmo? Porque queria defender seu ponto de vista. Só por isso. A suposta democracia sendo abalada pelos tiranos ignorantes de cada esquina. E isso serve para o Brasil também. Basta lembrar das manifestações clamando pela volta dos militares. A estupidez não tem fronteiras.

Procure analisar com cuidado o que é noticiado. A desinformação, ou seja, a informação inverídica com o objetivo de induzir ao erro, nos é lançada em lotes substanciais dia após dia. A situação se agravou ainda mais com a popularização das redes sociais. Alguns teóricos afirmam que estamos na Era da Informação. Eu, por outro lado, simpatizo mais com uma corrente minoritária que sugere o contrário: estamos no auge da Era da Desinformação.

Exercite esse poderoso cérebro que você ganhou "de grátis". Confira a fonte. Analise o discurso e as suas sutilezas. Observe os adjetivos empregados. Na televisão e no rádio, preste atenção no tom de voz utilizado, muitas vezes te induzindo a escolher uma determinada posição. Lembre ainda que um veículo de comunicação é uma empresa e, assim como as demais, tem o objetivo de lucrar o máximo possível. E a renda não advém apenas dos espaços publicitários. Como vimos no caso do NYT, uma notícia também pode ser vendida. No entanto, procure não ficar paranoico. Apenas crie o hábito de questionar, pois é nele que reside a base fundamental da liberdade.


Feliz Dígito-Novo


Semelhante aos fogos de artifício que iluminam e dão som à tão aguardada noite de réveillon, percebemos nessa época o estourar de infinitas mensagens de final de ano. Concorrendo com as roupas escolhidas para a festa - talvez para dar sorte, muitas dessas mensagens são brancas ou até mesmo transparentes. Insinuantes, sim, mas a maioria carece de conteúdo e carrega consigo um dicionário de palavras clichê que basta o leitor ou o público-alvo usar brevemente a atenção e já saberá do que se trata. O tom escancarado, mas sem substância, das mensagens de final de ano denota, a iminente troca de data é uma fábrica de desejos compartilhados que, usando um pouco de insensibilidade, imparcialidade, ou até saco cheio, nota-se, já nascem com o prazo de validade vencido.

Nas vitrines do comércio. Nos comerciais da televisão. Em revistas e jornais. Nas redes sociais. Os clichês são autoexplicativos. Repetem-se e por mais pessoais e carregados de emoção que possam parecer, apenas expõem desejos vagos. No último dia de 2014, ninguém cometerá erros se disser que os desejos expostos em forma de mensagens são na verdade planos a curto prazo. - Metas para janeiro? Isso se sobreviverem até lá.

Mesmo com todas as simpatias feitas na noite da virada, - todo mundo sabe ao menos uma, mais da metade dos desejos compartilhados que antes enchiam nossos ouvidos e inundavam nossos olhos vão parar no fundo da geladeira junto com o resto da ceia, ou ficam jogados num canto da memória como uma garrafa de champagne vazia misturada à areia da praia. Poucos voltam lá para recolher os próprios desejos que restaram após a noite de festa. Quem ousará reaproveitar algo que da noite para o dia parece tão velho?

Artificialmente, só para fins de marcação do tempo, há um enorme espaço entre 31 de Dezembro e 1º de Janeiro. Os desejos de boas festas e os planos arquitetados paro o ano que iniciará, ficarão presos no ano passado. A euforia dará lugar a ressaca. Mesmo assim, vamos aos preparativos.

As ruas estão lotadas. As estradas apresentam um movimento intenso em todos os sentidos. Capital-interior, Capital-litoral, Capital-fila do supermercado. Aeroportos, rodoviárias, estações de trens e pontos de táxi. Onde há meios de transporte que possam ajudar com os preparativos para as festas de final de ano, há uma enorme concentração de pessoas esperando para embarcar com as sacolas, os pacotes e os presentes. Faltam braços e sobram compras.

Correria típica do finalzinho de Dezembro. E não é a maratona de São silvestre. A maioria de nós entra num ritmo que mescla acumulação de tarefas com vontade de descansar e sair da rotina. Quem trabalha com metas precisa fechá-las a todo custo. Nas lojas os vendedores se multiplicam e vendem de tudo. De pneus até máquinas de costura. Corrida contra o tempo para quem compra e para quem vende. “Compre sem entrada, em 24 vezes e com o primeiro pagamento só para Fevereiro.” Não é difícil achar um cartaz com esse convidativo anúncio. O mesmo cartaz deveria vir com a advertência: Desejo a você um novo ano com muita saúde e poucos carnês.

Mesmo que as lojas tentem, elas não conseguem superar os supermercados na representação do clima de final de ano. Os caixas trabalhando num ritmo de malabarista de circo. Uma mão no teclado e outra passando os produtos. A destreza do empacotador que abre o saco plástico, guarda as mercadorias, puxa o saco do cliente e ainda consegue puxar papo com o outro empacotador que está à 4 caixas de distância.

O burburinho dos aposentados na seção das bebidas disputando as últimas garrafas de cerveja da promoção. O pânico na fila do açougue, pois os perus com tamanho avantajado já foram comprados, agora restam aqueles bem pequenos, os murchinhos, para a tristeza da dona de casa. - Leve dois, senhora. Diz o açougueiro. Ao colocar as aves congeladas no carrinho os olhos dela brilham, imitam as garrafas de espumante que o repositor coloca nas prateleiras ao lado do açougue, num esforço incessante contra a pressa dos consumidores. A cada 3 garrafas colocadas, uma vai para dentro de algum carrinho transbordando refrigerantes, carnes, batatas, tomates, sorvetes, tinta para cabelo, pacotes de lentilhas, caixas de bombons. Ficam produtos espalhados pelo chão do supermercado. “Todo animal deixa rastros, caçadores e bons observadores sabem muito bem disso.” Essa frase poderia ser do Ernest Hemingway, mas ele devia ir pouco aos supermercados, ainda mais nessa época.

Algumas prateleiras vazias, as filas intermináveis e a aflição no olhar das crianças pequenas que acompanham os adultos nessas compras, são provas decisivas de que somente em uma grande catástrofe climática ou numa ameaça de fim de mundo veríamos um cenário tão aterrador dentro de um supermercado.

Mas não é o fim dos tempos, é somente mais um fim de ano. Comemorá-lo ou aproveitá-lo? Há quem diga existir uma enorme diferença nisso. Feliz Dígito-Novo!

Texto criado no dia 31 de dezembro de 2014.


O voar e eu

Sobre uma pseudo professora de matemática fazendo textos;

Na ânsia de me descrever, de me apresentar, procurei uma palavra que me definisse. Para uma geminiana, que constantemente muda de ideia, é um trabalho difícil... Geralmente geminianos divagam em assuntos e opiniões, viajam na maionese com filosofias e voam...

Nascida e criada na fronteira oeste do Rio Grande do Sul, sempre ouvi minha mãe dizer que eu era muito “avoada”, fazia tudo com pressa, era/sou estabanada e por vezes fico olhando para o nada, voando entre as nuvens de pensamento...

Cresci tentando ter foco em algo na vida. O grande foco era ser professora de Inglês e no meio de minhas aulas do verbo “to be”, ensinar algo sobre Shakespeare, mas por ironia, fui aprovada no vestibular estando no segundo ano do ensino médio e não pude ir cursar o tão sonhado inglês. Acabei fazendo o que? Perdendo o foco, fiquei mais uma vez voando e pensando o que eu poderia fazer da vida, já que além de ter sido aprovada no vestibular antes do previsto, meus pais já tinham me avisado que não me queriam muito longe $$.

Acabei na matemática, com a gana de ensinar algo difícil para mim mesma, com a vontade de entender como as pessoas aprendem e cheia de expectativas... O que aconteceu? É, no meio da aula de Teoria Elementar dos Números, ou de Lógica, lá estou eu voando... Voando entre os mais variados pensamentos... Alguns desses se perdem quando o professor pergunta qual seria a expressão que generaliza um número ímpar ou qual é a tese e a hipótese do teorema do ângulo externo. Outros pensamentos ficarão aqui. 

Peço a mão do leitor para que, brincando de ser Peter Pan, possamos voar de mãos dadas nos meus pensamentos e nos teus. Pois a palavra voar, com certeza não descreve só a mim. E ao contrário do que minha mãe pensa, não é tão ruim estar no mundo da lua.



O churrasco da contradição

Gostaria de convidar meus amigos para uma festa peculiar. Sonho em celebrar as contradições entre goles de cerveja e um bom rock 'n' roll. "O churrasco da contradição". Seria uma festa anual! Nas edições seguintes poderíamos relembrar, dependendo da quantidade de cerveja ingerida, as nossas incoerências e estaria tudo bem. Acredito que iríamos dar boas risadas, tropeçar em justificativas por vezes engenhosas, mas instintivamente trocaríamos para outros assuntos banais - a banda do momento ou a tabela do campeonato de futebol. Acredito que seria uma forma ridícula, mas eficiente, de entender e não esquecer jamais que somos confusões ambulantes. 

Vamos avançar no tempo.

Na primeira edição da festa, o Jorge só comeu salada de batatas porque tinha se tornado vegetariano. Na segunda edição, faltou carne porque ele não era mais vegetariano e não avisou ninguém. Na terceira edição, ele já era novamente vegetariano e tinha parado de beber, mas também não avisou ninguém (sobrou carne e cerveja). Na quarta edição, não teve rock, apenas jazz chato porque o Marcelo estava empolgado com os filmes do Woody Allen e preparou uma "seleção" que durou seis horas - o pessoal tirava e ele dava o play novamente. A quinta festa quase foi cancelada, pois o Vagner colocou na cabeça que era budista e quis se isolar justo no dia da confraternização (a festa seria no apartamento dele). O churrasco, então, teve que ser transferido às pressas. Ninguém entendeu nada, ele também não entendeu ninguém, mas disse que meditou sobre o assunto. O sexto "Churrasco da Contradição" também foi marcado por desentendimentos. Primeiro, porque o Jorge resolveu encher a churrasqueira de cebolas espetadas com outros vegetais esquisitos. O espaço era pequeno e o carvão era escasso, assim como a paciência do Rodrigo. Virou uma guerra de cebolas contra galetos com direito a dedos e espetos em riste. Houve espaço também para discussões excêntricas envolvendo religião e direitos dos animais. E direitos dos humanos gaúchos, como citou o Rodrigo. No fim das contas, o Rodrigo comeu mais vegetais do que carne e isso foi visto com um sinal de reconciliação. A sétima edição do churrasco foi marcada pela nostalgia. Alguém (não se sabe ainda quem) pendurou uma lista na geladeira com supostas contradições do pessoal. Alguns riram e levaram na boa, enquanto outros tentaram desesperadamente se justificar, ocasionando, como sempre, um princípio de peleia. Na oitava edição do churrasco, não teve churrasco. Fazia um calor desgraçado naquele dia e a turma optou por beber, apenas. Lá pelas tantas, o Bruno apareceu rapidamente com o filho. Tinha saído para comprar sorvete e deu uma passada para beber uma cerveja escondido da mulher. "E saber que você dizia que jamais teria filhos", disse o Marcelo. Na nona edição, questões envolvendo saúde e aparência ganharam destaque. O Jorge, antes cabeludão, agora era careca, assim como o Vagner (que tinha deixado de ser cabeludo muito cedo em função da calvície). O Rodrigo, que antes tirava sarro dos gordos, agora estava terrivelmente gordo e com hérnias de disco: "quando o dia está carregado, tipo, pra chuva, eu me obrigo a andar meio torto tipo um zumbi". O Bruno, por sua vez, parecia melhor do que antes.

"A grande festa do ano no bairro: 10 anos do churrasco da contradição". Para a festa de dez anos, a turma incrivelmente chegou num consenso de que já estava mais do que na hora de abrir a festa ao público, em geral. A celebração da contradição iria se alastrar, contagiando o bairro e depois o país inteiro, certamente.

Não vamos avançar demais.

Nós, os transtornados, vamos do caos apocalíptico à plenitude quando percebemos que basta rolar a pedra sem cessar. Mas de vez em quando bate um tédio e a 3ª Guerra Mundial parece iminente. Até essa leitura se torna desgastante. É isso e é aquilo. Um pingue-pongue frenético ainda sem um vencedor.

Então, a vida passa a valer a pena por algumas horas, depois ela não vale mais nada e depois passa a valer a pena de novo. E o absurdo se torna claro e nítido. Um olhar derruba a melhor das teorias, um tremor de lábios arranha a verdade e atingimos o nirvana ao som de "In bloom".

É claro que existem os sujeitos mais rígidos - mais rígidos nas suas próprias concepções - que afirmam categoricamente:

- Transtorno bipolar! Não vem me dizer que isso é normal. Eu não mudo.

Contudo, eles também mudam, a gente sabe, mas finge não saber. Eu e você não somos palanques, muito menos androides de b-movies programados para fazer sempre a mesma coisa, do mesmo jeito e para uma mesma finalidade. Somos programados apenas para morrer. Justamente em virtude dessa dolorosa limitação de ordem natural, somos obrigados a mudar. E as mudanças, sejam elas intencionais ou lapidadas pelo acaso, por vezes, carregam contradições. 



O retorno

Voltei a produzir.

Por forças além de meu controle, entre elas, preguiça e as regras da ABNT para trabalhos científicos, fiquei algum tempo afastado de uma escrita mais consistente, porém livre, sem tantos formalismos.

Fui dominado ora pela escrita acadêmica e, com mais força, pela vontade de não fazer nada.

Reduzi-me a poemas esparsos.

Anotei frases num velho caderninho.

Imaginei pequenos trechos de cabeça.

Contrariei Domenico de Masi, meu ócio não foi criativo.

Reconheço que deixei de lado o ato de escrever por escrever.

Teias de aranha surgiram entre um neurônio e outro.

O método cartesiano, acadêmico, engessa.

Esqueci do prazer torturante que é ter uma ideia e puxá-la pelos cabelos. Acariciar a criatividade com murros.

Estava com saudade dessa batalha interna. Palavras brigando para ver qual vai sair primeiro.

Adjetivos pedantes.Verbos gritando na primeira pessoa do singular. Sinônimos se multiplicando, querendo dominar as frases. Bagunça generalizada no plano imaginário.

Algo precisa ser feito. E vai.

Pé na porta, voltei para pôr ordem nessa suruba. 

Observando os dois atos, comparo que, escrever, por vezes, assemelha-se a um fumante tentando acender um cigarro ao ar livre.

O vento atrapalha.

Vontade não basta, é preciso esforço. Jeito. Manha. Prática. O ângulo certo.

Um velho e experiente fumante, do alto de sua habilidade adquirida com os anos, acende seu cigarro até numa tempestade.

O inexperiente, encontra dificuldades em qualquer brisa.

Para acender uma ideia, sou um fumante inexperiente. 

A ideia surge mas, algo invisível, misterioso, apaga a chama da escrita.

Perco o fio condutor.

Giro a cadeira de um lado para o outro. Não tem canto confortável onde se enfiar.

Deu branco. Procuro a melhor tática para inflamar a inspiração.

Levo a mão no queixo. Mexo no cabelo. Suspiro.

O cotovelo apoiado na mesa e a mão segurando a cabeça que pende para o lado. Como se o pescoço não aguentasse o peso de tantas palavras pressas.

Com a mão esquerda pego uma borrachinha de dinheiro e faço um malabarismo desastrado com os dedos.

Coço a orelha. Destreinado. Apreensivo. Deixo de olhar para a tela do computador.

Imagino já o final do texto.

Olho para a janela. Percorro uma linha ascendente.

O parapeito. A calçada. A rua. Os postes de luz. Descanso o olhar no horizonte. Trago alguma coisa para a página. O cursor pisca pedindo mais. Terminaram os ingredientes.

Não roo unhas. Canalizo minha impaciência e meu nervosismo esfregando um dedo no outro. Arranco pequenos pedaços de pele.

Antigamente era mais fácil. Fluía.

Parágrafos inundavam a tela branca.

Agora, olha o nível.

Precisei dividir o texto em frases para encher a página.

Usei a técnica que toda dona de casa conhece quando chega mais gente para o almoço. Coloquei mais água no feijão.

Aumentei o caldo que já não era nutritivo.

Enganei a fome de escrever, mas não a matei.

Enfim, o retorno.

Voltei.



Primavera em detalhes

Estamos na primavera. Flores, abelhas, mel e mulheres calçando sapatilhas. Tenho grande simpatia por estas belezas que a nova estação proporciona. E mesmo parecendo que não há ligação entre si, para mim, elas guardam uma íntima relação. Poderia escrever sobre cada uma separadamente que, ainda assim, não esgotaria o assunto. A estação recém-iniciada atiça todos os cinco sentidos. É o momento do anúncio com um grande cartaz colorido pendurado nas árvores, letras em forma de pétalas no ipê amarelo: Em breve o verão, aguardem. 

Qualquer canteirinho na calçada e a estação das flores faz jus ao nome. Margaridas, tulipas, azaléas, rosas e violetas. A primavera tem muito mais tipos de flores do que a minha memória suporta. Várias com nome de mulher, ou seriam mulheres com nome de flores? A primeira ligação salta aos olhos. A maioria das mulheres adora flores. Nada forçado, a preferência se confirma em qualquer floricultura.


E já que toquei nas flores, agora, com cuidado, toco nas abelhas. Magnífico inseto do nosso planetinha. Vivem numa espécie de monarquia. As operárias colhem o pólen, as soldados protegem a colmeia, enquanto a rainha, soberana, administra a continuidade da espécie. Invejo o senso de coletividade delas. Só não bato palmas para não deixá-las ainda mais agitadas. Pois com o início da primavera, a florada, vem a época em que elas saem para coletar alimento. 

Provavelmente você vai cruzar com alguma abelha por aí. E por favor, não a mate, tratamento desonroso basta o uso abusivo de agrotóxicos nas lavouras que, segundo alguns estudos, são uma, senão a principal causa da diminuição da população de abelhas no mundo. Logo elas, que de flor em flor, vão polinizando em torno de 75% de nossas plantações. Ou seja, a produção mundial de alimentos tem ligação com a intensa atividade destes extraordinários insetos. Trabalho quase invisível e silencioso, elas transportam material genético de uma planta para outra. A biodiversidade agradece às abelhas. Consequentemente, nós deveríamos fazer o mesmo.


De flor em flor, de abelha em abelha, mel. Tudo doce no quinto parágrafo. Há quem não goste do produto, mas é altamente recomendável trocar o açúcar refinado pelo mel. Usar mel puro, sem exageros, para adoçar vários tipos de alimentos. Opções não faltam. Bater junto com o café. Passar no pão. Misturar nas vitaminas ou no suco de frutas. No início a troca é complicada, o gosto forte do produto dá a impressão de matar o sabor de outros alimentos, mas, com o tempo, acostuma-se, verá que ruim mesmo era o açúcar, repugnantemente doce. Aposte no mel, seu sistema imunológico ficará reforçado, traduzindo-se em mais saúde.


Agora, o último item da estranha combinação de belezas da nova estação. As Sapatilhas. Antes que alguém pense que estou disposto a usá-las, - mesmo parecendo tão confortáveis, ou então pior, que já as uso, completo; Sapatilhas em pés femininos. Sou um fervoroso defensor de que as mulheres devem usar cada vez mais esse tipo de calçado. Poucas coisas no mundo são tão singelas, charmosas e meigas, quanto ver uma bela mulher calçando sapatilhas. Além da beleza, calçados baixos não sobrecarregam determinadas partes dos pés e contribuem para uma melhor postura corporal.


É um charme fulminante, eu olho, admiro, penso na França, imagino bailarinas. Mulheres têm mais chances de voar - como se fossem lindas abelhas-rainha – se usarem sapatilhas do que salto alto. Elas flutuam. Não entendo de onde vem a minha atração por este tipo de calçado feminino e também não reduzo meu gosto por elas a um fetiche. Deve ser algo muito mais complexo. A maioria dos homens prefere mulheres calçando saltos altíssimos. Comigo, a coisa é mais embaixo, pequenas sapatilhas, cada passo e eu quase infarto.

As ligações ficaram nítidas? Primavera, desabrochar das flores. Abelhas saindo para alimentar-se e produzir mel. Dias mais iluminados, temperatura agradável, mais gente nas ruas e a beleza das sapatilhas invadindo as calçadas. Haja coração para tanta primavera.


     
O verme-ponteiro

Reclamar sobre a passagem do tempo é perdê-lo. Dizer que não temos tempo para determinada tarefa é o mesmo que dizer, - isso não está entre minhas prioridades. Fazemos tudo para encontrar a fórmula de controlar o tempo. Penduramos na parede. Colocamos no pulso. Nas torres das igrejas. Nos nossos monitores de computador. Transformamos o desejo de vida eterna em creme antirrugas. Mesmo tratando o tempo como algo tão valioso, - e realmente é, ele, indiferente e faminto, nos devora. Somos um delicioso banquete. Mastigados segundo após segundo.


Ao passar, o tempo deixa marcas. Chame de rugas ou perdas. Mas essas marcas, embora pareçam na nossa própria carne, nada mais são do que as nossas referências que vão sumindo. O cantor preferido que faleceu. O parente conselheiro que, pelo avançar da idade, já não consegue encontrar-se nas próprias ideias. Algum sabor da infância que não encontramos mais. As coisas da vida vão rareando. Pagamos um alto preço ao avançarmos na nossa própria história.

- Tudo passa! Tenho vontade de encerrar por aqui a crônica.

- Não vamos perder tempo. Algo em mim quer pressa.

Fico tentado a cair na lógica simplista e enxertada do lema, “tempo é dinheiro”, ou “times is money”, como satirizava o herói atrapalhado Super Sam, do seriado mexicano Chapolim. 

- Alguém lembra? 

Aquele que não larga por nada o saco cheio de dinheiro. Parece uma crítica ácida à forma com que a maioria dos norte americanos lida com o tempo.

Contemporaneamente, devido a crescente globalização do capital e dos meios de produção, adquirimos um pouco da lógica do Super Sam.


- Tô correndo atrás da máquina.

- Sigo nadando contra a maré.

Cada um tem o seu lema preferido, qual é o seu?

De um lado, o passar do tempo leva nossas próprias referências de mundo. Do outro, talvez por sentirmos a história nos engolindo, o verme-ponteiro dando suas mordidas, nos iludimos achando que, ao correr, ganhamos tempo.


Se refletíssemos mais sobre a passagem do tempo, em como ela é uma sólida parede que nos empurra para frente, ficaria um pouco mais claro que qualquer ato contrário a essa realidade é um mero desperdício de força. Basta ver a sombra do sol que avança. A noite que vem de arrasto. A foto que aos poucos vai amarelando. A ferrugem na dobradiça da porta e o cupim na perna da cama. Rugas do cotidiano. Fatos corrosivos diários. Os detalhes não mentem. Mas a pressa impossibilita a apreciação. 

Se o passar do tempo fosse tão bom, veríamos um velho de cabelos brancos ostentando uma vistosa franja caindo sobre os olhos. Nada disso, o que vemos é uma enorme testa que cresce ano após ano conforme a idade avança e que o deixa com a mesma cara de joelho que tinha quando saiu do ventre materno. Isso, somado à sensação de não pertencimento à sociedade que o rodeia, deixa evidente o ciclo da vida. 

Nascer, crescer, reproduzir e morrer. Meu tom pessimista termina com a frase do cineasta sueco Ingmar Bergman: “Somos mortos insepultos, apodrecendo debaixo de um céu cruento e vazio”.

O tempo é um mistério. Um estranhamento chamado eternidade, que nós, seres finitos, tentamos de todas as formas controlar e decifrar. E na falta de respostas claras, permanece a afirmação. Reclamar sobre a passagem do tempo é perdê-lo. 


Todo esse meu blá blá blá é por um único motivo, justificar a minha falta de tempo para escrever aqui no site. 


- Tempo, que vermezinho implacável.




Passa-tempo

Da primeira à última palavra. Vim para ser banal. Confirmar que na vida cabem comparações das mais variadas. 

Dou um tapinha nas costas. Aprovo as palavras daquele que afirma que a vida assemelha-se à subida de uma longa escada. Degrau por degrau. Há momentos sem corrimão. Prédio antigo sem elevador. Mas quem será que mora na cobertura? Quem conhece o zelador?

Sorrio para outros ainda mais poéticos. Os que dizem que este período entre o nascimento e a morte tem os mesmos elementos do curso de um grande rio. Momentos de fúria e correntezas. Pedras, curvas, lixo e remorsos acumulados na margem. Terra arrastada. Represa de anseios. Erosão de sentimentos. 

Logo em outros trechos do mesmo rio, temos água calma e parada. Céu refletido no espelho d’água. Pai pescando com o filho. Mãe esperando ansiosa. Pastor batizando o rebanho. Procissão de barcos. 

Sendo a vida um rio, ocorrem enchentes. A fé desce por água abaixo. Leva casas, carros e cães. Coisas que amamos. Peixes e esperanças, os dois escassos. Rede vazia. A fome é um bicho de sete cabeças contaminado por mercúrio. Moramos num grande aquário. Mário Quintana escreveu: Para os peixinhos do aquário, é Deus quem troca a água... Imagino o tamanho do balde.

Entre tantas comparações, confesso a minha total admiração, morro de amores, por quem fala que a vida é uma viagem. Que grandiosa banalidade. E eu, feliz, embarco nessa. Raso feito uma tampinha de garrafa, coloco um detalhe íntimo. A vida é uma grande viagem onde todos montam os próprios Quebra-Cabeças. 

Sem paradas. Passagem só de ida. O maquinista colocou no piloto automático. Vamos sacolejando até a estação final, entretidos entre uma peça que não se encaixa e outra que julgamos ser perfeita. 

Passamos por túneis. A escuridão nos faz perder peças ou quase perder a cabeça. As peças que surgem da caixa do jogo, misteriosamente refletem nossas atitudes. Cada uma é um pedaço de espelho. Se forçar o encaixe elas se quebram. As suas e as minhas digitais marcadas em todos os movimentos. 

Estrada de ferro cheia de curvas. Os trilhos têm a força do destino? Coloco a cabeça para fora da janela. O trem avança rápido. Solta fumaça a locomotiva. Ventania. Olho para trás. Nada além de vagões a perder de vista. Volto os olhos para o meu Quebra-Cabeça. Roubaram algumas peças. Mas quem, nesse trem lotado de gente? 

Soa estranha essa (des)graça de viagem. Essa finitude certa. Embora não saibamos qual é a distância até a estação final, conheço pessoas que não querem chegar lá com o Quebra-Cabeça montado. Já jogaram as peças pela janela e agora curtem a viagem. Outros, só pensam nas próprias peças. De tão dedicados à montagem, chegam às raias do egoísmo. Extremos e extremistas trocam olhares desconfiados no corredor do trem.

Uns em pé. Outros sentados. Ouço comentários que no vagão da frente alguém desistiu da viagem. No mesmo vagão uma grávida dá a luz. A criança chora. A balança mantém o equilíbrio. Como não dizer: Que viagem! 

E tome mais carvão na caldeira. Sigo montando minha vivência. Peça por peça. Dentro do vagão vinte e nove, sentado na poltrona nº três. Murmuro palavras no ritmo da jornada. O rápido e incontrolável movimento desse trem imita o relógio na parede. Passa-Tempo. Passa-Tempo. Passa-Tempo... Acordo um quilômetro mais velho. 



Monocromática

A vida na cidade
Escoa 
No vão das grades
Ressoa 
Sob o som de alarmes
Ecoa 
Na ditadura das paredes 


A cidade infestada 
Monólogos
Celulares
Caras amarradas


Há pessoas
Em toda 
Parte
Chaves trancas câmeras


Olhares tristes
Nas vitrines
Nas calçadas
Nas sacadas 
Pétalas sem cor


A cidade infestada
Rios de carros
Mar de placas
Greve de risos
Bocas fechadas


Doces rostos raivosos
Desvios de caráter
Atores de quinta categoria
Manto de fios
A vida finda
Cinza
A cidade fica