Agrotóxicos VS saúde pública no Brasil


Beber Glifosato, chuva de veneno em comunidades rurais, sementes híbridas, biomas inteiros substituídos pela monocultura e o império das transnacionais. O que tudo isso tem em comum, em um cenário marcado pela fragilidade do limite entre os interesses privados e a saúde de um país inteiro? Você deve estar se perguntando agora o que é o Glifosato. Mesmo sem saber do que se trata, provavelmente você já consumiu este produto em algum alimento produzido no Brasil. O Glifosato é uma molécula sintetizada pela Monsanto e já foi empregada em lavouras em grande parte do mundo. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), este produto é carcinogênico e causador de diversos outros males à saúde. Na esteira destas informações, questionamos: O que podemos classificar como alimento hoje, no Brasil, quando o modelo vigente de agronegócio é historicamente minado pela insustentabilidade socioambiental? O uso massivo de agrotóxicos na produção de alimentos deixa como rastro a contaminação desenfreada da terra, dos vegetais, da água, do ar e de comunidades inteiras, revela o dossiê feito pela Abrasco (Associação Brasileira de Saúde Coletiva), em parceria com a Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz). Publicado em 2012 e atualizado dois anos depois, o documento tem a intenção de ser um alerta sobre o impacto dos agrotóxicos na saúde pública, reunindo informações de livros e trabalhos publicados em periódicos nacionais e estrangeiros. Em mais de 600 páginas, o dossiê aponta uma realidade muito diferente da que alardeia o poder público quanto às benesses do agronegócio.

Mutações genéticas em recém-nascidos e as centenas de mortes pelas comunidades rurais do Espírito Santo, como denunciado pelo jornal Século Diário no ano passado. As chuvas de veneno da Aerotex sobre as crianças de Pontal do Buriti, em Rio Verde, Goiânia. As contaminações do solo, da chuva e até do leite materno descobertas no interior do Mato Grosso, em 2011, pela pesquisadora da Universidade Federal do Mato Grosso (UFMT), Danielly Palma. Apesar da gravidade destes episódios, nenhum deles é novidade ou, sequer, caso isolado. No estudo feito pela UFMT foram coletadas amostras de leite de 62 voluntárias do município de Lucas do Rio Verde, um dos campeões em produção de soja no Brasil. As coletas foram feitas entre os anos de 2007 e 2010 e o resultado foi a contaminação de 100% das amostras com pelo menos um princípio ativo. Nos casos mais graves as mulheres chegaram a apresentar até 6 tipos diferentes de veneno no leite materno. Encontraram DDE (derivado do DDT), Endosulfan, deltametrina, trifularina, todos com potencial para causar malformação fetal e abortos, conforme a OMS. O estudo revelou também que o aumento da incidência de malformação por mil nascidos na região subiu de 5 para 20. Longe de gerar constrangimento para o setor, isso se tornou comum na prática do agronegócio, que prioriza o uso do solo para a produção de commodities e consome mais de 1 bilhão de litros de agrotóxicos por ano, segundo a Agencia Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Conforme a agência reguladora, atualmente 64% dos alimentos no Brasil estão contaminados com agrotóxicos. Pimentão, morango e pepino ocupam o topo do ranking, com 91%, 64% e 57% de contaminação.

O que deveria ser fonte de vitaminas, substâncias antioxidantes e nutrientes importantes para o metabolismo humano, converte-se em vetor de princípios ativos causadores de diversos males a saúde, denuncia o dossiê Abrasco. Entre os anos 2000 e 2012 o aumento do uso de agrotóxicos no país foi de cerca de 288% (Sindicato Nacional das Empresas de Aviação Agrícola - Sindag). Enquanto isso o faturamento das indústrias do setor aqui foi de cerca de 12 bilhões de dólares (Associação Nacional de Defesa Vegetal- Andef). Já o montante de registros por intoxicação deste tipo de produto acumulou 34.147 incidências. Isso somente entre os anos de 2007 e 2014, de acordo com o DataSUS, do Ministério da Saúde.

Fungicidas, pesticidas, inseticidas e herbicidas, todos eles tem como principal finalidade atacar a vida como um todo. Gerando uma reação em cadeia de efeitos nocivos, estes biocidas vem provocando desequilíbrios ecológicos, alerta o dossiê. O documento revela que os mitos de modernidade, progresso, emprego, segurança alimentar e renda escondem uma realidade obscura que pretende ser negada e afastada da opinião pública. Realidade que pode ser comprovada por números e evidências científicas da relação entre uso de agrotóxicos e problemas de saúde. Trazidos pelo dossiê, os estudos e estatísticas apontam que não é por falta de confirmação dos efeitos nocivos às pessoas e ao meio-ambiente que o uso indiscriminado de agrotóxicos no Brasil não é combatido. "O uso de agrotóxico no Brasil alcança cifras muito grandes, a gente tá consumindo um bilhão de toneladas por ano e a gente sabe que a estrutura de governo federal e estadual está muito aquém de enfrentar esse volume de venenos do ponto de vista de monitoramento”, explicou Luiz Cláudio Meireles, engenheiro agrônomo e pesquisador da Fiocruz do Rio de Janeiro, em entrevista ao portal de notícias G1. Meireles destacou ao portal que o Instituto do Câncer (INCA) se posicionou, no ano passado, para estabelecer uma ligação entre o agrotóxico e a doença. “A dificuldade que nós temos é determinar a ligação entre uma substância e um determinado tipo de câncer, por exemplo. Mas, sabemos que quando comemos estamos ingerindo um conjunto de agrotóxicos que vai repercutir na saúde durante anos". O pesquisador participou da elaboração do Dossiê Abrasco e, segundo reportagem veiculada no programa Globo Rural, da Rede Globo, em 2012, foi afastado de um cargo de gerência da Anvisa, naquele ano, por denunciar irregularidades na liberação de seis tipos de agrotóxicos.


Transnacionais e o monopólio do mercado brasileiro

BASF, Bayer, Monsanto, Syngenta, Dow e Dupont dominam cerca de 70% do mercado mundial de agrotóxicos. Aqui elas também dominam, abocanhando aproximadamente 75% da venda de defensivos no país a cada safra. As gigantes do setor acabam comprando as empresas menores ao longo do tempo, tanto de agrotóxicos, quanto de sementes, formando assim monopólios e oligopólios. Estes são dados apresentados no 2º Seminário Mercado de Agrotóxicos e Regulação, organizado pela Anvisa, em 2012.

Perpetuando uma realidade desfavorável para toda uma nação, a venda casada de sementes transgênicas com os pacotes agroquímicos está perfeitamente alinhada ao interesse privado destas transnacionais, como denuncia o documentário de Silvio Tendler, O Veneno Está na Mesa II, de 2014. Agora o lucro descomunal delas não apenas fortalece o oligopólio anglo-europeu, mas também faz a sociedade questionar o que, de fato, entendemos por desenvolvimento. Se o melhor alimento é aquele mais contaminado, então que tipo de critérios regem as políticas de saúde pública no Brasil? O trabalho realizado para a Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e pela Vida nos refresca a memória ao recordar que a tecnologia empregada na “revolução verde” é a mesma usada nas guerras que assolaram o mundo durante o século XX. Para Vandana Shiva, física e ativista ambiental indiana, os produtos químicos que inundam a alimentação mundial não podem gerar outros resultados senão doenças e morte. "A indústria do agronegócio não produz comida e nem coopera com a natureza. Na realidade ela opera uma guerra contra a natureza, transferindo para a agricultura os venenos inventados para matar outros homens na guerra. Pesticidas, herbicidas, agente laranja. Produtos químicos significam a morte de pessoas, não é de espantar que elas continuem morrendo" (extraído de O Veneno está na Mesa II). Segundo ela, é preciso lutar para proteger a diversidade e a integridade das sementes nativas e lutar também pelos direitos dos agricultores. A ativista defende a necessidade de resistir e desafiar os monopólios de propriedade intelectual ilegítimos de empresas como a Monsanto, que, para ela, faz engenharia genética somente para exigir patentes e royalties. 

São permitidos aproximadamente 434 ingredientes ativos de agrotóxicos no Brasil, conforme a Anvisa. Entre os 50 mais utilizados, 22 são proibidos na Europa, na África e até na China, mas graças ao lobby das transnacionais com os nossos políticos e artimanhas jurídicas, eles permanecem sendo largamente empregados nas plantações do país, conforme dados da Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e pela Vida. Em 2008, a agência iniciou uma reavaliação do uso de 14 substâncias utilizadas na fabricação de mais de 200 agrotóxicos que, segundo o dossiê Abrasco, podem causar câncer, má formação fetal, problemas pulmonares e distúrbios hormonais. Dessas 14 substâncias, até o momento somente cinco foram proibidas (endossulfam, triclorfom, cihexatina, forato e metamidofós). Duas delas foram mantidas no mercado, mas com restrições de uso (acefato e fosmete).


Carbamatos e organofosforados X índice de suicídios em Venâncio Aires

Nos anos 90, conforme matéria veiculada no Jornal Folha de São Paulo, em 2014, a Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) realizou uma pesquisa levantando a hipótese de haver relação entre os altos índices de suicídio e o uso de agrotóxicos organofosforados (composto orgânico usado no controle de pragas) nas lavouras de fumo. Segundo o periódico, em função de toda a polêmica gerada com o assunto, um projeto de lei foi encaminhado ao Congresso Nacional com a intenção de proibir este tipo de produto em 1997. Contudo, o PL 2691/97 acabou sendo arquivado após a análise em plenário mesmo depois de ter sido aprovado pela Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania da Câmara (CCJ), o que ocorreu somente em 2011. Curiosamente, antes da aprovação pela CCJ, o projeto havia sido rejeitado pelas comissões de Defesa do Consumidor, Meio Ambiente e Minorias; e de Agricultura, Pecuária, Abastecimento e Desenvolvimento Rural, conforme o site da Câmara dos Deputados.

O aparente descaso do legislativo em transformar em lei a iniciativa abafou a discussão com o passar do tempo, enquanto isso o uso dos agrotóxicos se alastrou pelo país. Quanto a possível relação entre os suicídios de Venâncio Aires e o uso ilegal de organofosforados, o chefe de escritório da Emater (Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural), de Venâncio Aires, Vicente João Fin, acredita que não haja conexão entre os fatos. “Não há estudos científicos que estabeleçam esta ligação”, argumenta. Não é o que aponta o dossiê Abrasco quando o assunto são os carbamatos e os organofosforados, mas opinião semelhante é lugar comum entre representantes de outras entidades, como a Associação dos Fumicultores do Brasil (AFUBRA). O gerente técnico da Afubra, Paulo Vicente Ogliari, afirma que esta relação não pôde ser comprovada até agora. “São mais de 600 municípios que produzem fumo no Brasil, se houvesse alguma conexão deveria haver a incidência também em outros”. Na mesma linha de raciocínio a assistente social do Serviço de Atendimento Psicossocial de Venâncio Aires (CAPS), Rubia Bucallo, destaca que o Caps não leva em consideração o uso de agrotóxicos no tratamento dos casos de depressão. “Não fazemos a abordagem do problema desta forma. Acreditamos que os quadros de depressão e suicídio estão mais relacionados com a rigidez da cultura alemã e com o trabalho pesado da lavoura do que ao uso destas substâncias”.

Mas ao mesmo tempo em que o Caps procura não levar em consideração a utilização destes produtos por parte dos pacientes (mesmo com a hipótese de eles estarem ligados ao problema), a cidade de Venâncio Aires permanece no primeiro lugar do ranking de suicídios no Brasil. Entre 2006 e 2010 foram 79 casos. O trabalho duro e estafante das lavouras de fumo, a rigidez da cultura e a pressão da indústria quanto aos níveis de qualidade do produto, tornaram os casos de intoxicação pelo uso de agrotóxicos históricos na região. Fumicultor desde a infância, Adair Treissig, herdou dos pais o trabalho na lavoura no distrito de São Martinho, interior de Santa Cruz do Sul. Ele conta que, mesmo observando os cuidados na aplicação dos produtos, foi vitima de intoxicação há 17 anos. “Fiquei internado por três dias”, relata o produtor, lembrando que sofreu com os sintomas na época. Sem poder apostar em outra culturas, Treissig admite que diversificaria a produção caso fosse possível. “Não temos o que fazer, o trabalho é pesado, mas não temos outra opção”. 

De outro lado, Irineu Saath, de 48 anos, também foi criado na lida do fumo, em Rincão de Nossa Senhora, no município de Passo do Sobrado. Mesmo trabalhando há tantos anos nas lavouras, Saath conta que nunca teve qualquer problema com agrotóxicos. “Sempre observei as orientações da fumageira e sempre usamos equipamentos de proteção também. A rotina é dura, mas nós não temos outra alternativa”. Assim como Treissig, Saath afirma que também mudaria de atividade se houvessem alternativas lucrativas. “É assim mesmo, não temos muita escolha. Além do fumo plantamos milho também, mas o principal é o fumo”, enfatiza o agricultor.

Uma das causas desta realidade, para o chefe de escritório da Emater é que o chamado sistema integrado faz com que o agricultor se torne refém do pagamento do ágio. “Há que se questionar se há a lucratividade do produtor para que se mantenha a propriedade, atenda suas necessidades e possa garantir a próxima safra. Ele se obriga a contrair os insumos com a promessa de grãos futuros”. Fin afirma que isso acaba afastando o produtor de outras empresas que poderiam ofertar diferentes oportunidades. “Ele paga os insumos mais caros, pois só vai pagar lá na frente, e fica refém dos produtos ofertados pelo sistema integrado, que nem sempre são os mais adequados”.

Somando-se ao quadro de ineficiência e uso equivocado dos defensivos, temos questões delicadas relacionadas a Anvisa, como demonstra o documentário de Silvio Tendler (O Veneno está na Mesa II). Segundo o estudo, a agência foi criada em 1999 e, mesmo tendo a função de entidade reguladora, a instituição acaba por ter grandes dificuldades para exercer suas atribuições. O chefe de escritório da Emater salienta que a Anvisa não apenas sofre pressão dos poderes executivo e legislativo para a liberação de princípios ativos, mas também dificulta o registro de produtos orgânicos ou de ação natural. “Quando você vai registrar um produto de baixo impacto ambiental, você não tem oportunidade por que a Anvisa segue uma legislação rígida. Por outro lado, quem tem capacidade para bancar tudo isso são as grandes empresas. A facilidade para grupos econômicos de grande pressão existe sim!” Fin destaca que, neste caso, a lei acaba se transformando numa faca de dois gumes, pois dá vazão a escassez de produtos alternativos para o uso nas lavouras. Com todos esses elementos no jogo, os interesses do agronegócio se sobressaem facilmente aos da saúde pública para o representante da Emater. “Não tenha dúvidas. A pressão do poder econômico, a falta de conhecimento técnico, além do problema da aceitação de produtos proibidos vindos de outros países, favorecem essa situação.”


A Agroecologia como alternativa

Desde 2008 o Brasil vem ocupando a primeira posição no ranking dos maiores consumidores de agrotóxicos do mundo. Como prova disso a quantidade de veneno consumida pela população brasileira tem aumentado ano após ano, alcançando atualmente a cifra de 7,2 litros anuais por cada brasileiro (ANVISA). Vicente João Fin, chefe de escritório da Emater de Venâncio Aires, relata que este quadro se agrava pela falta de orientação e conhecimento por parte dos agricultores. “Às vezes a venda se dissocia da realidade. Às vezes o produtor está ainda implantando a lavoura quando adquire o produto. Fazendo o pacote antes da hora e sem o conhecimento técnico ele acaba realizando aplicações inadequadas e acima da quantidade necessária”. Segundo Fin, as políticas inadequadas dos órgãos competentes, aliada a pressão econômica das transnacionais tornam o cenário ainda mais problemático. “Muitos produtos que lá fora (exterior) já foram proibidos, são trazidos pra cá. Se no país de origem esse produto tinha cinco ou seis anos de eficiência, falando hipoteticamente, aqui já cai pra três, mas mesmo assim é trazido para cá. Ou seja, é uma forma de desova e isso é um grande agravante”.

Agravante perigoso, quando o assunto é a saúde de milhões de pessoas. Conforme Susan Arthus, gerente assistencial do Hospital São Sebastião Mártir, as secretarias de saúde e agricultura trabalham orientando os produtores quanto ao uso adequado de EPI´s (equipamentos de proteção individual). A gerente enfatiza que, mesmo assim, os casos de intoxicação continuam a acontecer. “Elas trabalham no sentido de orientar os agricultores no uso adequado de EPI´s, bem como as dosagens adequadas para que não reverta a intoxicação ao consumidor. Contudo, até a data de hoje, já contabilizamos 4 incidências de intoxicação no município.” De maneira diversa a do CAPS, Arthus acredita que a prevenção também deve levar em consideração outros fatores, além de instruções sobre dosagem e manuseio. “Quando falamos do trabalhador é preciso ter atenção quanto a situação ou condições cognitivas e psicológicas das pessoas que estão em contato com o material.”

Mesmo tendo como pano de fundo o sombrio império das transnacionais, nem tudo é veneno no mundo da agricultura. Como um alento para quem pretende se beneficiar de uma alimentação livre de contaminação, vemos a popularização da agroecologia em iniciativas como as do Centro de Apoio e Promoção da Agroecologia (CAPA). De acordo com Augusto Weber, integrante do CAPA, respeitar o meio ambiente é um dos princípios básicos desta forma de cultivar o solo. “O alimento agroecológico é produzido sem agrotóxicos, adubos químicos, solúveis, sintéticos ou sementes transgênicas. O Agricultor respeita o meio-ambiente, pois é preciso ter conhecimento de todo o contexto para que tudo dê certo”. Para evitar pragas sem o uso de materiais artificiais, Weber conta que a agroecologia trabalha todo o meio no qual o alimento é produzido. “A diversidade nesse caso é fundamental. Os agricultores utilizam a rotação de culturas e não investem em apenas uma.” 

O CAPA Santa Cruz do Sul desenvolve seu trabalho prioritariamente junto a grupos de agricultores e agricultoras familiares, destacando a inclusão de gênero e de diferentes gerações, conforme o site da organização. Weber comenta que a entidade atua junto a grupos urbanos e indígenas, escolas e universidades, com destaque para as escolas Família Agrícola e Colégio Teutônia. Tudo visando a abertura de espaços especiais para inclusão da juventude nas atividades do Centro. Segundo ele, rotação de cultura, adubação verde e práticas de agrofloresta são alguns dos métodos da agroecologia. “A gente sempre estimula que os agricultores utilizem ao máximo os insumos naturais da propriedade, como esterco bovino, suíno e de aves, entre outros. As alternativas existem!” E para quem acredita que a agroecologia não pode produzir alimentos de qualidade em grande escala, o profissional garante que é possível. “O que existe é a dificuldade de produzir os alimentos fora da época a qual eles normalmente são próprios. Mas existe produção agroecológica em grande escala sim, existem diversas propriedades fazendo isso atualmente. Além de mais saudável, existe uma grande diferença no sabor”. 

Weber orienta que, para se ter certeza de estar comprando produtos realmente livres de veneno, além da confiança no produtor, o consumidor pode procurar pelo selo da Certificação Orgânica. Ele explica que as linhas de ação trabalhadas pelo CAPA são várias. Na lista estão a agroecologia, organização cooperativa, agroindústria familiar, comercialização, sociobiodiversidade, meliponicultura, resgate e preservação de sementes crioulas, educação para promoção da saúde (com enfoque nas plantas bioativas), alimentação saudável e saúde comunitária. “Para que o atual modelo do agronegócio seja substituído, mesmo que num futuro ainda distante, é preciso haver uma mudança na mentalidade do agricultor. É preciso que mude a forma de pensar dos produtores rurais, que eles não apenas queiram partir para a produção agroecológica. Esta mudança é o primeiro para a substituição do atual modelo”, conclui o profissional. Para mais informações acesse o site da entidade no endereço eletrônico www.capa.org.br.




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O início do Fim


Tendo como pano de fundo este dia 17 de abril, data importante para o Brasil em vista do que está ocorrendo no Congresso Nacional, sai cedo e fui fazer compras para o almoço. Enquanto caminhava até o estabelecimento comercial, a vários metros da entrada, já se podia escutar alguém vociferando contra Dilma e os programas sociais, especificamente o Bolsa Família e o Minha Casa Minha Vida. Ao entrar no recinto notei que dois senhores brancos, entre 55 e 60 anos, discutiam o tema com certa indignação. Preferi ignorar o que falavam já na chegada, pois não concordo com a maior parte do que eles diziam. Fiz minhas compras e ao me dirigir ao caixa o proprietário do estabelecimento, que não irei identificar, perguntou minha opinião: “E ai? O impeachment vai ou não para o Senado?” Contudo, antes que pudesse responder, um dos senhores que discutiam com grande entusiasmo interviu, raivoso: “Enquanto não botarem um militar lá, esse país não muda! Tu não vai mais poder sair com tua família, se sair vai ter ‘neguinho’ pronto pra bater tua carteira!” Olhei para ele e senti um certo desprezo, confesso. Mas preferi o silêncio. Agradeci ao dono do mercado e saí, pasmo com tudo que havia escutado em menos de 5 minutos. Aquilo, somado a visão de Michel Temer como chefe do executivo, me fez pensar. Na verdade, mais do que pensar, a situação me impeliu a escrever. 

Creio que, num primeiro momento, quando nos deparamos com discursos desta categoria, não acreditamos imediatamente na existência desta impressionante capacidade de iludir multidões. Lembrei-me então de Freud e de seu sobrinho, Edward Bernays, e conclui que, sim, ela existe. A realidade é que, na ordem dos milhões, as massas são, de fato, manipuladas através de artifícios muito bem estudados. Além de estudados, postos em prática ao longo da história, não apenas da América Latina, mas no mundo todo. “Dividir para conquistar”, é uma estratégia básica de quem tem interesses econômicos e políticos em um determinado país. Enquanto um povo se digladia por quaisquer que sejam as ideologias, vai se abrindo espaço para uma realidade ruim para todos. Sem capacidade de ler nas entrelinhas, o cidadão comum se polariza, assumindo a defesa de um dos lados do conflito. Até mesmo os mais letrados escolhem um lado e logo põe em jogo quase tudo para provar que seu ponto de vista está correto. As vezes está disposto a discursos de ódio e a chegar às vias de fato, alimentado por informações e opiniões enlatadas e com o prazo de validade vencido. Um dos recursos dos “conquistadores” é justamente esse. Utilizar a fragilidade do ego de cada personagem da trama, por mais ínfimo que ele seja. E isso é fácil, por mais que você não acredite, os caminhos para essa conquista são a propaganda ideológica, informações direcionadas pelos medias por longos períodos, campanhas corporativas de relações públicas. Em suas limitações particulares são explorados também os políticos demagogos financiados por empresas, partidos políticos comprometidos com o capital internacional e isso, claro, culmina em dominação estrangeira dos mercados nacionais. O que, por si, é sintoma de que algo está errado há muito tempo. Tudo isso, somando-se as estatísticas mentirosas que beneficiam principalmente aqueles que lucram com estes números. Mas quem seriam esses conquistadores? O vasto capital internacional organizado, multifacetado e implacável. Eles não têm rosto, nem nome. Tem apenas interesses econômicos de longo prazo, lobistas e serviços de inteligência a seus comandos. Enquanto isso, 99% dos cidadãos de um país caminha, cheios de palavras de ordem e com a sensação de estar cumprindo seu dever, para um futuro sombrio. 

O curioso, ou trágico sob certo ponto de vista, é que o ufanismo dos indivíduos adquire um ar bastante funcional para quem os manipula, pois percebe que seu plano vai de vento em popa. Como dividir um povo? Enfraquecê-lo ideologicamente, minando suas bases políticas com dinheiro fácil e favores de luxo? Agindo na surdina, colocando os peões do executivo e legislativo no bolso, um a um? Estabelecendo vínculos escusos com o judiciário e ganhando terreno nas políticas econômicas para drenar o máximo possível de recursos? Promovendo um alcance tão exemplar da corrupção a ponto de a corrosão da infraestrutura do estado ser tão evidente como uma fratura exposta? Talvez sim. Isso e muito mais, sem dúvida, pois uma avaliação à queima roupa como esta jamais alcançaria o nível de sofisticação do sistema internacional de corrupção que assola o Brasil. É isso mesmo. Nosso país é uma peça importantíssima de um sistema internacional de corrupção. Enquanto este sistema não ruir, não existe futuro limpo para o Brasil. No entanto, chegamos até aqui devido a uma prolífica e duradoura relação entre corruptos e corruptores. Catapultada pelo fato de que, por trás das titulações de nossos políticos, existe uma mediocridade inesgotável, uma avidez insaciável por dinheiro. Eles dão e fazem tudo o que for necessário, tudo mesmo, por uma gorda propina. Às vezes vitalícia. Um prato cheio para os absurdamente ricos lá de fora e um nervo exposto para um povo inteiro. A ignorância disso tem tido como resultado o avanço gradativo de projetos infames das transnacionais, como transformar a água do Rio Amazonas em commodity para ser negociada nas bolsas de valores mundo afora. É muito provável que nossos netos enfrentem uma batalha pela água durante este século, considerada o “ouro azul” (BLUE GOLD), pelo capital estrangeiro.

Só que essa ignorância não é por acaso. Está sendo construída há décadas, pois nossa educação foi entregue pelos políticos, em todos os níveis, aos banqueiros internacionais no século XX. O futuro que se vem desenhando desde então não é positivo para o Brasil. Para o povo quero dizer, pois a classe política e os grandes executivos lucram demais com isso. O que se tem em mãos, com a queda ou não do governo Dilma, não é solução para os problemas do Brasil. Se você acredita que a crise financeira que vivemos é culpa do PT, reveja seus conceitos, pois o buraco é muito mais embaixo. Há muitas crises em curso. O PT apenas as agravou. Crise econômica, moral, ambiental, política, educacional, social, cultural, crise na saúde, na segurança pública, nas estradas, na alimentação. Em cada favela brasileira há uma crise em curso agora mesmo. E isso é responsabilidade de cada um dos governos que o Brasil teve, pois a corrupção é endêmica e sempre foi assim. É desse modo que funciona. No entanto, a única crise que queremos afastar, de fato, é a financeira. O resto é o resto. Paradoxalmente, como se não existisse, a dívida pública ainda está lá, crescendo diariamente e ninguém vai para as ruas lutar contra ela. As políticas neoliberais, mesmo em governos aparentemente de esquerda, nunca deixaram de ser seguidas e vão continuar assim, quase ninguém se arriscando a contestá-las. Principalmente os cidadãos, às vezes tão polarizados, mas ignorante de quase todo o resto. O que se nota, sim, são centenas de deputados, senadores, vereadores, governadores e prefeitos a defendê-las. Não existem políticos interessados em romper com esses tenebrosos mecanismos de assalto ao nosso país. Ninguém se atreve a levantar a questão. Você lembra o resultado da CPI da Dívida Pública, em 2010? Se não lembra, vale a pena revisitar o caso.

O duro é que o sistema político, mesmo que o Brasil proteste de ponta a ponta, não será reformado de maneira significativa. O sistema de licitações vai continuar, assim como praticamente todos os outros mecanismos de favorecimento ao roubo do dinheiro público. A taxa Selic, o superávit primário, a dominação do mercado nacional pelo capital estrangeiro organizado, o comprometimento do PIB com os juros da dívida, tudo isso permanecerá drenando plenamente nossos recursos para fora do país. Os políticos que votamos para nos representar não estão comprometidos conosco, nem com o país, mas sim com eles mesmos e seus correligionários. Basta olhar o passado para notar que nada mudou. Basta olhar para o presente e ter certeza de que, pelo contrário, estamos cada vez mais de joelhos como povo, vendo o desmanche dos mecanismos sociais pela ação da corrupção generalizada. E nada vai mudar, a menos que, de alguma forma, o povo paralise o país.

Mesmo assim, em meio a tantos protestos, bandeiras e reivindicações, algumas cínicas por natureza, existem consciências despertando para a visão global do problema. Talvez o futuro desse cenário, repleto de crises, mude na medida em que o povo obtém a informação. Mesmo que de forma fragmentada, ela está cada vez mais disponível e a Internet é um de seus principais mananciais. Este processo de transformação não pode ser parado. Ele pode ser atrasado, mas é inevitável que aconteça. As tentativas atuais, respaldadas pelo poder político nacional, de restringir o acesso a Internet são uma evidencia clara do que estamos falando. Os direitos sociais, sempre combatidos pela classe política elitista de nosso país, são uma clara ameaça a hegemonia destas autointituladas “elites”. Esta estranha tentativa de gerar um impedimento à presidente Dilma é reflexo auto evidente dos mecanismos internos que a corrupção constrói para gerir-se. A distribuição (com ares de suborno) de cargos para recompor a base de governo também. As tentativas de proteger Lula de um lado e os vazamentos de escutas para imprensa do outro, cada lado burla como pode. Porém, para cada ação, há uma reação. O povo ainda não voltou do coma, mas está reagindo. Mesmo sem fé no futuro do sistema politico atual, permaneço com a esperança dessa transformação. Ela ainda vai demorar, mas virá e o crescente número de grupos ativistas se organizando em diversas frentes é uma indicação de conscientização. Acredito que Lula deve punido. Acredito que a Dilma e toda a corja de corruptos de cada sigla que a rodeia, também. Mas nada disso fará sentido se, com eles, não forem investigados, presos e afastados do poder Renan Calheiros, Eduardo Cunha, Aécio Neves, Michel Temer e uns 90% do Congresso Nacional. Nada fará sentido se investigações não forem instauradas em cada Ministério e em cada estado brasileiro para desmascarar governadores, prefeitos, vereadores e até mesmo membros do Poder Judiciário. Enquanto o povo está nas ruas, os corruptos já se movimentam para neutralizá-lo. É preciso ficar atento! Sou a favor do FIM DA CORRUPÇÃO, o que é impossível, e sei que a maioria dos brasileiros também é. Ricos ou pobres, somos nós que pagamos impostos. Ricos ou pobres, somos nós que vivemos, movimentamos e representamos o Brasil. Ricos ou pobres, somos nós que alimentamos o monstro de várias cabeças que nossos políticos criaram. Agora cabe a nós, pelas vias legais e com muita perseverança, acabar com ele!


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Biscoito, chimia e cultura colaborativa


Em maior ou menor grau, acredito que todos sejamos nostálgicos. No meu caso, então, nem se fala! Às vezes, passo um bom tempo relembrando histórias e pequenos recortes, principalmente da minha infância. Atualmente, acho emocionante e curioso que esse resgate de memórias, mesmo as mais singelas, desperte em mim os mais variados insights. Talvez sejam os refluxos da vida adulta. Busco conforto e refúgio no passado, mas os dilemas atuais (trabalho, família e aspirações) me acompanham discretamente até mesmo nesses momentos.

Lembro vividamente da mãe e da vó saindo carregadas de utensílios domésticos, em direção a casa da dona Florinda (eu adorava esse nome por causa do Chaves). Juntas, as três passavam a tarde inteira preparando biscoitos caseiros. Ao final da empreitada, dividiam a produção e já marcavam a data do próximo encontro. O mesmo acontecia com a minha vó e sua comadre. Quantas e quantas vezes, tive o privilégio de ajudá-las no preparo das chimias de uva e de figo que eu sou fã de carteirinha até hoje. Eu tinha uns seis ou sete anos de idade e me recordo de muitos detalhes. As frutas eram despejadas e preparadas num caldeirão enorme que ficava ao ar livre, na frente da casa. Todos que passavam pela residência sentiam aquele cheiro atraente e alguns até paravam para dar uma espiada.

Essas interações entre amigos e vizinhança, hoje cada vez mais escassas, funcionavam de forma cooperativa. Na maioria das vezes, transcendiam a simples cooperação. Eram momentos oportunos de sociabilidade em um nível profundo - a ajuda mútua, o escambo, o compartilhamento de saberes e ferramentas, as conversas -, nos quais o dinheiro era algo totalmente secundário. Mesmo que de modo primitivo (não teorizado e sistematizado), já se tratava de colaborativismo com toques significativos de algo denominado nos últimos tempos como "economia criativa".

Será que não é disso que estamos carentes ultimamente? Buscar tornar viável a vida, ao invés de enlouquecidamente torná-la apenas "lucrativa"? Para os teóricos da cultura colaborativa, essa postura seria o equivalente a um deslocamento do conceito de Capital Humano para o de Capacidade Humana. O foco não está estritamente na compra e venda, mas na construção de relacionamentos significativos, capazes de compor um ecossistema eficiente.

Mesmo nas pequenas coisas (como nos exemplos acima), acredito que podemos interagir de uma forma mais saudável/sustentável. Isso não quer dizer que excluiremos nossas fontes de renda tradicionais para embarcar numa fantasia. Quando se toca nesse tema, muitos acreditam que uma abordagem exclui a outra. Contudo, o equilíbrio entre elas talvez seja o caminho mais eficiente.

O principal ativo de um sistema baseado na colaboração é o tempo livre. Muitas vezes, nós desperdiçamos completamente esse precioso bem! Utilizar uma porcentagem desse tempo ocioso e transformá-lo num bem social, através de projetos colaborativos resulta em uma série de benefícios. Mas como mensurar a dimensão desses benefícios? Inevitavelmente, depende do nível de engajamento e reciprocidade dos indivíduos.

Cá entre nós, teorias à parte, basta ir ajustando o nosso modo de vida e partir para a ação. A vida é movimento. Simplicidade, como antigamente! Colabore com um amigo, colabore com a sua escola, colabore com o seu bairro, colabore com os projetos que você se identifica. Que prejuízo você terá?


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O labirinto vivo


O vento anuncia a proximidade de mais uma tempestade de verão com energia e fúria contagiantes. É um vento punk, um punk rock clássico. Para a sacola plástica, só resta se deixar levar praticamente sem resistência em direção ao céu. Quem invejaria uma sacola? Sem rumo, ela facilmente deixa para trás todos aqueles muros que se erguem com milhares de tijolos de motivos. A beleza do vazio, da completa ausência, do nada. Um balé suave por ares agitados. O nada flutuando entre janelas e tentando seduzir em vão os colecionadores de expectativas.

Do alto, talvez eu poderia ver tudo apenas como um pequeno labirinto vivo. Quer se esteja lá no norte ou aqui no sul, parece opressor demais estar na superfície. Daqui é possível grafitar as paredes desse labirinto, alimentar e colorir os sentidos. É possível se exercitar entre o verde programado e ao redor de um lago artificial ou quem sabe trocar algumas palavras com o senhor desconhecido, em busca de um sinal, de uma pista, de uma migalha suficientemente capaz de amenizar essa fome mordaz por um sentido qualquer. 

A chuva passa e refresca os ânimos. Mais uma noite chega, aos poucos as luzes se apagam, e todos se recolhem em suas micro experiências diárias. Sonhos calmos e agitados. O inconsciente berra e depois sussurra. O labirinto está aí? Por que não trapacear? Será que é possível escalar e pular o muro? A vertigem sequestra a coragem e a queda é inevitável. Um segundo antes do baque, o despertar salvador. É bom estar vivo. É um alívio estar vivo. A distância entre o inferno e o paraíso pode ser percorrida durante algumas horas de repouso.

Tantas perspectivas possíveis, mas quantas resistem até a próxima tempestade? "O homem é a criatura que, para afirmar o seu ser e sua diferença, nega", já dizia Camus. Poucos se deixam levar pelo absurdo e negam, negam, negam. São máquinas de negar. Não vivem do absurdo, mas sobrevivem da negação. Até mesmo a paz, que não por acaso quase sempre chega por acidente, logo será refutada. A busca pelo caminho ideal continua, enquanto a velha sacola toca o chão novamente.



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No limbo


Segundo o engenheiro eletrônico, matemático e criptógrafo norte-americano Claude Shannon, autor do livro A teoria matemática da comunicação, "informação é tudo aquilo que reduz a incerteza". Agora me responda: como você se sente no meio desse colossal e crescente emaranhado de conteúdo online? Frustrado e inseguro? Extraviado como chinelo de bêbado? Faceiro como mosca em rolha de xarope?

Esse fluxo ininterrupto e de alta rotação nos faz querer dormir do lado do celular ou mesmo do computador (!), consumindo informação de maneira quase doentia. Monitoramos o que nossos amigos estão fazendo, lemos as notícias da última meia-hora, pesquisamos sobre a dieta do momento e abastecemos o Kindle com mais de duzentos novos livros (não sou hipócrita, falo por experiência própria). Arrisco dizer que consumimos mais informação em apenas um ano do que os nossos bisavós consumiram durante a vida toda! 

Vejamos alguns dados curiosos que circulam pela internet:

Mais de 1.000 novos títulos de livros são editados por dia em todo o mundo. Nesse momento, estão em circulação mais de cem mil revistas científicas. Existem mais de três bilhões de páginas disponíveis na internet. Entre 1986 e 2007, produzimos 296 exabytes de conteúdo. Exabytes? Um exabyte equivale a cerca de um bilhão de gigabytes. Ainda está difícil? Em termos físicos, "esse valor equivale a uma pilha de CDs de 400 metros de diâmetro, capaz de ultrapassar a altura da Lua", de acordo com Martin Hilbert, pesquisador da University of Southern California.

Você pode até me chamar de alarmista ou de lunático, só pra aproveitar o gancho, mas vamos em frente. O excesso de estímulos pode nos empurrar para o limbo. Podemos nos anular completamente. Esse é o problema-chave, o fator número um que me levou a escrever esse artigo. A partir dos anos 2000, começaram a surgir as primeiras pesquisas sobre as consequências do excesso de informação. Os pesquisadores constataram algo interessante e assustador: uma das sequelas do consumo massivo de conteúdo é a dificuldade na tomada de decisão. Desde pequenas decisões diárias até grandes decisões que podem influenciar no curso de vida do indivíduo. Eu demorei uma eternidade para compreender isso plenamente. E o pior: só compreendi quando estive envolvido nessa situação no nível mais hardcore, me sentindo completamente anulado.

Lemos sobre os problemas do capitalismo e nos desestimulamos a empreender de forma criativa, de acordo com os nossas premissas pessoais, pois achamos que nada mais vale a pena; nos empanturramos de notícias sangrentas e nos deprimimos achando que o mundo merece um "reset"; nos sentimos miseráveis porque nossos amigos do Facebook estão curtindo as férias na Europa e a gente não tem grana nem pra ir ver o filme novo do Tarantino; não sabemos mais que cerveja beber porque algumas "podem ser potencialmente cancerígenas"; o nosso prato preferido era saudável e nutritivo, mas agora virou um vilão da alimentação saudável; a arte não flui porque estudamos demais e produzimos de menos e por aí vai... O processo cognitivo relacionado a tomada de decisão se torna caótico, semelhante a uma bola de pinball sendo jogada de um lado para o outro.

Em um nível mais avançado, refletindo a partir de uma perspectiva mais ampla, se adotarmos a premissa de Shannon temos que repensar seriamente a nossa relação com a internet, pois frequentemente escavamos em busca de um Santo Graal do desenvolvimento pessoal, ou seja, de algo que transforme a vida, que resolva todos os problemas, quando na verdade deveríamos buscar simplesmente um pouco de silêncio. Em outras palavras, vemos no Google um oráculo pós-moderno. Basta digitar lá e a mágica acontece. 

Vale ressaltar que eu não tenho uma visão negativa a respeito da tecnologia, em si. Sempre tive uma forte veia autodidata e a internet se tornou a minha escola preferida, seja para aprender a tocar um instrumento musical, aumentar minha bagagem cultural ou até mesmo para discutir e compartilhar técnicas específicas relacionadas ao meu trabalho. No entanto, em alguns momentos, eu exagerei. A internet se tornou a vilã da história. Como não quero que vire um relato do tipo Alcoólicos Anônimos, vou lhe poupar dos detalhes.

E a solução? Filtrar os estímulos externos. Isso deveria se tornar tão vital quanto respirar. Não é por acaso que um dos pilares do budismo é a "atenção plena", ou seja, só é possível se livrar das armadilhas externas e mentais monitorando constantemente os pensamentos assim que eles surgem. Com um pouco de treino, lembrando desse conceito ao acordar, por exemplo, você começa a progredir. Ele vai proteger o seu "sistema operacional", sendo uma espécie de antivírus. 

Devemos compreender também que temos o nosso próprio ritmo e que devemos respeitá-lo. Essa clareza ajuda a evitar outro problema decorrente da overdose de informação: o transtorno de ansiedade. Não temos a obrigação de estar sempre antenados. Surfar todas as novas ondas não necessariamente nos deixa um passo a frente em relação aos demais. Não é fácil, pois somos atraídos pelo fluxo e detestamos "estar por fora". Contudo, podemos sair do piloto automático, evitando gravitar totalmente anulados e sem rumo pelo limbo. Basta um pouco de sobriedade e temperança.




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A crise migratória na Europa e suas razões



O drama atual dos refugiados que chegam à Europa é um reflexo direto da crise política que vivem diversos países do Oriente Médio e do Norte da África nos últimos anos. No centro do furacão estão Síria e o Iraque, pois é lá que grupos extremistas, como o Estado Islâmico, juntamente com outras organizações similares à Al-Qaeda, espalham o terror. Ganhando território e impondo, por meio da violência, o seu retrógrado sistema de Califado, idealizado pelos extremistas como solução (teocrática!) contra qualquer outra forma de governo, o Estado Islâmico avança, deixando para trás um rastro de sangue e de atrocidades quase inacreditáveis. Na lista destas ações estão a destruição dos templos de Bel e Baal-Shamin, em Palmira (considerados patrimônio da humanidade), de dezenas de relíquias arqueológicas milenares no Iraque, além da execução de mais de 1.500 prisioneiros. "Podemos confirmar a destruição do principal prédio do templo de Bel, além de várias colunas em suas imediações", informou o Instituto das Nações Unidas para Formação Profissional e Pesquisas (UNITAR), segundo reportagem publicada no site G1, no dia 1° de setembro. Mas, nem tudo é o que parece, pois a devastação deliberada dos sítios arqueológicos não é apenas motivada pela fé cega (fim da idolatria), mas serve de fachada para o roubo e o comercio ilegal dos “espólios de guerra” no mercado negro de Londres.

Como se não fossem suficientes as decapitações, crucificações e queima de seres humanos vivos, tudo gravado e divulgado com requintes de crueldade, o grupo extremista muçulmano Estado Islâmico, tem participação indireta na morte de mais 100.000 pessoas na Síria. Desde o inicio dos conflitos, em 2011, para a derrubada do regime de Bashar al-Assad, o país mergulhou em uma guerra civil sem previsão de término. Motivada pela irredutibilidade do presidente de um lado e pelo ódio dos grupos religiosos sunitas e de oposição de outro, a guerra vitima principalmente civis, somando mais de 240.000 mortes. Mas o horror não se restringe apenas ao Iraque e a Síria. De acordo com o jornal O Globo, são nove guerras civis acontecendo nos países islâmicos, desde o Paquistão até a Nigéria. Até agora, ainda conforme o periódico, foram mais de 11 milhões de sírios a abandonarem suas casas, sendo que deste total, aproximadamente 4 milhões refugiaram-se em países vizinhos. Turquia, Líbano, Jordânia, Iêmen, Líbia, Somália, todos países considerados “falidos”. Falidos hoje, pois já abrigaram milhares de refugiados no início dos conflitos, com exceção da Somália. Falidos por que sofrem com as guerras internas, sendo fendidos de ponta a ponta por gangues de criminosos, protegidos principalmente sob a bandeira do extremismo religioso.

Estes grupos, que agem de forma muito parecida entre si, vêm sendo financiados por banqueiros internacionais escusos, que jamais assumem suas ações sob a luz do dia e assistem ao Oriente Médio e ao Norte da Africa se desintegrarem na segurança de suas fortalezas no coração da Europa. Mas esta é a intenção. Absurdamente ricos, eles jamais serão afetados pela crise migratória. E, através dos extremistas, eles já conseguiram alterar significativamente a geopolítica da região. Mas ainda não terminaram. Nomes como Jabhat al-Nusra, Ahrar al-Shan, Boko Haram, Al-Qaeda e o infame Estado Islâmico, tornaram-se famosos no mundo pelo fanatismo e disposição para o cometimento de crimes inenarráveis, assim como pela intenção de propagar a violenta imagem do Islã sunita para o resto do planeta. Se uma solução (mesmo que radical), não for encontrada em breve, os perigosos objetivos destes personagens irão, inevitavelmente, se consolidar. Se isso acontecer, conflitos ainda maiores poderão agravar dramaticamente a crise migratória, com consequências nefastas não apenas para o continente europeu. 

Se a intenção é fomentar a crise, é por que quem opera o caos a partir das sombras pretende se beneficiar ao pescar em águas turvas. O resultado disso é o que temos visto acontecer na Europa. Uma fuga em massa de cidadãos que clamam por uma chance de viver com dignidade, longe dos sequestros, estupros, linchamentos, decapitações, bombardeios e horrores promovidos pelos grupos guerrilheiros e pelos próprios governos. Cidadãos já sem pátria que, antes de tudo, são seres humanos, arriscando a vida ao atravessar o Mar Mediterrâneo em barcos precários e superlotados, buscando um acolhimento que existe somente em suas esperanças mais sinceras. Refugiados que, no afã de cruzar a linha cruel entre o terror da guerra e um futuro menos incerto, são recebidos a chutes e pontapés, como vimos na imprensa mundial, há poucos dias, quando uma cinegrafista húngara agrediu despropositadamente crianças e pessoas de idade que tentavam escapar das autoridades. Provavelmente uma representante da extrema direita europeia e de suas politicas xenofóbicas.

Onze milhões de sírios estão se espalhando pela Europa e Oriente Médio neste exato momento. Dois milhões e meio de iraquianos abandonaram seu país e estão tendo o mesmo destino. Cento e quinze mil refugiados, somente neste ano, percorreram mais de 1700 quilômetros da Costa da Líbia até a Itália, sem contar os milhares que tiveram o sonho interrompido ao afogarem-se no mar. No ano passado foram 112 mil a percorrerem o mesmo caminho. Mais de 1,5 milhão de cidadãos do Sudão do Sul abandoaram suas terras desde 2013. Hoje o número de pessoas que tenta chegar à Grécia pelo Mediterrâneo cresceu de 45 mil para 239 mil! Um aumento de quase 500%. A Alemanha começa a dar um bom exemplo ao resto do mundo afirmando que receberá até 800 mil refugiados em seu território. Um bom sinal, mas a iniciativa esconde outros objetivos por trás da hospitalidade, entre eles a necessidade crescente de mão de obra barata. A esta altura a foto do menino sírio Alan Kurdi, encontrado morto na praia de Ali Hoca, em Bodrum, na Turquia é apenas um pálido reflexo do que realmente está ocorrendo. A imagem que fica, para que possamos refletir e tomar nossas próprias conclusões, são as cenas de violência na fronteira da Sérvia com a Hungria (que deixaram dezenas de feridos dos dois lados, incluindo crianças), em que centenas de refugiados foram recebidos com bombas de gás lacrimogênio e jatos d’água. Eles nem sequer pretendiam ficar no país, queriam apenas cruzar a fronteira em busca de uma vida um pouco mais digna no continente europeu.



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O retronauta


Tínhamos apenas um plano A ruidoso e enérgico que vibrava em nossas almas. Condensávamos o eterno de mãos dadas com a morte. Confortavelmente alheios aos sinais. Confortavelmente alheios aos olhares. Tínhamos um sentido claro, porém indizível e isso bastava. Estávamos conectados por um tipo de amor primitivo. Precisávamos uns dos outros mesmo que nunca falássemos sobre isso. Vivíamos plenamente e sequer suspeitávamos.

A linguagem jamais será suficiente para traduzir certos momentos e percebo o quanto me limitei desde então. Todas as experiências devem ser traduzidas? Corro o risco de colocar as palavras erradas e reduzir o que vivi a uma narrativa pálida ou maquiada. Contudo, em algum lugar da minha mente existe um pescador tenaz que não vai desistir de fisgar memórias e depois contar tudo à sua maneira, quer se acredite ou não.

Mesmo a milhares de quilômetros de distância, eu tenho certeza de que poderia ouvir os ecos vindos daquela cidade. Algo mágico ressoa por lá entre o passado e o futuro. Será que aquela frequência extraordinária ainda pode ser sintonizada? Quem ainda dança no porão dos sonhos? O que será possível encontrar além de mofo e cacos de sábados perfeitos? Sempre subestimei o poder das lembranças e agora percebo que estou realmente em apuros.

A força do agora me faz avançar enlouquecidamente. Às vezes tenho que sair correndo e pegar o que dá. Quantas coisas já ficaram pelo caminho. "É preciso entender o fluxo, a correnteza". Não, mas eu preciso voltar pra compreender o que perdi. Fui crescendo e me encolhendo no útero apertado de uma consciência precoce. Minha inocência ficou em algum lugar entre a casa da vó e quadra de futebol do colégio velho. Recolheram os meus jogos e mudaram minha cama de lugar. Minha tia pegou o seu violão de volta. Esvaziaram os meus bolsos e me deram um diploma. Enchi minhas estantes de frivolidades. Os amigos partiram. Ou será que fomos todos sorrateiramente levados? Mas não estávamos sempre de mãos dadas com o livre arbítrio?

Quero tirar essa história a limpo, mas minha cabeça não ajuda.  Vou ter que apelar pra malandragem. Farei um relógio que gira ao contrário e uma nave "especial". Serei um retronauta. Já tenho um capacete e uma rota pra desbravar a imensidão desse espaço misterioso. Só preciso entender ou quem sabe desentender um pouco mais. Aquele pequeno ponto luminoso ainda está lá.




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The end, madrugada



O fino feixe de luz marca o horizonte. Lembra ferro incandescente ou o fundo de uma garrafa de uísque quase vazia vista contra a luz. Luz é o que mais vejo nesse momento... 

“Faróis de carros. Postes na rua. A eletricidade destaca tudo. Vitrines com manequins de olhar estático. Calçadas com pessoas de olhar elétrico. Copos, goles, celulares. As placas de PARE mandam, por todos os cantos da cidade, fim de festa. 

A pressa de viver deixou espalhados pelo chão centenas de copos descartáveis. Algumas pessoas, sem querer, imitam o destino dos copos descartáveis. Uns em pé, meio cheios meio vazios. Outros pisoteados, partidos, com algum resto de líquido ou amor próprio. A noite é mesmo cruel com copos e pessoas frágeis. 

De pés descalços e vestido de um comprimento que quase revela a intimidade, - escreve buceta e deixa de ser puritano - uma menina chora sentada no cordão da calçada. Se olhássemos de perto, veríamos as lágrimas carregando a maquiagem até as maçãs do rosto. A sombra mistura preto com o tom rosado da pele. Aquarela? Tinta a óleo? Que tipo de moldura? A cena daria um bom quadro. 

Dramático, um homem chega ao seu lado e nem repara no choro. Hipnotizado pelas latas de alumínio que circulam a moça ele solta fumaça pelo canto da boca e cata uma a uma. A demonstração de felicidade é cinza e vem dos pulmões. O alumínio vai virar níquel. O níquel vai virar pão, cachaça ou fumo. Se der para os três, que sorte a dele. Cães o acompanham. Por um momento o catador lembra um nômade do século 21. Como na idade da pedra, caçador coletor. Hoje, de rua em rua, indiferente aos sinais de Wi Fi, ele procura onde a “lata” é mais abundante. 

Outros cães compõem o mesmo ambiente, machos e fêmeas, vestem roupas de grife. Trazem nos pulsos o tempo em ponteiros caros e fitas coloridas. Falam alto. Riem da moça sentada no cordão, do catador, e deles mesmos. O reflexo no vidro dos carros causa graça. Registram os momentos. Apelam e mostram a fé em Jesus Selfie. Distorcidos, tontos pelo álcool, se escoram na parede e na posição social. Pensam estar por cima e a falsa ideia de superioridade lhes deixa cegos. As fitas nos pulsos, - aquelas que diferenciam as pessoas nas festas – já não têm a mesma serventia, agora, parece que a única utilidade é indicar o que é esquerda e direita. Coitados de nós, brasileiros, que ainda precisamos de muitas fitas coloridas nos pulsos. 

Na outra calçada surge uma mulher vestida totalmente de branco. A lenda urbana seria confirmada, não fosse por ela carregar uma bolsa, um jaleco e um guarda-chuva. A cor da roupa e o coque no cabelo denunciam, ela vai cuidar da saúde dos outros. Assombrada, cara de sono, segue caminhando e olhando para o conjunto de cenas em frente ao último bar aberto. A moça que chora, o catador e seus cães, os cães com pulseira VIP. 

Na cabeça da mulher de branco é como se fosse um filme assistido pela metade, alguém que dormiu e acordou nos minutos finais. O sol já está transformando preto em azul.” 

...Fechei o cantinho da minha cortina. “Viver é um transitório e terrível estado de graça.” The End, madrugada.


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Nós somos a resistência


Depois de um breve período ausente, estou de volta. Os compromissos de trabalho e os imprevistos da vida me tiraram de campo por um tempo, mas a vontade de compartilhar experiências sempre se manteve intacta!

Lendo a recente biografia do Guga (Guga, um brasileiro), comecei a ter lampejos de consciência acerca da minha própria caminhada. Acredito que seja algo natural entre os amantes da literatura. A gente se deixar levar pelas histórias e, sobretudo, se identifica em maior ou menor grau com determinadas passagens, dependendo do nosso contexto.

Lá pelas tantas, o Guga fala sobre como é estar no topo, ser o número 1 do mundo no tênis. A princípio, nenhuma grande novidade: é preciso conviver com a enorme pressão dele próprio para ser cada vez melhor, além de saber lidar com o assédio da imprensa e dos fãs, acostumados com os repetidos sucessos do Brasil em outras modalidades mais populares (na época, futebol e F1). No entanto, ele continua a sua reflexão e toca num assunto interessante:

"No tênis, além do meu pai e do Larri, até os meus 20 anos, ninguém esperava que eu fosse me tornar o maior tenista do planeta. Mesmo eu tinha extrema dificuldade para me convencer disso. No Brasil, de maneira geral, convivemos com o hábito de depreciar nossa capacidade e nossos valores. Cresci envolvido nesse contexto [...]"

Infelizmente, foi assim comigo e talvez com você também. Não sei exatamente quando começou a circular essa espécie de "vírus da alma" que tantos males vem causando ao longo dos anos. Olha, é algo digno de estudo acadêmico. Confesso que ainda não estou plenamente curado, mas tenho fé que falta pouco.

Até por volta de 2010, no meu caso, eu seguia na base da encenação. As minhas convicções eram cambaleantes e os resultados dos meus esforços só enganavam os menos atentos. Eu fazia um vídeo pra faculdade e "poutz, alguma coisa não tá legal"; criava algumas músicas em casa (minha paixão eterna) e parecia que batia na trave; no trabalho, me empenhava até o limite do possível e não via quase nenhum progresso. Eu vivia numa inconsistência constrangedora e não via uma saída sequer. Na época, eu conversei a respeito disso com a minha família e até cogitei mudar de curso ou trancar a faculdade pra dar uma espairecida. Com a incentivo deles ganhei fôlego e decidi continuar, mas ainda sentia aquela fragilidade emocional. 

Começou um novo semestre e surgiram as primeiras figuras-chave da minha vida. Comecei uma disciplina chamada "Elementos de linguagem musical" com um professor que era novo na área. Era um figurão! O professor Gerson era conversador, agitado e com uma energia incrível. O que mais chamava a atenção nele, contudo, era a sua capacidade de simplificar e "destravar" as coisas. Nada era impossível. Seja lá qual fosse a maluquice que se tinha em mente, ele dava um jeito de operar. Criamos curtas (a minha história mais bizarra no curso envolve um desses pequenos filmes), uma radionovela e alguns projetos paralelos. A própria trajetória de vida do Gerson mostrava que ele tinha descoberto uma forma de se curar do tal vírus e queria compartilhar isso. Ele havia começado a cursar música numa universidade federal com 27 anos - relativamente tarde para os nossos padrões e mais ainda para algo de alto nível. Não é absurdo, mas exige um baita empenho. Mas ele foi lá e deu um jeito. Além de professor universitário, era produtor musical e já vinha sendo reconhecido por trabalhar com áudio para filmes.

Eu sentia que o clima estava mudando e decidi arriscar mais. Passei a botar no papel todas as ideias que pintavam na mente. Também me escalei pra criar o tema musical da radionovela que depois foi elogiado pelo professor e pelos colegas. No futuro, aquele sopro de incentivo seria o suficiente pra que eu criasse um disco inteiro no meu próprio quarto e viesse a realizar um dos maiores sonhos da minha vida: ter uma música minha tocando na rádio! Que mudança. Lembro também que ele foi o primeiro a insistir na ideia de que a gente deveria valorizar mais os nossos trabalhos e inscrevê-los nas mostras competitivas de cinema. Até poucos meses atrás, eu não queria mostrar nada nem pra minha mãe e agora estávamos mandando nossos filmes pro Brasil inteiro. 

E não é que o sujeito tinha razão nisso também? Alguns colegas começaram a ser premiados aqui e ali. O ambiente ficou mais competitivo. Nem parecia mais o mesmo curso. Era o nosso momento. Beliscamos algumas mostras competitivas e ganhamos confiança. Em 2012, no ano em que lancei meu disquinho, também encerrei a minha graduação levando um prêmio importante com meu trabalho de conclusão, um curta-metragem chamado "Dia da verdade". Nesse período fui orientado pelo professor Jair, outra figura importante e incentivadora, que sabia extrair 101% dos alunos nos momentos mais decisivos! De um modo geral, foi inacreditável a mudança que ocorreu em apenas dois anos. 

Saímos do ambiente acadêmico e encaramos a realidade brutal do mercado de trabalho. Muitos ficaram pelo caminho. Por vezes, as coisas demoram um pouco para engrenar, dependem de uma série de fatores além da nossa vontade e se torna uma parada duríssima manter o planejamento. No entanto, muitos também estão em empregos bacanas ou com seus próprios negócios e projetos. A verdade é que se você tem força de vontade suficiente pra se curar desse vírus (também conhecido historicamente como "complexo de vira-lata", forma pela qual o Nelson Rodrigues se referiu ao fenômeno) você vai vencer, cedo ou tarde. 

Oscilaremos, assim como os nossos ídolos oscilaram por diversas vezes. Faz parte da jornada, somos de carne e osso. Aos poucos também teremos a clareza sobre a efemeridade das conquistas pessoais. A impermanência vai nos dar uma outra perspectiva. Porém, a crença nos nossos valores deve ser inabalável. Jamais podemos baixar a guarda. Temos infinitas possibilidades de nos reinventarmos, de criarmos um contexto mais positivo para as pessoas do nosso círculo social. Nós somos a resistência! 



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Como você edita o que vê?


Quando comecei a gravar e editar vídeos, há oito anos atrás, eu apenas fazia tudo de modo muito técnico, deixando passar muitas experiências. A estética falava mais alto e o conteúdo bruto era pouco lapidado ou então era lapidado com base na rigidez do formato estético que se buscava. Aos poucos, fui buscando um equilíbrio nesse sentido.

Iniciei o dia editando um novo documentário e, mais uma vez, fico emocionado com os fragmentos de história que tenho a oportunidade de conhecer. Penso que se estivermos realmente em sintonia com aquilo que fazemos e com a realidade que nos rodeia, teremos acesso a alguns tesouros. Diz o coach que só passamos a enriquecer materialmente de fato quando passamos a entender e resolver os problemas dos outros. Em meio a selvageria do meio empresarial, não deixa de ser uma constatação sábia. De modo espiritual ou pelo viés da sabedoria, acredito que enriquecemos quando temos a capacidade de entender a trajetória e a intrincada complexidade de cada ser humano. Só compartilhamos experiências (as riquezas fundamentais) quando estamos conectados com o outro de alguma forma. Se não houver empatia, a relação se desenvolve como um rádio que só emite chiados e informações que não são captadas plenamente. Um simples ajuste de configuração pode melhorar tudo. 

Ao editar uma entrevista, conheci a história de um professor que teve que lutar para conseguir construir uma escola na comunidade na qual morava, isso lá na década de 40. Depois de pronta, a escola não tinha livros e a estrutura era bem precária, mas ele não mediu esforços para ensinar as crianças. Cabe salientar ainda, que ele e seus familiares tiveram que lutar para chegar com vida até o local em que iriam se estabelecer. Passaram semanas na estrada, viajando de carroças com a mudança por estradas enlameadas e diante de um clima intensamente chuvoso. Como se não bastasse, a comida começou a ficar escassa e era preciso abrir estrada no meio do mato para seguir viagem num determinado momento. Ao chegar, tinha início um novo desafio: construir moradias, plantações e tudo o que era necessário para que a pequena vila prosperasse. Eram outros tempos. Enquanto eu tomava conhecimento daquela incrível odisseia, fiquei me perguntando quantos teriam coragem hoje em dia de fazer aquilo tudo? 

Atualmente, dispomos de um arsenal de desculpas para continuar na mediocridade. É o governo, é o tempo, é a saúde, é o medo, é o azar, é o capeta, é a falta de dinheiro e é tudo junto somado a alguma coisa que não conseguimos nomear... Mas que interfere, interfere. "Meu Deus do céu, é tudo tão complicaaaado". Talvez, tenhamos nos perdido na vastidão de um vazio de significado. Foi essa epifania, aliás, que levou Viktor Frankl, psiquiatra austríaco, a desenvolver a Logoterapia enquanto estava vivendo dias terríveis preso num campo de concentração nazista durante a Segunda Guerra Mundial. Foi roubando papéis de um escritório do campo que ele esboçou o seu livro "Em busca de sentido", que explora o sentido existencial/espiritual do indivíduo. O que nos mantém vivos? Para ele, basta um forte significado para viver. Um objetivo claro pelo qual lutar, em outras palavras. No caso de Frankl na época, o objetivo era simplesmente escapar com vida (o que de fato aconteceu quando as tropas americanas libertaram o local). Para os desbravadores que entrevistamos para o documentário, talvez seja dar condições de vida melhores para os filhos e netos.

De acordo com alguns psicólogos, esse imenso vazio pode ser considerado como o fator determinante para a depressão e, inclusive, para casos de suicídio. A depressão já é a doença mais incapacitante, segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS). Se trata de uma crise global e que infelizmente continua crescendo de maneira alarmante. Comentei com a minha equipe de trabalho o quanto esses depoimentos que foram captados estavam impactando positivamente a minha vida. A diretora do projeto sorriu e me disse que era a "Catavento terapia" (Catavento é o nome da empresa para a qual eu presto serviço). Brincadeiras à parte, era realmente isso mesmo. Ao me sintonizar com aquelas pessoas, eu estava encaixando peças importantes do meu quebra-cabeças. Passei a entender o que estava mudando de uma geração para a outra e como eu me via em relação aos meus antepassados.

Já em casa, entre goles de café e no conforto de um condomínio fechado - fechado para o externo e fechado também para o próprio interno, entre trincheiras numeradas, olhos mágicos e regras frias de convivência pregadas no elevador - consigo refletir com uma dose ácida de clareza. Penso que estamos cada vez mais distantes de um sentido de comunidade e, pior, estamos distantes de nós mesmos. Muitas vezes não estamos sequer dispostos a iniciar uma revolução interior, visando uma melhor qualidade de vida. Não conseguimos nos motivar para que possamos evoluir e assim, consequentemente, não conseguimos ajudar ninguém, nem minimamente. Como você edita o que vê? Como você estrutura a realidade em que vive?



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