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Passa-tempo

Da primeira à última palavra. Vim para ser banal. Confirmar que na vida cabem comparações das mais variadas. 

Dou um tapinha nas costas. Aprovo as palavras daquele que afirma que a vida assemelha-se à subida de uma longa escada. Degrau por degrau. Há momentos sem corrimão. Prédio antigo sem elevador. Mas quem será que mora na cobertura? Quem conhece o zelador?

Sorrio para outros ainda mais poéticos. Os que dizem que este período entre o nascimento e a morte tem os mesmos elementos do curso de um grande rio. Momentos de fúria e correntezas. Pedras, curvas, lixo e remorsos acumulados na margem. Terra arrastada. Represa de anseios. Erosão de sentimentos. 

Logo em outros trechos do mesmo rio, temos água calma e parada. Céu refletido no espelho d’água. Pai pescando com o filho. Mãe esperando ansiosa. Pastor batizando o rebanho. Procissão de barcos. 

Sendo a vida um rio, ocorrem enchentes. A fé desce por água abaixo. Leva casas, carros e cães. Coisas que amamos. Peixes e esperanças, os dois escassos. Rede vazia. A fome é um bicho de sete cabeças contaminado por mercúrio. Moramos num grande aquário. Mário Quintana escreveu: Para os peixinhos do aquário, é Deus quem troca a água... Imagino o tamanho do balde.

Entre tantas comparações, confesso a minha total admiração, morro de amores, por quem fala que a vida é uma viagem. Que grandiosa banalidade. E eu, feliz, embarco nessa. Raso feito uma tampinha de garrafa, coloco um detalhe íntimo. A vida é uma grande viagem onde todos montam os próprios Quebra-Cabeças. 

Sem paradas. Passagem só de ida. O maquinista colocou no piloto automático. Vamos sacolejando até a estação final, entretidos entre uma peça que não se encaixa e outra que julgamos ser perfeita. 

Passamos por túneis. A escuridão nos faz perder peças ou quase perder a cabeça. As peças que surgem da caixa do jogo, misteriosamente refletem nossas atitudes. Cada uma é um pedaço de espelho. Se forçar o encaixe elas se quebram. As suas e as minhas digitais marcadas em todos os movimentos. 

Estrada de ferro cheia de curvas. Os trilhos têm a força do destino? Coloco a cabeça para fora da janela. O trem avança rápido. Solta fumaça a locomotiva. Ventania. Olho para trás. Nada além de vagões a perder de vista. Volto os olhos para o meu Quebra-Cabeça. Roubaram algumas peças. Mas quem, nesse trem lotado de gente? 

Soa estranha essa (des)graça de viagem. Essa finitude certa. Embora não saibamos qual é a distância até a estação final, conheço pessoas que não querem chegar lá com o Quebra-Cabeça montado. Já jogaram as peças pela janela e agora curtem a viagem. Outros, só pensam nas próprias peças. De tão dedicados à montagem, chegam às raias do egoísmo. Extremos e extremistas trocam olhares desconfiados no corredor do trem.

Uns em pé. Outros sentados. Ouço comentários que no vagão da frente alguém desistiu da viagem. No mesmo vagão uma grávida dá a luz. A criança chora. A balança mantém o equilíbrio. Como não dizer: Que viagem! 

E tome mais carvão na caldeira. Sigo montando minha vivência. Peça por peça. Dentro do vagão vinte e nove, sentado na poltrona nº três. Murmuro palavras no ritmo da jornada. O rápido e incontrolável movimento desse trem imita o relógio na parede. Passa-Tempo. Passa-Tempo. Passa-Tempo... Acordo um quilômetro mais velho. 



Monocromática

A vida na cidade
Escoa 
No vão das grades
Ressoa 
Sob o som de alarmes
Ecoa 
Na ditadura das paredes 


A cidade infestada 
Monólogos
Celulares
Caras amarradas


Há pessoas
Em toda 
Parte
Chaves trancas câmeras


Olhares tristes
Nas vitrines
Nas calçadas
Nas sacadas 
Pétalas sem cor


A cidade infestada
Rios de carros
Mar de placas
Greve de risos
Bocas fechadas


Doces rostos raivosos
Desvios de caráter
Atores de quinta categoria
Manto de fios
A vida finda
Cinza
A cidade fica




Os Brasis e a Copa do Mundo

Os quintais estão em festa. Os brasileiros, cada qual em seus Brasis, “comemoram”, de modos distintos, a realização da copa do mundo de futebol. E tem turma comemorando a própria contradição. Ficaram anos sonhando com a segunda copa no país – a primeira foi em 1950, e agora, que ela está prestes a começar, criticam, dizem que vão boicotar, manterão as televisões desligadas. – Vou torcer pela Argentina. Ouvi de um colega da graduação. 

Outra turma sai e continuará saindo às ruas até que a copa termine. Protestam contra os gastos públicos e os incentivos dados à iniciativa privada para construir e reformar os estádios. Essa turma tem suas subdivisões e alguma razão em protestar. Alguns levam cartazes. Outros bradam frases de ordem como; “Não vai ter Copa”. E ainda tem aqueles que prometem quebra-quebra, como se isso, nessa altura do campeonato, impedisse a realização do evento.

Os protestos, - não falo em quebra-quebra, deviam ter ocorrido, no mínimo, em 2006. Naquele ano começavam, efetivamente, os preparativos para a candidatura brasileira. De que adianta promover a baderna no entorno dos estádios como estão prometendo? Colocar fogo em pneus, apedrejar ônibus, danificar patrimônio público, fará retornar aos cofres públicos os 25,6 bilhões de reais já “investidos” em obras para a realização do evento? O tom ambíguo que dei a pergunta não é por acaso. Há razões para os protestos, mas, o momento oportuno, como falei, já passou. 

Seguindo a lista quase interminável de “comemorações”, há quem fique feliz com a possibilidade, - creio que remota, de que a copa dê totalmente errado. Que seja uma vergonha para o País inteiro e um fiasco internacional. Verdadeiro chute de canela. 

Importante citar que o interesse em ver o circo pegar fogo, não é mero espírito de porco. Existem interesses políticos no fiasco. Estamos em ano de eleição. O resultado da possível má organização do mundial, será usado como pano de fundo para futuras campanhas partidárias. Quem viver até 19 de Agosto, dia do início das campanhas políticas no rádio e na televisão, verá. 

Comemoração maior se vê daqueles que pintam os rostos com as cores da nossa bandeira. Colocam bandeirinhas nos carros. Nas sacadas. Pintam as ruas. Os turistas deliram com esse “calor comemorativo” que alguns brasileiros apresentam nesses dias de jogos. 

Bom seria se víssemos todo esse “calor comemorativo”, toda essa união em prol de um ideal, no momento de escolhermos quem vai governar o país nos próximos quatro anos. Lembrando que em 2016 os jogos olímpicos serão realizados no Brasil, Rio de Janeiro como cidade sede. Novamente os olhos e os interesses estrangeiros estarão presentes. Será que os gastos públicos com outro megaevento internacional serão, novamente, recordes? 

Para acabar com minha própria visão romântica sobre a democracia, recorro ao falecido, conservador e controverso político Inglês, Winston Churchill; "A democracia é a pior forma de governo imaginável, à exceção de todas as outras que foram experimentadas."

Por fim, há ainda quem comemore não a copa do mundo em si, mas sim, a movimentação do capital que ela proporciona. O espetáculo do futebol não é para o trabalhador assalariado, não vamos nos iludir. Mesmo que para realizar tal espetáculo, seja necessária a criação de vagas de empregos. Como será o equilíbrio da balança após a copa do mundo? Os Investimentos na copa serão equivalentes ao retorno para a administração pública e consequentemente aos cidadãos? 

Como um circo, a copa do mundo de futebol, orquestrada com mão de ferro pela FIFA, percorre o mundo exigindo dos países sede que se adequem às suas exigências. Isso inclui obras em vias públicas e desalojamento de moradores sem o devido processo legal, passando também por adequações em estabelecimentos comerciais, em grande parte estabelecimentos ligados ao setor de alimentação, atendendo aos contratos milionários da FIFA com os patrocinadores multinacionais. 

Evidente que melhorar setores sabidamente deficitários faz muito bem à população, mas, depois do mundial, essas exigências padrão FIFA, serão mantidas? O dinheiro investido na realização da “copa das copas” honrará o nome de investimento? Ouço a pergunta fazer ecos; Que legado a copa vai deixar para os próximos anos?


Então, nossa segunda copa do mundo vai ser marcada por inusitadas formas de comemorá-la? Talvez sim. Embora existam grandes oposições com relação à realização do evento no Brasil, cabe, agora, fazer tudo para que seja, ao menos, uma copa do mundo normal. Que os turistas sejam bem tratados. Que o transporte público apresente condições aceitáveis de uso. A segurança pública seja efetiva e o principal, algo que deveria ser rotina, que todos esses serviços públicos que citei, mais outros de suma importância, mantenham-se nas mesmas condições quando a copa terminar e os olhos estrangeiros voltarem-se para outro lugar do mundo. Afinal, melhorar o país somente para gringo ver, é coisa da turma que recebe a visita empurrando a sujeira para debaixo do tapete. E nos muitos “Brasis” que falei, nas inúmeras formas de “comemorar” a copa, temos grandes craques nessa modalidade.


Série Despertar: O medo de

Há uma apressada tentação em traçar uma linha imaginária e colocar lado a lado as palavras medo e despertar. Alinhar seus significados justamente para tentar entender como agem sobre nós. Com a mesma força que surge a tentação, surgem as dúvidas. Em que ordem tais palavras devem ser colocadas? O sentimento de medo antecede o ato subjetivo de despertar? A vontade de alinhá-las seria algo ordinário e errôneo? Algo como atribuir peso igual a moedas de tamanho e material diferentes?

Em uma primeira análise rápida e desinteressada, as duas palavras, bem como o que representam, parecem misturar-se em um emaranhado impossível de ser alinhado. Cortes no raciocínio e na própria carne serão necessários.

Em algum ponto remoto da existência humana na Terra, muito antes de surgirem representações simbólicas dos nossos pensamentos – palavras ou desenhos para expressá-los, o ser humano reagia a situações que colocavam em risco a sua vida ou que, aparentemente, sugeriam isso. Mesmo primitivo, aquele ser demonstrava traços daquilo que, com o passar do tempo, ganharia o nome de medo. Algo marcado em nosso DNA. 

Mesmo marcado em todos nós, não há como entrar no campo do medo coletivo, incutido em grande parte da sociedade moderna de maneira “mediática”, a intenção aqui é discutir o medo no campo subjetivo, tomando por base reflexões próprias.

Quando uma pessoa externa sua posição de que não tem medo de absolutamente nada, não estaria ela apresentando uma das formas mais básicas do medo? Pois, não estaria ela afirmando implicitamente que tem medo de sentir medo? Precisa ela, então, parecer alguém de coragem inabalável? Este medo em pequeno grau misturado com dúvida, travestido de afirmação, poderia atuar, talvez até erroneamente, como um escudo ao evitar que outras pessoas coloquem o rótulo de não corajoso no emissor daquela autoafirmação?

Ainda, quando alguém afirma não temer a morte, mas, emenda com outra afirmação, que tem medo da velhice, não estaria tal pessoa apenas declarando de uma forma velada seu medo de morrer? Tomando como ponto de partida que a chegada da velhice, o passar do tempo, aproxima dia após dia a pessoa da morte, fica evidente sua falha ao tentar enfraquecer o medo de morrer transformando-o em outro medo, o medo de ficar velho. Maquiando um dos medos, ela apenas troca seis por meia dúzia.

Se fosse possível, no final de nossa existência, contabilizar o tempo despendido somente imaginando os riscos que uma possível decisão acarretaria, seria este tempo a representação numérica, quantificada, do quanto desperdiçamos energia apenas tecendo receios? 

Receio, então, estaria numa espécie de primeiro fio condutor para outros possíveis sentimentos que se alinham com o medo. O receio, na maioria das vezes, é a fase mental em que a pessoa cogita a possibilidade que determinada situação, determinado ato ou omissão, possa gerar perigo para ela ou para outras pessoas. 

Quando vemos a imagem de alguém na beira de um edifício ou montanha, não sentimos uma espécie de receio ou medo que a pessoa caia? Inconscientemente, antecipamos o risco que aquela exposição ao perigo venha a trazer. 

Já o medo propriamente dito, algo com mais intensidade, repousa alguns fios acima do receio. Em um raciocínio lógico, mas aberto a todo tipo de equívoco, se nós continuarmos subindo o olhar para os fios condutores posicionados mais acima, a fobia, espécie de medo patológico, seria o último fio condutor de pensamentos e sensações que nos levam a uma condição dupla. Nela, apenas duas saídas parecem viáveis, permanecer estático ou retroceder diante do medo. 

Em grau máximo, a fobia paira sobre grande parte da razão do individuo. Quase que totalmente controlado por estranhas emoções, surge uma enorme leva de sensações e pensamentos que dominam corpo e mente. Ocorre a partir disso, a perturbação dos sentidos. O medo mórbido distorce a realidade. Não sobram fios onde possam pousar sentimentos que conduziriam o ser afetado a uma condição mais benéfica. O indivíduo está paralisado. Preso ao próprio medo. Tem, justamente nesse momento, a necessidade de esvaziar-se. De olhar sobre si e sobre aquilo que o aflige. Despertar é o marco zero pós-medo. É o vazio.


E se pudéssemos condensar em uma palavra todas as possíveis formas de despertar? Se fosse possível reduzir todos os filmes, livros, músicas, pesquisas científicas e conselhos sobre como enfrentar os próprios medos, que palavra restaria?  Reflexão pode ser a palavra restante. 

No exato momento em que alguém desperta para os próprios medos, encara-os, sejam eles meros receios ou enormes fobias, na hora que aprende a lidar com seus sentimentos e suas sensações decorrentes, ocorre o esvaziamento. Nesse esvaziamento, os possíveis fios condutores que levariam aos vários graus do medo, subitamente desaparecem. Nada mais está pairando sobre os sentidos e há uma comunicação mais confiável entre mente e corpo. 

É importante ressaltar que o esvaziamento não pode ser confundido, embora exista alguma semelhança, com o estado profundo de meditação, esta, é um grau elevadíssimo e talvez poucos consigam alcança-la. Esvaziar-se, seria a meditação em momentos diários, uma forma corriqueira de meditação. É o parar e pensar por alguns segundos. Técnica usada por atletas de vários esportes em momentos que necessitam de máxima concentração. É nessa cobrança, justamente por essa exigência, que surgem os medos.  

Um maratonista, por exemplo, que lidera a prova e no quilômetro final, sobre a pressão do cansaço e dos outros adversários, começa a se perguntar se realmente terminará a corrida em primeiro. Afastar esse tipo de auto pergunta e não ceder ao medo da derrota, nesse exemplo específico, é justamente o despertar para o vazio. O medo da derrota, a reflexão sobre esse medo e o despertar, isso tudo, em uma fração de segundos, por vezes até inconscientemente, o levarão até a vitória.

Outro exemplo que pode ser encaixado, com ressalvas, no ato individual de despertar, seria quando necessitamos criar uma barreira contra nosso nervosismo. Digamos que você tenha estudado meses para um concorridíssimo concurso, então, chega o dia da tão esperada prova objetiva. Na sala lotada onde vai ser aplicada a prova, momentos antes de ser distribuída, você sente a auto cobrança. Afinal, é o cargo dos seus sonhos e, como todos os outros candidatos, um entre tantos motivos de todos estarem tão nervosos, está o fato de que vocês dedicaram meses de suas vidas para essa prova. Logo, não interessa a questão se o candidato da mesa ao lado está mais preparado que você ou não, mas sim, o fator de refletir sobre o momento e tomar o controle de si. Controlar-se, automaticamente o coloca na frente de outros candidatos dominados pelo nervosismo. 

Você estudou e sabe disso, agora, tem que despertar para o fato que é só mais uma prova. E outras provas virão. O fim do mundo não é um caderno de questões múltipla escolha. Sem encorajar ninguém a fazer isso, mas, se você não tivesse estudado sequer um dia para essa mesma prova, será que a pressão em obter êxito no concurso seria a mesma?

Se você está perdido na selva e conta apenas com um canivete para sua sobrevivência, você vai fazer de tudo para garanti-la ou vai ficar sentado se lamentando por ter apenas este pequeno utensílio?

Depois que atingimos certa idade, nossos atos de despertar vão ficando cada vez mais raros. Não só pelo condicionamento natural que a sociedade nos impõe, mas também, por nossa própria culpa, passamos a repetir paradigmas negativos que se intercalam freneticamente imitindo um som que podemos batizar de rotina. Esse som rotineiro embala o sonambulismo da maioria de nós. Despertar do sono-andante, então, seria emitir outro tipo de ruído? Que tipo de ruído ouviríamos ao quebrar nossas próprias rotinas? 

Uma das mais belas fases da infância, para o terror da maioria dos pais, é aquela que a criança sente a necessidade de ver o que há dentro de seus brinquedos. Parece que, atingida pela rotina de apenas brincar, movida por um impulso natural, ela desperta e “quebra” a rotina dos brinquedos, não mais brinca com eles, mas sim, desmonta-os. É esse impulso natural, é essa curiosidade positiva, que deveríamos manter, como essência, pelo resto de nossas vidas. Manter a essência positiva da curiosidade pelo resto da vida, consequentemente, nos joga em inúmeras possibilidades. Outros horizontes são estendidos a nossa frente. Novas possibilidades trazem mais dificuldades. Porém, surgem os fatores relacionados a tudo que é desconhecido. Ressurgem, novamente, os receios, os medos e as fobias. Temos que enfrentar este ciclo.

Despertar seria aceitar os ciclos e as instabilidades da vida? Seria buscar o âmago verdadeiro daquilo que atrai nosso interesse? Creio, momentaneamente, que o ato de despertar é sustentado por dois pilares, como um pórtico de entrada. O primeiro pilar seria o autoconhecimento, devemos buscá-lo, mesmo que o autoconhecimento tenha o impagável preço de ser uma tarefa perpétua. O segundo pilar de sustentação do pórtico, é o conhecimento da sociedade que nos cerca e como esta é apresentada aos nossos sentidos. Treinar a percepção e evitar os curtos-circuitos embutidos em nós mesmos e no nosso modo de viver. Acordar, sem medo, a criança adormecida dentro de nós, para que ela volte a “desmontar brinquedos”.

Despertar, embora haja dúvida, é lutar contra uma força tão poderosa quanto a própria vida (seria a força da autopreservação?) que tende a nos manter na zona de conforto. Em última análise, podemos chamar tal força de “o medo de despertar?”

Ao receber a proposta de escrever este texto, com tema pré-definido, aceitei na hora. Porém, dias depois, fiquei adormecido pelo medo de escrever. Existem inúmeras possibilidades de abordar o tema, variadas eram as ideias-semente, mas nenhuma vingava. Apavorado, cheguei a cogitar a possibilidade de recusar o pedido. Com uma pequena tortura interna despertei. O medo ainda existe, mas voou para outro lugar.


Cada um de nós é como um homem que vê as coisas em um sonho e acredita conhece-las perfeitamente, e então desperta para descobrir que não sabe de nada. (Platão)


Série Despertar: Regidos pelo medo

Quase todos os dias, inevitavelmente, nos deparamos com os mais diversos tipos de imprevistos. Simples e complexos. Acordamos pela manhã sem saber o que nos espera. O que projetamos pode ou não acontecer. Medimos as incertezas pela velocidade das batidas do coração. Temos que tomar decisões. Somos levados pelo tempo e não podemos recomeçar do zero, mas podemos ir ajustando as velas durante a jornada. Por outro lado, precisamos também pisar em terra firme. 

Recentemente, tomei a decisão de me mudar para outra cidade, em outro estado. Minutos após a decisão, fui levado por uma onda, ou melhor, um tsunami de emoções. Contudo, já estava decidido e eu tinha que lidar com aquilo, tratando de dissipar a insegurança. Analisando o meu passado, percebi que parte do meu receio era devido a uma antiga mudança mal sucedida de cidade. Na época, então com vinte e poucos anos, recebi uma boa oferta de trabalho e não pensei duas vezes. Pensei uma vez só e mal pensado! Agora, eu tinha a consciência de que o contexto era muito mais favorável do que na ocasião anterior por diversos fatores, no entanto, ainda existia aquele frio na barriga. Na verdade, o que me faltava era entender melhor como age esse monstro invisível chamado MEDO.


Tenho medo de gente e de solidão
Tenho medo da vida e medo de morrer
Tenho medo de ficar e medo de escapulir
Medo que dá medo do medo que dá

Tenho medo de acender e medo de apagar
Tenho medo de esperar e medo de partir
Tenho medo de correr e medo de cair
Medo que dá medo do medo que dá

O medo é uma linha que separa o mundo
O medo é uma casa aonde ninguém vai
O medo é como um laço que se aperta em nós
O medo é uma força que não me deixa andar

Miedo - Pedro Guerra/Lenine

Em primeiro lugar, vamos aos aspectos biológicos. O medo, o estresse e a ansiedade ajudaram o homem primitivo a evitar o perigo. Analisar os riscos. Foram ferramentas evolutivamente importantes que auxiliaram no controle dos impulsos. Elas desencadeiam uma série de reações químicas no corpo que aumentam a eficiência do organismo, deixando-o pronto para a peleia, em caso de necessidade. Doses de endorfina, dopamina e adrenalina são lançadas para a corrente sanguínea e nós vamos progressivamente sentindo as alterações. Em algumas espécies, elas são inatas, vem desde o nascimento. Basta sentir o odor de um gato para que o rato se sinta em perigo, mesmo nunca tendo visto um felino antes. 

E qual será o papel do ego nas nossas construções mentais? O filósofo budista Han de Wit diz que o ego “é uma reação afetiva ao nosso campo de experiência, um movimento mental de recuo baseado no medo”. Criamos uma bolha (ego) e nos escondemos nela por medo do novo, dos outros, por receio de sofrer e assim por diante. É difícil se desapegar por completo dessa falsa noção de “eu”, mas o simples fato de se ter conhecimento do seu mecanismo já nos possibilita um enorme progresso.

Descobri também que o medo pode ser aprendido. Sim, pode. Já havia se dado conta? Pode ser aprendido por condicionamento, surgido de uma experiência ruim, por exemplo, que não queremos reviver. Exatamente o que estava acontecendo comigo. Então, procurei colocar tudo no papel para ter mais clareza. Separei um contexto do outro e analisei os detalhes sem pressa. Ao final do processo, superada a minha insegurança, comecei a me questionar sobre como o medo pode agir numa esfera maior. Eu havia acabado de lidar com um medo intrinsecamente meu, mas não pude fugir de uma monumental questão:

O medo pode ser plantado em nós intencionalmente? 

Partindo do pressuposto de que o medo condiciona, controlando a vida em maior ou menor grau dependendo do nosso nível de consciência, não é de se espantar que alguém queira utilizar essa brecha visando moldar uma pessoa ou grupo para as mais sórdidas finalidades. É o medo potencializado pela ignorância. Mesmo se o medo for apenas uma ansiedade generalizada, sem um porque aparente, o indivíduo vai ter o forte desejo de se livrar dessa “coisa” indefinida. Sem clareza, corre-se o risco de agir de maneira equivocada. 

O medo torna o indivíduo vulnerável. A História já nos mostrou inúmeras vezes as consequências catastróficas da exploração da vulnerabilidade por parte dos mais diversos aproveitadores. Desde Hitler (que encheu de promessas e iludiu o sofrido povo alemão pós-primeira guerra) até líderes de seitas religiosas como Jim Jones (que arquitetou o suicídio em massa de quase mil fiéis da sua igreja). 

Em determinados casos, essa desarmonia causada pelo medo pode afastar gradativamente a pessoa da realidade. Aos poucos, vamos percebendo o mundo através do olhar distorcido das nossas ilusões. Isso pode evoluir para uma fobia ou estado paranoico. Poderia me estender aqui citando também como exemplo a "cultura do medo", como é chamada por certos pensadores, que predomina há décadas nos Estados Unidos, mas isso é assunto para outro artigo. Vamos voltar para o núcleo.

Após ter estudado sobre o nascimento e disseminação do medo juntamente com seus derivados, acredito que a introspecção, ou seja, a observação dos nossos próprios processos mentais, tão em baixa atualmente devido ao aumento substancial de distrações de todos os tipos, ao que tudo indica, parece ser o antídoto a ser buscado para combater o medo. Digo combater, por tratar aqui daquele medo nocivo, que afeta o dia-a-dia do indivíduo.

O monge budista francês Matthieu Ricard argumenta que “o genuíno destemor surge com a confiança de que seremos capazes de reunir os recursos interiores necessários para lidar com qualquer situação que surja à nossa frente”. De modo abrangente, podemos fazer uma comparação com o que Morpheus diz para Neo em Matrix: “Não pense que é. Saiba que é”.



Biohacking

Para discutir um assunto polêmico como o biohacking, tive a ideia de escrever uma introdução puramente imaginativa, com a intenção de adentrar um pouco na mente de cientistas amadores e pesquisadores de garagem que estão revolucionando a relação do homem com a natureza. Mesmo um tanto quanto excêntrico, “Cromossomos de besouro” tem o objetivo apenas de introduzir um assunto quase inesgotável. Pouco conhecido no Brasil, o biohacking ainda vai dar muito o que falar, então o leitor pode sentir-se a vontade para comentar no final! 

Cromossomos de besouro

Hoje acordei com um besouro meditador incrustrado em minha parede. Meu HD é SempToshiba e eu continuo a olhar aquela criatura, imóvel. Nenhum membro, nenhuma antena se movia, nenhum um sinal de vida naquele corpo ali parado. Eu observei o animal por cinco dias e quatro noites, mas ele continua lá, sem se mover. Penso que coisas passam por sua mente. Imagino que experiências ficaram registradas naquele minúsculo cérebro. Ele continua lá. Imóvel. Paralisado. Aparentemente triste. Será que ele está triste? Será que existe algum sentimento no íntimo daquele ser? Um besouro meditador, era o que ele parecia. Não sei mais o que fazer. Talvez seja apenas um cadáver, ali enrijecido. Duro como a morte. “Libertários não morrem” – foi o que pensei.

Aquele pequenino ser, ali parado, com minúsculas garras firmemente presas nas microfissuras da parede azulada, me passava a impressão de que poderia permanecer ali por mais vinte ou trinta anos. Até se deteriorar tanto que a própria gravidade faria o serviço de removê-lo neste período. Quis retirar aquele animal dali piedosamente. Quis entende-lo e descobrir a razão que o levou a estacionar em minha parede, quando estava bem perto da morte. - “Será que ele está morto?” – me perguntava. Não consegui me compadecer pelo drama que o havia envolvido, mas particularmente interessei-me pela história que aquele animal carregava em seu exoesqueleto marrom-esverdeado. De onde teria vindo? Que espécie de moléculas, ou resquícios delas, carregava em sua carapaça fina? Que histórias de vida se poderia encontrar nos resíduos de poeira, pólen e todo o tipo de matéria na borda inferior de suas asas? Eu sentia o cheiro de Carbono no corpo daquela criatura. Meus implantes nunca me enganavam. Mesmo a um metro e meio dela. Meus braços doíam um pouco, minhas pernas também. Meu laboratório estava abandonado. Minhas anotações já tinham sido espalhadas pelo vento por quase todo o chão da garagem. Meu computador estava pedindo água. Eu precisava desliga-lo.

Arredei para o lado o suporte de rodinhas que improvisei para minha lente de aumento. Pus as duas mãos na cabeça e cocei. Meu viveiro de moscas fluorescentes já não tinha mais nenhum brilho. Esqueci de fechar a janela da porta e também a claraboia. Minhas lesmas médicas tentavam se esconder embaixo de uma pedra de arenito que, por sorte, pus no canto esquerdo do “sacrário”, que construí para elas. Por que me tornei tão relapso? Como me despi de minhas preocupações mais rotineiras? Estou trabalhando há mais de seis meses nas moscas africanas e, agora que consigo fazê-las brilharem por alguns minutos, acabo conhecendo esse besouro misterioso! Meu laboratório precisa de mim. EU preciso de mim! O que o professor Jaques faria em meu lugar? - “Pense, pense!” - Meu microscópio é Zeiss.

Dois anos para produzir Stomoxys calcitrans geneticamente modificadas. Elas têm só doze cromossomos, mas mexer no código fonte é realmente complicado. Não saio mais da minha garagem. Quase nem como. Mas não quero mesmo comer. Primeiro vou terminar com elas. Hackear organismos vivos, só por diversão, tem sido um passatempo e tanto. Não imaginei que mergulharia tão fundo em minhas pesquisas. Eu só queria que meus ratos tivessem olhos azuis! – “É muito pedir isso?” - Fiquei meses sequenciando o genoma deles. Até que descobri onde devia mexer. Tudo graças a entusiastas, como eu, da biologia faça-você-mesmo. Depois de 36 tentativas, agora Alfred e Ziguifrid tem olhinhos azuis que saltam quando alguém os espreme entre as mãos. Infelizmente a mãe deles, Donna, morreu em seguida. Sorte que foram adotados por Debbie, uma adorável ratinha do viveiro 5 que passava o dia amantando e correndo atrás da prole de olhinhos azulados. Quatro deles foram para Cambridge, na Inglaterra, mas Alfred e Ziguifrid estão comigo até hoje.


Depois deles descobri as Escherias Coli. Misturar os genes de diversos organismos vivos com os delas pode trazer resultados muito mais excitantes do que apenas sintetizar hidrocarbonetos. Tive que desistir de minha pesquisa por que o FBI invadiu minha casa, confiscando meus discos rígidos, minhas anotações e levando as Escherias todas com eles. Brutos. Não tiveram o menor cuidado. Acabaram com minhas pesquisas e ainda maltrataram minhas bactérias. Anos de trabalho na mão daqueles maníacos. Mas não perdi nada. Está tudo registrado em minhas memórias. - “Um dia eles me pagam!” - Se não tivesse conseguido fugir para o Rio de Janeiro com um passaporte falso e algumas ameaças, talvez tivessem me enfiado em algum laboratório subterrâneo no Arkansas para que produzisse armas biológicas. Jamais faria algo assim. Não me pegariam vivo.

Vou ter que tomar uma atitude rapidamente. Não gostei da cor que minhas lesmas adquirem quando entram em contato com o Sol. Era para ficarem rosas, não vermelhas-sangue. Minhas lesmas médicas são o futuro. Minhas moscas africanas conseguiram escapar por uma fresca minúscula. Por sorte seus ciclos de vida são curtos devido as modificações genéticas. Com sorte vão morrer antes de picar alguém. Por sorte não serão capazes de se reproduzirem fora do laboratório, por que criei apenas espécimes fêmeas. Não quero mais ouvir falar das Escherias. Vou desistir das Stomoxys também. Tudo por causa desse magnifico besouro... - “Sim, ele deve estar meditando. Se não está meditando está morto!” - Estou obcecado por essa criatura! O desenho do seu exoesqueleto me fascina... Estou curioso para descobrir que histórias existem em seus élitros embaixo do estojo de quitina. Não aguento mais, preciso removê-lo da parede. Meu microscópio está pronto para ele. Eu me rendo, não aguento mais esperar que ele se mova. Melhor mesmo que esteja morto. Imagino que segredos descobrirei em suas células. Em seu genoma. Em seus cromossomos. Confesso que fico um pouco assustado com as consequências de minhas pesquisas. – “Tudo bem, não vou desistir agora.” -  Estou excitado demais com a ideia de tirá-lo dali. - “Como será que ele vai reagir?” - Vou pousar sua carcaça sobre a bancada. Depois retirar uma amostra de seu corpo enrijecido. Talvez do exoesqueleto. E depositar na placa de Petri. – “Sempre sinto um frio na barriga quando começo tudo de novo!” – Mas quando pus aquele pequenino corpo sobre a bancada não imaginei o que estaria por vir. Aquele simples inseto começara a mudar a minha vida...


O conto de biohacking “Cromossomos de besouro” é apenas uma tentativa de mergulhar na mente dos adeptos dessa estranha e, ao mesmo tempo, fascinante prática que surgiu recentemente. Nascido do movimento “Biopunk”, grupo de pessoas que produzem biologia sintética baseados nos conceitos da biologia “do-it-your-self”, ou “faça você mesmo”, o biohacking pode parecer enredo de filme de ficção cientifica, mas está acontecendo agora mesmo em garagens, laboratórios improvisados e sendo feito por empresas que buscam possíveis aplicações comerciais para as novas descobertas. Trata-se de hackear organismos vivos. É exatamente isso. Hackear e depois modificar suas funcionalidades. A maioria dos ativistas do biohacking identificam-se com o tecnoprogressivismo, o transhumanismo e o movimento biopunk. As possibilidades do biohacking são vastas. Vão desde especialistas, engenheiros e técnicos que projetam e instalam no próprio corpo dispositivos tecnológicos com diversas finalidades, como os implantes de ímãs de neodímio nas pontas dos dedos de Tim Cannon, que tem por objetivo ganhar a habilidade de sentir campos magnéticos, até biólogos e cientistas que produzem sequenciamento genético nos quintais de suas casas. 
Nomes como Tuur Van Balen, amante da biologia faça-você-mesmo que manipulou lactobacilos em um iogurte para que produzissem Prozac, tornam mais fáceis de visualizar o horizonte de possibilidades que virão pela frente, em um futuro próximo, quando o assunto é biohacking. Além de modificar as funcionalidades dos lactobacilos, ele gravou um vídeo demostrando passo-a-passo a realização do experimento para deixar claro que qualquer um pode fazer isso com relativa facilidade. Imagine, você pode produzir em casa o seu próprio iogurte antidepressivo. Outro ativista que expande as fronteiras da prática é Tim Cannon, que além dos ímãs de neodímio, implantou no antebraço direito um chip do tamanho de uma carteira de cigarros, capaz de parear com Android e informar dados corporais por bluetooth. 


Quem também está fazendo pender a balança da popularidade do biohacking é Ellen Jorgensen e seus colegas do laboratório sem fins lucrativos Genspace, no Brooklyn, em Nova York, que levam a biotecnologia até as pessoas comuns. O Genspace disponibiliza uma série de usos práticos, divertidos e até aplicações artísticas e inusitadas da biotecnologia amadora. Mas existem laboratórios assim em vários países como o Ars Electronica, em Linz, na Austria, o Hackerspace, em Singapura, o Labitat na Dinamarca, o Lapaillasse, na França e vários outros em países como a Holanda e também na Indonésia e Reino Unido. No Brasil, o biohacking foi tema estreante na edição brasileira da Campus Party de 2012, tendo ainda pouca expressividade, mas trazendo, entre outras informações, a ideia do projeto Cão Mulato, desenvolvido há mais de dez anos pelo zootecnista e mestre em linguagens visuais Edson Barrus, que pretende criar uma raça mestiça de cachorro para levantar a discussão sobre a manipulação genética.


O biohacking é um tema vasto e polêmico. A cada dia surgem novas ideias, experimentos e iniciativas, mas ao mesmo tempo em que o entusiasmo cresce a ameaça aumenta, pois o risco do bioterrorismo é bastante real. Ok, ele já existia muito antes do biohacking se tornar comum! Para quem se interessar pelo tema seguem algumas dicas de links úteis no final do texto. Bactérias transgênicas, insetos modificados geneticamente, implantes de ímãs de neodímio nas pontas dos dedos, borboletas com padrões de asas modificadas artisticamente, criando desenhos e cores que não existem na natureza, dispositivos eletrônicos acoplados em corpos, transhumanismo e pós-humanidade... O que vem a seguir? Participe desse debate!

Dicas de links
http://vimeo.com/57536108
http://www.ted.com/talks/ellen_jorgensen_biohacking_you_can_do_it_too?language=pt-br#t-24961
https://www.youtube.com/watch?v=GcaCP0xDXFA#t=160



Para não repetir 1964

Exatamente cinquenta anos atrás, no dia 1º de Abril de 1964, começava o regime militar. Mesmo com esse nome, não foi só militar. O golpe contou com o apoio externo, - do governo norte-americano, apoio de parte da sociedade civil, e também apoio midiático. 

Muita coisa permanece sem esclarecimento, inclusive a data do seu início, que ainda gera controvérsia. Alguns falam em 31 de Março de 1964. Outros citam o dia 2 de Abril de 1964 como sendo o marco inicial do regime.

Datar o seu início talvez seja mais fácil do que citar os inúmeros personagens que compõem o golpe. Houve uma movimentação militar crescente. Meses de articulações nos bastidores militares e políticos.

Inteligência. Desinteligência. Espionagem e contra-espionagem. O golpe não foi um movimento seco, mas sim algo orquestrado, calculado. O argumento principal dos apoiadores do regime era, e ainda é, o de que seria implantado no Brasil um governo de extrema esquerda nos moldes de Cuba. 

Mudanças sociais, políticas e econômicas ocorreriam de maneira profunda. Não se sabe se seriam boas ou más para o país, pois o golpe deixou as tais mudanças somente pairando no ar. 


Esse momento da história brasileira, que durou vinte e um anos, foi, e ainda será, por muito tempo, relembrado e escrito de várias formas. As versões das pessoas que vivenciaram o golpe contribuem com a memória coletiva dos fatos ocorridos. Mas versões solapam outras versões. Equívocos tornam-se verídicos. Verdades caem no esquecimento. Há quem defenda o regime com unhas e dentes. O mesmo ocorre com os contrários a ele. Houve e há extremismos dos dois lados, inegável. Há quem no meio do jogo tenha mudado de time. Trocado de ideologia. Traído o partido. Delatado um companheiro de resistência. 

Penso que não há santos nem demônios, apenas seres humanos que agiram em prol daquilo que acreditavam, ou ainda acreditam ser o certo. Quantos jovens idealistas morreram para defender o regime militar? Quantos jovens idealistas morreram para assegurar a queda da ditadura? Quantos pais de família nunca mais voltaram para casa? Quantos tiveram que fugir para outros países, - exilar-se, para preservar a própria vida? 


O fato é que o regime imposto detinha o poder. Possuía material humano e bélico para mantê-lo. Possuía apoio chave de setores sociais que garantiam o avanço da marcha que esmagava direitos dos cidadãos. O governo militar contra células de resistência tornava ainda mais visível a disparidade das forças. Com o passar do tempo, a guerrilha, como forma de organização da resistência, tornava-se necessária. 

Saldo da disparidade de poderes. Um presidente deposto, - João Goulart. Torturas como forma de obter informações. Perseguições à resistência. Assaltos a bancos. Sequestros. Luta armada. Invasão de tropas do governo às universidades.  Mães amamentando que recebiam injeções para cessar o período lactante, para o fato de estarem amamentando não ser um peso na consciência de seus torturadores. Bebês torturados e mortos em frente aos seus pais, para que eles dessem informações sobre os aparelhos, como eram chamadas as células de resistência ao regime. Funcionários públicos mortos, - pela resistência, por defenderem a ditadura para manter seus cargos. Crescimento econômico à custa da dívida externa que só crescia. 

Fatos e mais fatos que surgem em meio ao turbilhão de lembranças que ainda não cicatrizaram na história recente do país. Fatos que são a matéria-prima para livros, filmes, documentários, músicas, séries e reportagens na TV e na internet. Exatamente hoje, em muitos meios de comunicação, o marco dos cinquenta anos do golpe de 1964, ganha destaque. 

É de extrema importância conhecer e comparar as várias facetas do regime militar. A ditadura foi uma parte nesse período, que ganhou força com o tão falado e rígido AI-5. O ato institucional nº 5, foi o principal mecanismo institucional e autoritário acionado para tomar o controle geral do país. Veio para oficializar atrocidades que vinham sendo feitas de forma mais velada logo que o golpe foi declarado. Atrocidades que mataram a democracia brasileira e de arrasto, levaram a liberdade de expressão do povo. Quem se manifestasse contrário ao regime, era considerado agente subversivo, e era conduzido para averiguações até o Destacamento de Operações de Informações do Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-CODI), o nome do “destacamento” era tão confuso quanto a definição de quem era subversivo ou não.

Havia o toque de recolher taxado de, “para sua segurança, permaneça em casa após determinado horário”. Havia a censura prévia de jornais, revistas, estações de rádio. As torturas, a censura, o toque de recolher, não eram restritos aos grandes centros como São Paulo ou Rio de Janeiro, ocorria também no interior do país. 

Ouvi relatos pessoais de quem foi “conduzido”, por agentes do departamento de ordem política e social (DOPS), à quartéis ou delegacias da época, para prestar esclarecimentos sobre determinada conduta. Até mesmo este texto, se fosse publicado no período do regime, teria provocado a minha condução à prestar esclarecimentos. Quem sabe eu permanecesse alguns meses em uma cela, para aprender a não ir contra os ideais nacionalistas vigentes. - A repressão e a censura espalharam-se Brasil afora feito rastilho de pólvora. Muitos sumiram sem deixar rastros.


Cabe a quem, como eu, não vivenciou o momento histórico, buscar meios de entender o que ocorreu a partir de 1º de abril de 1964. Conhecer os mais variados relatos, tanto dos apoiadores do regime militar quanto dos que eram contra ele. É importante inteirar-se sobre o quanto àqueles acontecimentos marcaram e ainda marcam o Brasil. 

Além disso, após ter uma noção dos fatos, ao menos que superficial, é preciso posicionar-se. Minha posição, minha conduta, é colocar todos os gatos, os ratos e os abutres no mesmo saco. Regime militar. Ditadura. Golpe militar. Dops. Doi-Codi. Governo que deixou de usar o cérebro e passou a pensar com os coturnos. Morte da democracia. Interrogatórios. Torturas. Corpos enterrados em valas comuns. Há quem ainda chame tudo isso de “ditabranda”. A verdade, para estes, dói ainda mais.

- Segue abaixo uma junção de frases que poderiam resumir tudo o que eu escrevi e, de quebra, mostram o que vem à minha cabeça quando leio a palavra ditadura.



Para não repetir 1964

Abraça a causa
Ou faça
As malas
Alguém gritou em 64
Abraça a causa
Ou vai para a vala
Alguém gritou em 64
Abraça a bandeira
Ou vai para o pau de arara
Alguém gritou em 64
Siga as ordens
Ou levará choque
Alguém gritou em 64
Não incite o povo
Ou vai ter a corda no pescoço
Alguém gritou em 64
Apoie o regime
Ou será perseguido
Alguém gritou em 64
Obedeça a censura
Ou vai sumir da rua
Alguém gritou em 64
Nos muros
Nas faixas
ABAIXO A DITADURA
Para não repetir 64 



No outono subo a montanha

Os raios do sol incidem por igual nos hemisférios norte e sul. É o equinócio de outono. A estação começou oficialmente hoje, às 13h57min. O outono marca a transição até o temível inverno. É como se fosse meu caminho até o topo da montanha. Até o meu retiro. Caminho coberto por folhas amareladas que lembram a hora de hibernar. Nesse momento, me sinto um urso acumulando calorias para enfrentar os dias frios. Indo cabisbaixo, arrastando a bunda, até uma caverna segura para dormir o sono que é quase um estado de coma.

Em coma, até meados de setembro, produzo pouco. Escrevo pouco. Sinto ainda mais as dores de um poeta reumático. É osso. A preguiça se faz mais presente. Uma nostálgica melancolia me abraça. - Desconheço a melancolia que não seja nostálgica.

Ouço pessoas reclamando do inevitável inverno que aponta. Vejo gente estocando lenha. As lojas liquidando as últimas roupas de verão. Nos supermercados, as prateleiras onde ficam as bebidas são abastecidas com vinho. - Pelo menos uma coisa boa.

Cada vez mais as pessoas parecem formigas nas calçadas. Apressadas e carregadas de sacolas. Carregam para suas tocas, tudo que julgam amenizar o período gélido e pálido do ano. Vejo também, para meu desprazer, a partir do outono, as mulheres guardando os shortinhos e escondendo as pernas. Vejo jaquetas escondendo os bustos. Vejo botas tapando lindos tornozelos. Guarda-chuvas invadem as ruas e fazem dueto com a neblina. Tapam minha visão e fico órfão de belos sorrisos.

Os dias ficam tão tediosos quanto o programa da Fátima Bernardes. As noites vão ficando cada vez mais longas. E ainda tem as temperaturas abaixo dos quinze graus que, para mim, são brochantes. Fazem com que meu bom humor e algumas partes do corpo encolham drasticamente. Encolhido, me curvo por causa do vento e cravo o queixo no peito. Nesse outono as temperaturas abaixo dos quinze graus serão constantes, dizem as previsões. Sofro por antecipação. Já estou tremendo bem antes do frio intenso. 

O inverno me viu nascer e mesmo assim não nos topamos. Quando o outono anuncia que ele virá, penso logo no calor do Rio de Janeiro. Nas praias do nordeste. No sol da Califórnia. No vento norte e quente que sopra lá na minha querida fronteira com a Argentina. Lá na fronteira, dizem que o inverno é para gaúcho macho. Nessa hora eu saio do armário carregado de casacos. 

Especialistas em moda, dizem que a tendência do outono será as estampas que lembram animais. Volto a pensar como um urso. Porém, não tenho aquela enorme capa de gordura e a proteção dos pelos para enfrentar cinco frentes frias, no mínimo, que também estão previstas para a estação que começou hoje. 

Pouco adianta reclamar. Resta-me comprar um par de botas. Meias de lã. Achar um bom aquecedor elétrico e conquistar uma namorada. Talvez eu até inverta essa ordem, já que com as estações do ano, não tenho escolha.



O carnaval alegra muita gente...

A festa que a maioria pula, brinca e bebe. Popular como o fusca. Esperada por muitos, tanto quanto o próprio aniversário. Festa regada com cerveja. Unanimidade entre os estrangeiros homens, que visitam o país nessa época do ano atrás do samba e da beleza da mulata brasileira. Eles viraram até produto de exportação. A beleza da mulata e o samba, a cerveja deixa muito a desejar. A festa que contribui com o PIB do país dos confetes. Festa pagã onde quase tudo, - ou tudo é liberado? 

Atravessar a avenida em cima do carro alegórico. Beber no gargalo. Beijar dezenas de foliões numa só noite. Transar no conforto de um muro sem reboco. Vomitar segurando com as duas mãos numa placa de PARE. Dormir na calçada. Urinar na vitrine de uma loja de grife. Escutar a mesma marchinha vinte vezes e cantar junto, como se a música fosse uma novidade. As ruas se fecham e os sorrisos se abrem. “O abre alas que o carnaval vai passar...

Do camarote até a beira da praia. Da esquina lotada até a casa que virou QG. É certo que o ano engrena de fato somente após o carnaval. Embora alguns não concordem, já faz parte do calendário biológico do brasileiro a quarta-feira de cinzas adquirir ares de primeiro de janeiro. E o Brasil, com sua enorme extensão territorial e sua disposição para a diversidade, aceita todo tipo de variação da festa. 

O carnaval da Bahia, com seus trios elétricos arrastando multidões e gerando cifras estratosféricas. O carnaval de rua de Minas Gerais, onde blocos invadem as estreitas ruas históricas e fazem dos casarões uma espécie de arquibancada ao estilo barroco. Colares, penachos e cocares, o Amazonas, com seu carnaval carregado de influencia indígena. 

Tem a passarela do samba no Rio de Janeiro, enorme estrutura demonstrando que sim, quando queremos, somos capazes de conciliar diversão com organização. Ainda no Rio, as ruas são tomadas por foliões em seus blocos formados décadas atrás. Uma cultura popular passada de geração a geração. De fantasia em fantasia, o povo expressa suas crenças, seus gostos, sua intenção política? - Parece que a mascara da Presidente Dilma está com pouca aceitação no mercado. 

Aqui no Rio Grande do Sul, nosso carnaval, modesto, divide-se em bailes nos clubes, desfiles nas avenidas e acampamentos em balneários. Há quem não goste do carnaval, são justamente esses os que escolhem os acampamentos como destino para fugir do “ziriguidum” da festa do rei momo. Ainda assim, não vamos ser hipócritas. O carnaval movimenta, mesmo que, em alguns casos, informalmente, a roda da economia. Vejamos o senhor sem renda fixa, que tira alguns trocados vendendo churrasquinho, até o grande empresário que fatura alto com a venda de abadás. 

Entre os que gostam e levam ao pé da letra, aparece o doutor vestido de enfermeira. A professora sai na rua fantasiada de mecânico. A criançada joga espuma. O mendigo, de calça social e chinelo de dedo, dança ao lado do policial. Oficialmente, ao menos por cinco dias, as diferenças sociais são atenuadas, - mascaradas?, pelo som do surdo, do tamborim e da cuíca. 

Difícil nomear quem sai à rua nesses dias de festa. Pessoas casadas, solteiras, viúvas, crianças de colo, idosos cadeirantes. É mais fácil contar quantos confetes cabem num saquinho de trezentas gramas, do que tentar descrever em detalhes essa singular festa brasileira. O carnaval é de todos. O país, no carnaval, é de todos. Pena que no resto do ano a fantasia vira uniforme e poucos aproveitam o baile.