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O Brasil segue dividido

Qual será a definição correta para CPI?

* Circo Para Idiotas
* Caminhões Parados Indefinidamente
* Concessão de Passagens Ilimitadas
* Com Propinas Inimagináveis
* Corrupção Petróleo e Ingerência
* Consertar Pelo Impeachment

PT. PSDB. PMDB. PP. PDT. PTB. PC do B. Etc... Etc...


A política enoja. Revolta. Independente de partidos políticos, siglas, conchavos.

Algo cheira mal nesse jogo de poderes que lembra o ditado popular, "Ruim com ele, pior sem ele".

A democracia Brasileira é bem recente.

Parece que somente com o passar do tempo e com muito esforço, teremos uma gestão pública, no mínimo, aceitável.

Buscar esclarecimento. Acertar na hora do voto. Exigir mudanças na forma de governar e fortalecer as instituições que combatem a corrupção. Saídas existem, mas são extremamente difíceis.


Enquanto a cisma continuar restrita a determinados setores sociais, classes contra classes contra classes... Continuaremos andando em círculos, ajoelhados, "de quatro"... Em quatro anos.

 


Fé, sonhos e delírios de grandeza


Em tempos de crise, somos obrigados a apelar para todos os santos. Passamos a acreditar em milagres por força da ocasião. Movidos pela fé, vamos até a lotérica mais próxima e encaramos aqueles sessenta enigmáticos números do bilhete. Com apenas 6 dezenas, a probabilidade de ganhar é de uma em 50.063.860. Eu dificilmente ganho no cara ou coroa, mas não interessa, pois "só vence quem joga", como ensina a sabedoria popular. É hoje, é hoje, só pode ser hoje minha gente.

Acumulou! 90 milhões! - avisa a placa caprichosamente escrita à mão, em letras garrafais e num tom de vermelho que faz os esperançosos tremerem o corpo inteiro. Correria no dia do sorteio. Filas e mais filas. Entrevero para entrar, entrevero para sair. Apostadores experientes discutem sobre os números que nunca são sorteados, elaboram teorias intrincadas e, em intervalos regulares, reclamam dos canalhas de Brasília. Já os apostadores iniciantes ficam procurando absorver aquelas informações todas. São mais observadores. Alguns até arriscam alguns palpites na tentativa de entrar na roda, mas geralmente são reprimidos. "Olha esse garoto, ele marcou o um", eles dizem entre risos. O garoto não desiste e troca o assunto para os canalhas de Brasília. Sábia decisão.

Outro jovem lá no canto, transbordando confiança, esconde o jogo. Anota firme e confere com rapidez. Dá beijinho no bilhete. Já ganhou, certamente. Dá mais uma olhada. Faz o sinal da cruz. Agora sim, tudo pronto. Não, espera, falta beijar o crucifixo. Quase colocou tudo a perder. Que números são aqueles? Será que ele marcou o número um, contrariando os ensinamentos?

O velhinho do lado esbraveja porque errou ao marcar o último número. “Era pra marcar o cinquenta e dois. Puta que o pariu”. Então, ele pega outro bilhete e começa tudo de novo. Ajeita o óculos. O suor deixa a testa e se alia a naftalina num lenço desbotado. Com calma, o ancião vai riscando as dezenas escolhidas com um esmero comovente. Tento passar a mão no bilhete antigo, mas levo uma reguada na mão. “Larga o bilhete”. O velhinho usava a régua para se orientar melhor na marcação dos números. “Mas o senhor não disse que tinha marcado errado”? Ele me encara com um ar profético. “Deus pode nos surpreender, meu jovem”. Me obrigo a pegar um novo bilhete. Anoto os mesmos três primeiros números que o velho. Logo ele percebe e começa a inclinar o corpo para esconder as apostas. Resmunga algo indecifrável. Depois vocifera com voz rouca e trêmula: “Não é o cinquenta! Puta que o pariu”. Errou novamente. Olhares curiosos, pescoços erguidos. “Sai daqui, sai daqui”, ele grita já erguendo aquela régua diabólica.

Vou até o outro balcão e me deparo com uma cena peculiar. Uma mulher está de olhos fechados - uma mão na caneta e a outra na testa -, sussurrando algo. O suor escorre galopantemente pelas suas têmporas. Me aproximo lentamente, buscando não dispersar a concentração dela. Tenho a impressão de que se trata de uma sessão mediúnica no improviso, uma ligação direta com os bem informados do plano celestial. Obviamente, eu também anoto aqueles números. Psicografia na lotérica. Jesus, parece que é isso mesmo. Será que ninguém percebeu? Decido que devo ajudar - sutilmente, é claro. Então, eu tiro o meu boné e faço vento na direção da apostadora. Ela marca os números sem abrir os olhos. A coisa é séria. Gostaria muito de saber quem está do outro lado da linha. A situação se manteve igual por pelo menos mais trinta segundos. Então, a mulher abriu os olhos e eu parei de fazer vento, porém me mantive olhando para ela como um idiota. Ao invés de um "obrigado", ganhei apenas uma sugestão: "lave o seu boné de vez em quando". Mal agradecida.

O calor estava infernal e aquela era uma clássica tarde de verão. Os ventiladores não venciam a batalha contra o amontoado de seres naquele minúsculo ambiente e, parafraseando um certo jornalista beberrão, o meu sangue era espesso demais para suportar aquele clima. Eu estava com duas apostas infalíveis na mão: a primeira era fruto dos três primeiros números que eu copiei do velhinho, além do danado "cinquenta e dois" e da sabedoria dos apostadores experientes; a outra tinha sido psicografada. De uma forma ou de outra vai acontecer. Cinco reais hoje, noventa milhões de reais amanhã.

O jornal coloca as possibilidades em perspectiva. Eu poderia melhorar a minha vida e garantir que os meus descendentes esbanjassem por meia dúzia de gerações, pelo menos. Poderíamos adquirir trocentos carros populares e trocentos apartamentos. Zilhões de Chokitos. Dar uma volta ao mundo de vez em quando se hospedando nos melhores hotéis. Porém, "seria prudente investir uma fatia  no Tesouro Direto". São tantas possibilidades.

As horas que antecedem o sorteio são preenchidas com sonhos e delírios de grandeza. Obviamente, eu ajudaria a minha família e as pessoas mais próximas (não todos, pois a minha compaixão é limitada), além de algumas instituições que simpatizo há bastante tempo. No entanto, suponho que as cervejas em promoção, aliadas a um ego inchado e essas altas temperaturas também interfiram na formulação da lista. Vejamos: erradicar de uma vez por todas a dengue e certos gêneros musicais em Pinhalzinho (primeiro trabalharemos em nível local); show do Metallica no Grêmio Recreativo (medida complementar); abrir um cassino em Chapecó, transformando a cidade na Las Vegas brasileira ("já está tramitando o projeto que legaliza jogos de azar no Brasil e temos que largar na frente", disse um amigo); viajar para o espaço (só depois que a Virgin construir uma nave decente); duas torneiras na cozinha, uma com água e outra com Jack Daniel's... Eu ficaria confuso. Me parece que o sujeito realmente abonado precisa ser criativo, caso contrário não conseguirá aproveitar a sua vida satisfatoriamente. Terá que contratar um consultor. De fato, não sei. O sorteio vai começar. Prometo que escreverei, mesmo que esteja nas Bahamas.


Diálogo com Alceu (O encontro)

Dia típico de Verão. O calor e as sombras estendidas na calçada indicam que a temperatura passa dos 30º graus e os relógios avançam sobre as 17:00 horas.

Estou indo até uma loja de informática saber notícias do meu computador que está para conserto. Duas semanas de espera. Parece que foram dois anos. A dependência tecnológica é evidente. E ainda há a aflição em descobrir se perdi ou não todos os arquivos gravados no disco rígido. 

Fotos de família. Músicas. Livros digitais. Material da graduação. Textos e poemas que escrevi ao longo dos anos. Semelhante a uma agenda, como uma mesa de trabalho ou um guarda-roupas, o computador pessoal mostra muito sobre seu dono. 

Caminho com pressa na estreita calçada em frente à um ponto de táxi que fica numa espécie de pracinha formada pela bifurcação da rua. Uma minúscula ilha urbana com um relógio eletrônico que lembra um solitário coqueiro. 

- O sol torrando a testa propicia essas miragens. 

Me aproximo do relógio. Hora e temperatura piscam em algarismos vermelhos. A cor atrai. Olho dois segundos para o relógio e de relance passo a vista no sol. Ofuscado pela luz forte retorno o olhar para a calçada e enxergo um tipo inusitado escorado no poste do relógio. 

Completamente coberto pela sombra ele observa minha pressa. O tipo aparenta uns 50 e poucos anos. Usa um óculos Ray-Ban enorme. Tem cabelos lisos, sem corte. Bagunçado. Barba rala. Camiseta cinza ou preta desbotada. As mangas cortadas. Braços finos. Baixa estatura. É magro, mas não fraco. Parece alguém que pratica esporte ou que gasta calorias em algum trabalho braçal. Ele veste uma bermuda jeans desfiada que termina um pouco abaixo dos joelhos. Um dia deve ter sido calça. Tênis estilo sapão ou tipo pantufa, daqueles com mais espuma que muitas almofadas chiques. Entre os dedos um cigarro de palha. No pulso um relógio tão caro quanto o óculos Ray-Ban. Estranha mistura de estilos. Olho ao redor para ver se encontro alguma moto estacionada. Uma Harley? A primeira vista é um coroa aposentado que adotou o estilo Easy Rider. Mas sequer vi bicicleta. Tampouco tatuagens. 

Sem dúvida um tipo inusitado, que não se vê com frequência. 

Nesse passo apressado, estou cruzando à sua frente. Ele me encara e diz com voz fina, porém alta. 

- E aí, maluco, qualé? 

Sigo caminhando. Não respondo. Ele, novamente. 

Qualé, cara, perdeu a língua? Tá com medinho, playboy? 

Uma das coisas que mais me incomoda é ser chamado de playboy. Tenho a impressão que o cara sabe disso. 

Caminho um pouco mais e paro. Olho para trás e respondo. 

- Não, cara, não estou com medo, só estou com pressa. 

Ele emenda com a explicação. 

- A galera passa e fingi que não me vê. Pra mim é medo. Cagaço pelo meu estilo, tá ligado? 

- Eu não tenho medo do teu estilo, cara. Porque teria? Até acho que os mais perigosos, os temíveis mesmo, usam terno e gravata. 

Respondo seco. 

- Humm, tô ligado. Gravata é uma parada bem inútil. 

- Pois é. Cara, eu tô com pressa mesmo. Tenho que chegar num lugar antes que feche. 

- Tá só na correria, maluco, relaxa. Qualé teu nome? 

Penso em dizer outro nome qualquer, afinal é um estranho, mas falo o verdadeiro. 

- Me chamo Douglas, cara. Qual é o teu? 

- Alceu... Alceu dispor! 

Solto uma inevitável gargalhada e chego mais perto. 

- Alceu Dispor? Pergunto. 

- É cara, Alceu Dispor, serviços gerais. Faço de tudo. Pinto casas. Corto grama. Limpo piscinas. Trabalho de garçom nas festas dos granfinos. Vivo de bico. Não sou passarinho, mas vivo de bico, morô? 

Ele me alcança um cartão preto e branco feito de folha A4 cortada em pequenos pedaços e diz. 

- Marquetingue, maluco, é a alma do negócio. 

Rio alto, novamente. Menos de três minutos de conversa e o cara, agora com nome, Alceu, já me fez dar duas gargalhadas. Uma figura estranha, mas não é dos chatos. 

Apressado, guardo o cartãozinho preto e branco no bolso. 

- Alceu, a conversa está boa, mas preciso ir, tenho horário. 

- Pode crê, maluco, vai lá. Mas controla a pressa, sangue bom, o mundo gira pra todos. 

Diz ele quase gritando. 

Já caminhando, respondo sem olhar para trás. 

- Tá certo, cara, abraço.



  
Você está sendo enganado

O título soa apelativo e de extremo mau gosto, eu sei. Hesitei por um momento. No entanto, essa foi a primeira coisa que eu aprendi na faculdade. Como assim? Eu estou sendo enganado? Na verdade, é claro que existe informação de qualidade circulando, mas é preciso aprender a separar o joio do trigo. Eu já sentia que havia algo estranho no ar desde a minha adolescência, quando comecei a prestar mais atenção nas letras de algumas músicas. Tanto artistas nacionais como os Titãs, quanto gringos como o Bad Religion, por exemplo, teorizavam sobre assuntos que ninguém abordava no colégio. 

A ferrenha luta pela manutenção da hegemonia econômica e política de determinadas instituições/corporações não segue leis, tratados e, muito menos, algum código de ética. É um jogo de xadrez com movimentos "alternativos". O Rei não anda apenas uma casa em qualquer direção, assim como o Bispo não se move apenas na diagonal, mantendo-se nas casas de mesma cor. Mas o peão, coitado, se resigna a ir em frente, por amor e honra até o momento do abate.

Ao longo da minha jornada acadêmica, conheci algumas figuras-chave da área da comunicação que me fizeram acordar. Pra ser honesto, jogaram um balde de água fria. Dentre elas, posso destacar um sujeito chamado Michael Moore. Esse documentarista norte-americano fez, praticamente sozinho, mais pelo jornalismo investigativo do que quase todos os grandes veículos de comunicação nos últimos quinze anos. E tem pagado um preço altíssimo por mostrar uma face quase oculta da realidade. 

Dividido entre a literatura e o cinema documental, ele ganhou projeção mundial após receber o Oscar por Tiros em Columbine, um ensaio sobre a cultura da violência nos Estados Unidos; e a Palma de Ouro do Festival de Cannes por Fahrenheit 9/11 que analisa os atentados de 11 de setembro e as ligações entre as famílias Bush e Bin Laden. Vale dar uma conferida no restante da filmografia de Moore, em especial, SiCKO (no Brasil S.O.S. Saúde), sobre o sistema de saúde norte-americano e a sórdida indústria farmacêutica.

Quando Moore subiu no palco para receber a sua estatueta, em março de 2003, os EUA estavam em guerra contra o Iraque. Ninguém que estava na cerimônia tinha permissão para falar com a imprensa. Havia o medo de que alguém pudesse falar alguma coisa indigesta sobre a batalha, comprometendo os esforços do governo para "unir a nação". No entanto, o documentarista chamou os outros indicados da categoria para que se juntassem a ele e disse:

"Convidei meus colegas indicados ao Oscar de melhor documentário para subirem ao palco comigo. Eles estão aqui em solidariedade a mim porque gostamos de não ficção. Gostamos de não ficção, embora vivamos tempos de ficção. Vivemos em um tempo em que temos resultados eleitorais fictícios que elegem um presidente fictício. Vivemos em um tempo em que temos um homem nos mandando para uma guerra por motivos fictícios. Quer seja a ficção da fita vedante ou a ficção dos alertas laranja: somos contra essa guerra, senhor Bush. Tome vergonha, senhor Bush. Tome vergonha na cara. E quando o papa e as Dixie Chicks (trio popular de música country) ficarem contra o senhor, seu tempo terá se esgotado. Muito obrigado."

Logo após o discurso, a caos tomou conta da cerimônia. Alguns aplaudiram, outros tantos vaiaram e houve também aqueles que tentaram agredir o documentarista. Depois daquele dia fatídico, os norte-americanos tinham um novo inimigo a combater.

Você deve estar com algumas dúvidas sobre o conflito. Mas o Iraque tinha armas de destruição em massa? A guerra era legítima, não era?

Bush invadiu o Iraque, um país soberano, de forma ilegal. Posteriormente, George Bush e Tony Blair assumiram que não havia o perigo, mas colocaram a culpa no trabalho dos serviços secretos. No entanto, 70% da população aprovava a intervenção, na época. E aprovava sobretudo porque o New York Times veiculou diversas reportagens de primeira página fictícias a respeito de como Saddam Hussein possuía essas armas. No futuro, o jornal viria a se desculpar por apoiar a guerra. Para o povo, se um jornal liberal diz isso, deve ser verdade. Feito o estrago.

Moore nunca mais teve um dia normal. Começou a sofrer ameaças diariamente através de cartas e telefonemas. Frequentemente, tentavam invadir a sua casa. E sair da residência também era difícil, pois ele e sua família eram hostilizados e agredidos. A partir de então, o documentarista se obrigou a contratar uma equipe de segurança que ficava 24 horas ao seu lado. Além disso, instalou um moderno sistema de câmeras e alarmes na casa.

Tudo isso por que mesmo? Porque queria defender seu ponto de vista. Só por isso. A suposta democracia sendo abalada pelos tiranos ignorantes de cada esquina. E isso serve para o Brasil também. Basta lembrar das manifestações clamando pela volta dos militares. A estupidez não tem fronteiras.

Procure analisar com cuidado o que é noticiado. A desinformação, ou seja, a informação inverídica com o objetivo de induzir ao erro, nos é lançada em lotes substanciais dia após dia. A situação se agravou ainda mais com a popularização das redes sociais. Alguns teóricos afirmam que estamos na Era da Informação. Eu, por outro lado, simpatizo mais com uma corrente minoritária que sugere o contrário: estamos no auge da Era da Desinformação.

Exercite esse poderoso cérebro que você ganhou "de grátis". Confira a fonte. Analise o discurso e as suas sutilezas. Observe os adjetivos empregados. Na televisão e no rádio, preste atenção no tom de voz utilizado, muitas vezes te induzindo a escolher uma determinada posição. Lembre ainda que um veículo de comunicação é uma empresa e, assim como as demais, tem o objetivo de lucrar o máximo possível. E a renda não advém apenas dos espaços publicitários. Como vimos no caso do NYT, uma notícia também pode ser vendida. No entanto, procure não ficar paranoico. Apenas crie o hábito de questionar, pois é nele que reside a base fundamental da liberdade.


Feliz Dígito-Novo


Semelhante aos fogos de artifício que iluminam e dão som à tão aguardada noite de réveillon, percebemos nessa época o estourar de infinitas mensagens de final de ano. Concorrendo com as roupas escolhidas para a festa - talvez para dar sorte, muitas dessas mensagens são brancas ou até mesmo transparentes. Insinuantes, sim, mas a maioria carece de conteúdo e carrega consigo um dicionário de palavras clichê que basta o leitor ou o público-alvo usar brevemente a atenção e já saberá do que se trata. O tom escancarado, mas sem substância, das mensagens de final de ano denota, a iminente troca de data é uma fábrica de desejos compartilhados que, usando um pouco de insensibilidade, imparcialidade, ou até saco cheio, nota-se, já nascem com o prazo de validade vencido.

Nas vitrines do comércio. Nos comerciais da televisão. Em revistas e jornais. Nas redes sociais. Os clichês são autoexplicativos. Repetem-se e por mais pessoais e carregados de emoção que possam parecer, apenas expõem desejos vagos. No último dia de 2014, ninguém cometerá erros se disser que os desejos expostos em forma de mensagens são na verdade planos a curto prazo. - Metas para janeiro? Isso se sobreviverem até lá.

Mesmo com todas as simpatias feitas na noite da virada, - todo mundo sabe ao menos uma, mais da metade dos desejos compartilhados que antes enchiam nossos ouvidos e inundavam nossos olhos vão parar no fundo da geladeira junto com o resto da ceia, ou ficam jogados num canto da memória como uma garrafa de champagne vazia misturada à areia da praia. Poucos voltam lá para recolher os próprios desejos que restaram após a noite de festa. Quem ousará reaproveitar algo que da noite para o dia parece tão velho?

Artificialmente, só para fins de marcação do tempo, há um enorme espaço entre 31 de Dezembro e 1º de Janeiro. Os desejos de boas festas e os planos arquitetados paro o ano que iniciará, ficarão presos no ano passado. A euforia dará lugar a ressaca. Mesmo assim, vamos aos preparativos.

As ruas estão lotadas. As estradas apresentam um movimento intenso em todos os sentidos. Capital-interior, Capital-litoral, Capital-fila do supermercado. Aeroportos, rodoviárias, estações de trens e pontos de táxi. Onde há meios de transporte que possam ajudar com os preparativos para as festas de final de ano, há uma enorme concentração de pessoas esperando para embarcar com as sacolas, os pacotes e os presentes. Faltam braços e sobram compras.

Correria típica do finalzinho de Dezembro. E não é a maratona de São silvestre. A maioria de nós entra num ritmo que mescla acumulação de tarefas com vontade de descansar e sair da rotina. Quem trabalha com metas precisa fechá-las a todo custo. Nas lojas os vendedores se multiplicam e vendem de tudo. De pneus até máquinas de costura. Corrida contra o tempo para quem compra e para quem vende. “Compre sem entrada, em 24 vezes e com o primeiro pagamento só para Fevereiro.” Não é difícil achar um cartaz com esse convidativo anúncio. O mesmo cartaz deveria vir com a advertência: Desejo a você um novo ano com muita saúde e poucos carnês.

Mesmo que as lojas tentem, elas não conseguem superar os supermercados na representação do clima de final de ano. Os caixas trabalhando num ritmo de malabarista de circo. Uma mão no teclado e outra passando os produtos. A destreza do empacotador que abre o saco plástico, guarda as mercadorias, puxa o saco do cliente e ainda consegue puxar papo com o outro empacotador que está à 4 caixas de distância.

O burburinho dos aposentados na seção das bebidas disputando as últimas garrafas de cerveja da promoção. O pânico na fila do açougue, pois os perus com tamanho avantajado já foram comprados, agora restam aqueles bem pequenos, os murchinhos, para a tristeza da dona de casa. - Leve dois, senhora. Diz o açougueiro. Ao colocar as aves congeladas no carrinho os olhos dela brilham, imitam as garrafas de espumante que o repositor coloca nas prateleiras ao lado do açougue, num esforço incessante contra a pressa dos consumidores. A cada 3 garrafas colocadas, uma vai para dentro de algum carrinho transbordando refrigerantes, carnes, batatas, tomates, sorvetes, tinta para cabelo, pacotes de lentilhas, caixas de bombons. Ficam produtos espalhados pelo chão do supermercado. “Todo animal deixa rastros, caçadores e bons observadores sabem muito bem disso.” Essa frase poderia ser do Ernest Hemingway, mas ele devia ir pouco aos supermercados, ainda mais nessa época.

Algumas prateleiras vazias, as filas intermináveis e a aflição no olhar das crianças pequenas que acompanham os adultos nessas compras, são provas decisivas de que somente em uma grande catástrofe climática ou numa ameaça de fim de mundo veríamos um cenário tão aterrador dentro de um supermercado.

Mas não é o fim dos tempos, é somente mais um fim de ano. Comemorá-lo ou aproveitá-lo? Há quem diga existir uma enorme diferença nisso. Feliz Dígito-Novo!

Texto criado no dia 31 de dezembro de 2014.


O voar e eu

Sobre uma pseudo professora de matemática fazendo textos;

Na ânsia de me descrever, de me apresentar, procurei uma palavra que me definisse. Para uma geminiana, que constantemente muda de ideia, é um trabalho difícil... Geralmente geminianos divagam em assuntos e opiniões, viajam na maionese com filosofias e voam...

Nascida e criada na fronteira oeste do Rio Grande do Sul, sempre ouvi minha mãe dizer que eu era muito “avoada”, fazia tudo com pressa, era/sou estabanada e por vezes fico olhando para o nada, voando entre as nuvens de pensamento...

Cresci tentando ter foco em algo na vida. O grande foco era ser professora de Inglês e no meio de minhas aulas do verbo “to be”, ensinar algo sobre Shakespeare, mas por ironia, fui aprovada no vestibular estando no segundo ano do ensino médio e não pude ir cursar o tão sonhado inglês. Acabei fazendo o que? Perdendo o foco, fiquei mais uma vez voando e pensando o que eu poderia fazer da vida, já que além de ter sido aprovada no vestibular antes do previsto, meus pais já tinham me avisado que não me queriam muito longe $$.

Acabei na matemática, com a gana de ensinar algo difícil para mim mesma, com a vontade de entender como as pessoas aprendem e cheia de expectativas... O que aconteceu? É, no meio da aula de Teoria Elementar dos Números, ou de Lógica, lá estou eu voando... Voando entre os mais variados pensamentos... Alguns desses se perdem quando o professor pergunta qual seria a expressão que generaliza um número ímpar ou qual é a tese e a hipótese do teorema do ângulo externo. Outros pensamentos ficarão aqui. 

Peço a mão do leitor para que, brincando de ser Peter Pan, possamos voar de mãos dadas nos meus pensamentos e nos teus. Pois a palavra voar, com certeza não descreve só a mim. E ao contrário do que minha mãe pensa, não é tão ruim estar no mundo da lua.



O churrasco da contradição

Gostaria de convidar meus amigos para uma festa peculiar. Sonho em celebrar as contradições entre goles de cerveja e um bom rock 'n' roll. "O churrasco da contradição". Seria uma festa anual! Nas edições seguintes poderíamos relembrar, dependendo da quantidade de cerveja ingerida, as nossas incoerências e estaria tudo bem. Acredito que iríamos dar boas risadas, tropeçar em justificativas por vezes engenhosas, mas instintivamente trocaríamos para outros assuntos banais - a banda do momento ou a tabela do campeonato de futebol. Seria uma forma ridícula, mas eficiente, de entender e não esquecer jamais que somos confusões ambulantes. 

Vamos avançar no tempo.

Na primeira edição da festa, o Jorge só comeu salada de batatas porque tinha se tornado vegetariano. Na segunda edição, faltou carne porque ele não era mais vegetariano e não avisou ninguém. Na terceira edição, ele já era novamente vegetariano e tinha parado de beber, mas também não avisou ninguém (sobrou carne e cerveja). Na quarta edição, não teve rock, apenas jazz chato porque o Marcelo estava empolgado com os filmes do Woody Allen e preparou uma "seleção" que durou seis horas - o pessoal tirava e ele dava o play novamente. A quinta festa quase foi cancelada, pois o Vagner colocou na cabeça que era budista e quis se isolar justo no dia da confraternização (a festa seria no apartamento dele). O churrasco, então, teve que ser transferido às pressas. Ninguém entendeu nada, ele também não entendeu ninguém, mas disse que meditou sobre o assunto. O sexto "Churrasco da Contradição" também foi marcado por desentendimentos. Primeiro, porque o Jorge resolveu encher a churrasqueira de cebolas espetadas com outros vegetais esquisitos. O espaço era pequeno e o carvão era escasso, assim como a paciência do Rodrigo. Virou uma guerra de cebolas contra galetos com direito a dedos e espetos em riste. Houve espaço também para discussões excêntricas envolvendo religião e direitos dos animais. E direitos dos humanos gaúchos, como citou o Rodrigo. No fim das contas, o Rodrigo comeu mais vegetais do que carne e isso foi visto com um sinal de reconciliação. A sétima edição do churrasco foi marcada pela nostalgia. Alguém (não se sabe ainda quem) pendurou uma lista na geladeira com supostas contradições do pessoal. Alguns riram e levaram na boa, enquanto outros tentaram desesperadamente se justificar, ocasionando, como sempre, um princípio de peleia. Na oitava edição do churrasco, não teve churrasco. Fazia um calor desgraçado naquele dia e a turma optou por beber, apenas. Lá pelas tantas, o Bruno apareceu rapidamente com o filho. Tinha saído para comprar sorvete e deu uma passada para beber uma cerveja escondido da mulher. "E saber que você dizia que jamais teria filhos", disse o Marcelo. Na nona edição, questões envolvendo saúde e aparência ganharam destaque. O Jorge, antes cabeludão, agora era careca, assim como o Vagner (que tinha deixado de ser cabeludo muito cedo em função da calvície). O Rodrigo, que antes tirava sarro dos gordos, agora estava terrivelmente gordo e com hérnias de disco: "quando o dia está carregado, tipo, pra chuva, eu me obrigo a andar meio torto tipo um zumbi". O Bruno, por sua vez, parecia melhor do que antes.

"A grande festa do ano no bairro: 10 anos do churrasco da contradição". Para a festa de dez anos, a turma incrivelmente chegou num consenso de que já estava mais do que na hora de abrir a festa ao público, em geral. A celebração da contradição iria se alastrar, contagiando o bairro e depois o país inteiro, certamente.

Não vamos avançar demais.

Nós, os transtornados, vamos do caos apocalíptico à plenitude quando percebemos que basta rolar a pedra sem cessar. Mas de vez em quando bate um tédio e a 3ª Guerra Mundial parece iminente. Até essa leitura se torna desgastante. É isso e é aquilo. Um pingue-pongue frenético ainda sem um vencedor.

Então, a vida passa a valer a pena por algumas horas, depois ela não vale mais nada e depois passa a valer a pena de novo. E o absurdo se torna claro e nítido. Um olhar derruba a melhor das teorias, um tremor de lábios arranha a verdade e atingimos o nirvana ao som de "In bloom".

É claro que existem os sujeitos mais rígidos - mais rígidos nas suas próprias concepções - que afirmam categoricamente:

- Transtorno bipolar! Não vem me dizer que isso é normal. Eu não mudo.

Contudo, eles também mudam, a gente sabe, mas finge não saber. Eu e você não somos palanques, muito menos androides de b-movies programados para fazer sempre a mesma coisa, do mesmo jeito e para uma mesma finalidade. Somos programados apenas para morrer. Justamente em virtude dessa dolorosa limitação de ordem natural, somos obrigados a mudar. E as mudanças, sejam elas intencionais ou lapidadas pelo acaso, por vezes, carregam contradições. 



O retorno

Voltei a produzir.

Por forças além de meu controle, entre elas, preguiça e as regras da ABNT para trabalhos científicos, fiquei algum tempo afastado de uma escrita mais consistente, porém livre, sem tantos formalismos.

Fui dominado ora pela escrita acadêmica e, com mais força, pela vontade de não fazer nada.

Reduzi-me a poemas esparsos.

Anotei frases num velho caderninho.

Imaginei pequenos trechos de cabeça.

Contrariei Domenico de Masi, meu ócio não foi criativo.

Reconheço que deixei de lado o ato de escrever por escrever.

Teias de aranha surgiram entre um neurônio e outro.

O método cartesiano, acadêmico, engessa.

Esqueci do prazer torturante que é ter uma ideia e puxá-la pelos cabelos. Acariciar a criatividade com murros.

Estava com saudade dessa batalha interna. Palavras brigando para ver qual vai sair primeiro.

Adjetivos pedantes.Verbos gritando na primeira pessoa do singular. Sinônimos se multiplicando, querendo dominar as frases. Bagunça generalizada no plano imaginário.

Algo precisa ser feito. E vai.

Pé na porta, voltei para pôr ordem nessa suruba. 

Observando os dois atos, comparo que, escrever, por vezes, assemelha-se a um fumante tentando acender um cigarro ao ar livre.

O vento atrapalha.

Vontade não basta, é preciso esforço. Jeito. Manha. Prática. O ângulo certo.

Um velho e experiente fumante, do alto de sua habilidade adquirida com os anos, acende seu cigarro até numa tempestade.

O inexperiente, encontra dificuldades em qualquer brisa.

Para acender uma ideia, sou um fumante inexperiente. 

A ideia surge mas, algo invisível, misterioso, apaga a chama da escrita.

Perco o fio condutor.

Giro a cadeira de um lado para o outro. Não tem canto confortável onde se enfiar.

Deu branco. Procuro a melhor tática para inflamar a inspiração.

Levo a mão no queixo. Mexo no cabelo. Suspiro.

O cotovelo apoiado na mesa e a mão segurando a cabeça que pende para o lado. Como se o pescoço não aguentasse o peso de tantas palavras pressas.

Com a mão esquerda pego uma borrachinha de dinheiro e faço um malabarismo desastrado com os dedos.

Coço a orelha. Destreinado. Apreensivo. Deixo de olhar para a tela do computador.

Imagino já o final do texto.

Olho para a janela. Percorro uma linha ascendente.

O parapeito. A calçada. A rua. Os postes de luz. Descanso o olhar no horizonte. Trago alguma coisa para a página. O cursor pisca pedindo mais. Terminaram os ingredientes.

Não roo unhas. Canalizo minha impaciência e meu nervosismo esfregando um dedo no outro. Arranco pequenos pedaços de pele.

Antigamente era mais fácil. Fluía.

Parágrafos inundavam a tela branca.

Agora, olha o nível.

Precisei dividir o texto em frases para encher a página.

Usei a técnica que toda dona de casa conhece quando chega mais gente para o almoço. Coloquei mais água no feijão.

Aumentei o caldo que já não era nutritivo.

Enganei a fome de escrever, mas não a matei.

Enfim, o retorno.

Voltei.



Primavera em detalhes

Estamos na primavera. Flores, abelhas, mel e mulheres calçando sapatilhas. Tenho grande simpatia por estas belezas que a nova estação proporciona. E mesmo parecendo que não há ligação entre si, para mim, elas guardam uma íntima relação. Poderia escrever sobre cada uma separadamente que, ainda assim, não esgotaria o assunto. A estação recém-iniciada atiça todos os cinco sentidos. É o momento do anúncio com um grande cartaz colorido pendurado nas árvores, letras em forma de pétalas no ipê amarelo: Em breve o verão, aguardem. 

Qualquer canteirinho na calçada e a estação das flores faz jus ao nome. Margaridas, tulipas, azaléas, rosas e violetas. A primavera tem muito mais tipos de flores do que a minha memória suporta. Várias com nome de mulher, ou seriam mulheres com nome de flores? A primeira ligação salta aos olhos. A maioria das mulheres adora flores. Nada forçado, a preferência se confirma em qualquer floricultura.


E já que toquei nas flores, agora, com cuidado, toco nas abelhas. Magnífico inseto do nosso planetinha. Vivem numa espécie de monarquia. As operárias colhem o pólen, as soldados protegem a colmeia, enquanto a rainha, soberana, administra a continuidade da espécie. Invejo o senso de coletividade delas. Só não bato palmas para não deixá-las ainda mais agitadas. Pois com o início da primavera, a florada, vem a época em que elas saem para coletar alimento. 

Provavelmente você vai cruzar com alguma abelha por aí. E por favor, não a mate, tratamento desonroso basta o uso abusivo de agrotóxicos nas lavouras que, segundo alguns estudos, são uma, senão a principal causa da diminuição da população de abelhas no mundo. Logo elas, que de flor em flor, vão polinizando em torno de 75% de nossas plantações. Ou seja, a produção mundial de alimentos tem ligação com a intensa atividade destes extraordinários insetos. Trabalho quase invisível e silencioso, elas transportam material genético de uma planta para outra. A biodiversidade agradece às abelhas. Consequentemente, nós deveríamos fazer o mesmo.


De flor em flor, de abelha em abelha, mel. Tudo doce no quinto parágrafo. Há quem não goste do produto, mas é altamente recomendável trocar o açúcar refinado pelo mel. Usar mel puro, sem exageros, para adoçar vários tipos de alimentos. Opções não faltam. Bater junto com o café. Passar no pão. Misturar nas vitaminas ou no suco de frutas. No início a troca é complicada, o gosto forte do produto dá a impressão de matar o sabor de outros alimentos, mas, com o tempo, acostuma-se, verá que ruim mesmo era o açúcar, repugnantemente doce. Aposte no mel, seu sistema imunológico ficará reforçado, traduzindo-se em mais saúde.


Agora, o último item da estranha combinação de belezas da nova estação. As Sapatilhas. Antes que alguém pense que estou disposto a usá-las, - mesmo parecendo tão confortáveis, ou então pior, que já as uso, completo; Sapatilhas em pés femininos. Sou um fervoroso defensor de que as mulheres devem usar cada vez mais esse tipo de calçado. Poucas coisas no mundo são tão singelas, charmosas e meigas, quanto ver uma bela mulher calçando sapatilhas. Além da beleza, calçados baixos não sobrecarregam determinadas partes dos pés e contribuem para uma melhor postura corporal.


É um charme fulminante, eu olho, admiro, penso na França, imagino bailarinas. Mulheres têm mais chances de voar - como se fossem lindas abelhas-rainha – se usarem sapatilhas do que salto alto. Elas flutuam. Não entendo de onde vem a minha atração por este tipo de calçado feminino e também não reduzo meu gosto por elas a um fetiche. Deve ser algo muito mais complexo. A maioria dos homens prefere mulheres calçando saltos altíssimos. Comigo, a coisa é mais embaixo, pequenas sapatilhas, cada passo e eu quase infarto.

As ligações ficaram nítidas? Primavera, desabrochar das flores. Abelhas saindo para alimentar-se e produzir mel. Dias mais iluminados, temperatura agradável, mais gente nas ruas e a beleza das sapatilhas invadindo as calçadas. Haja coração para tanta primavera.