Curta-metragem: um formato democrático



Todos os verdadeiros apreciadores da sétima arte já devem ter pensado em produzir um filme. Contudo, ao se depararem com os desafios envolvidos na realização de uma obra cinematográfica, muitos observam o sonho se tornar pesadelo. A estrutura e a logística que envolve a produção de um longa-metragem desestimula o aspirante a cineasta. Parece claro que o longa-metragem é exclusividade de grandes produtoras e profissionais experientes no mercado audiovisual. Obviamente, existem raras exceções. Entretanto, uma alternativa interessante é a criação de curta-metragem. Democrático, o curta é a ponte na qual os cineastas de final de semana, os estudantes e os realizadores independentes também podem transitar, viabilizando e exibindo as suas produções com mais facilidade. Se 90 minutos de vídeo são inviáveis, com planejamento e persistência, uma idéia pode ser transformada num roteiro de 5, 10 ou 15 minutos, possivelmente mais viável de ser produzido e com enorme chance (sim!) de ser selecionado em festivais pelo mundo afora. Essa é a magia do curta-metragem. Um bom filme nesse formato pode significar o início de uma promissora carreira.


Vincent
Dezenas de cineastas começaram dessa forma. Tim Burton já demonstrava todo o seu talento com animação muito antes de lançar o polêmico “Alice no País das Maravilhas”. Perspicaz, ele escreveu, desenhou e dirigiu, em 1982, “Vincent”, um curta de animação em stop-motion que conta a história de um garoto que gostaria de ser como seu ídolo, o ator americano de filmes de terror Vincent Price. Essa obra serviu de base para toda a filmografia de Burton.

Ilha das flores
Jorge Furtado, apostando alto no roteiro e na ágil edição, sensibilizou milhares de espectadores e recebeu uma enxurrada de prêmios com o atemporal documentário “Ilha das Flores”, filme que catapultou a sua carreira. Com um orçamento baixíssimo, o segredo de Furtado foi saber trabalhar de forma criativa, lapidando ao máximo o texto, peça-chave de qualquer filme. Mais recentemente, Vitor Alli, com o mesmo humor refinado de Jorge Furtado, produziu “Como Fazer um Curta Experimental, Cult e Pseudo-Intelectual”, uma divertida ficção que mostra os “passos básicos” para a criação de um vídeo experimental. A fotografia, intencionalmente precária, lembrando um pouco os tutoriais caseiros encontrados facilmente no You Tube, revela o talento e a sensibilidade do diretor. Aliás, o You Tube não serviu apenas como fonte pesquisa e inspiração, mas como plataforma de divulgação e reconhecimento do trabalho. 

Fatos corriqueiros do cotidiano, uma imagem que não desgruda da cabeça, os pássaros que cantam tão alto que desconcentram o leitor de uma resenha, enfim, quase tudo pode ser o princípio para a criação de um curta. Idéias que por ventura não se sustentem para um longa, podem ser mais bem exploradas nesse formato.“Saliva”, curta-metragem do talentoso Esmir Filho é bom um exemplo. A ficção mostra o dia em que uma adolescente dá o seu primeiro beijo. O diretor tratou o tema com uma competência acima da média, priorizando a caótica subjetividade por trás do ato de beijar pela primeira vez. O filme é denso e consistente enquanto curta-metragem, mas percebe-se que essa idéia dificilmente se sustentaria ao longo de 90 minutos. Fazendo uma grosseira comparação com a música, seria como uma canção ímpar que não tem a necessidade de estar inserida em nenhum álbum. Ela é única enquanto arte ao longo dos seus curtos minutos de duração. Diversas vezes, o contrário também se verifica: alguns filmes parecem ter mais potencial no formato longa-metragem. O elogiado curta gaúcho “O dia em que Jesus falou português” deixa o espectador querendo ver muito mais do que ele viu. A obra conta a história de um grupo de teatro que está viajando para uma pequena cidade do interior para encenar a Paixão de Cristo. Mas o ator que interpreta Jesus se perde e cria uma enorme confusão. O plot é consistente e renderia tranquilamente um longa, porém o projeto dependeria de diversos fatores como a captação de recursos financeiros, um eterno e duro obstáculo aos cineastas.

Um cão andaluz
Se com planejamento e criatividade praticamente qualquer idéia pode originar um filme, por que não ousar? Ainda em 1928, no auge das vanguardas européias, Luis Buñuel e Salvador Dalí demonstraram com “Um Cão Andaluz” que o cinema pode proporcionar experiências sensoriais ricas fugindo das convenções preestabelecidas. Ícone do surrealismo, esse curta foi inspirado em sonhos de Buñuel e Dalí e apresenta uma série de planos desconexos, rompendo com toda a lógica e linearidade narrativa tradicional. Apesar de incomum, a proposta é interessante e convence, pois se os sonhos são obra do subconsciente, então nada mais coerente do que toda essa aparente incoerência da película. A antológica cena do homem cortando o olho da mulher com a navalha é a prova máxima de que a ousadia pode render bons frutos.

Dossiê Rê Bordosa
Além dos filmes de ficção, outro desafio consiste em contar boas histórias num formato supostamente engessado como o documentário. Como contar uma história de forma criativa? A saída encontrada por Cesar Cabral foi a animação. O diretor conquistou diversos prêmios, incluindo o Animamundi, em 2008, com o documentário em stop-motion “Dossiê Rê Bordosa” que investiga as razões por trás da decisão do cartunista Angeli de matar uma de suas mais emblemáticas criações, a personagemRê Bordosa. O curta conta com entrevistas do próprio Angeli e também de outros personagens do cartunista (todos animados em stop-motion). Sem dúvida é um dos melhores e mais inovadores documentários dos últimos anos.

EX. E.T.
Já há um bom tempo, verifica-se um aumento considerável no número de curtas produzidos a partir de técnicas de animação. Aqui mesmo no Brasil, existem escolas específicas para quem deseja seguir carreira nesse ramo como a Meliès, localizada em São Paulo. Os franceses também dispõem de escolas semelhantes como a tradicional ESMA School of Arts (Ecole Supérieure des Métiers Artistiques) e a EMCA(Ecole des Métiers du Cinéma d’Animation). Além do primor técnico, os franceses parecem investir bastante nos roteiros. Esse é o caso de “EX. – E.T.”, produzido por estudantes da ESMA. O vídeo critica a mania do ser humano de tentar manter tudo ordenado e sob controle num mundo que é naturalmente caótico. Com um roteiro preciso e cenas tocantes, o curta rodou o mundo e fez um enorme sucesso em 2008.

Horror Capiau
“Uma câmera na mão e uma idéia na cabeça”. O lema de Glauber Rocha é inspirador, mas nem sempre funciona. Quem visita o You Tube periodicamente que o diga. Contudo, alguns filmes surpreendem tanto pela qualidade artística quanto pela agilidade e eficiência na produção. Inúmeros curtas excelentes foram gravados num único dia! Um caso interessante e que merece ser analisado é o experimento “Horror Capiau”, lançado em 2007. Produzido pela Corte Seco Filmes, o curta foi rodado em apenas 20 minutos, durante o intervalo de trabalho da equipe e sem um roteiro pré-definido. De acordo com o diretor Dimitri Kozma, a idéia foi concebida seguindo um subgênero do horror conhecido como horror redneck, pouco explorado no país. O estilo busca subverter a imagem estereotipada do caipira ingênuo através de cenas brutais e incomuns.
Do radicalismo do horror redneck à aparente simplicidade do dia-a-dia. Nos dois pólos temos obras que revelam o poder único de sensibilização da sétima arte. “O que é aquilo?”, filme grego que fala da relação entre pais e filhos emocionou milhares de pessoas através de uma estrutura narrativa simples e apenas uma única cena. 

Observando todas essas manifestações é possível concluir que, principalmente no Brasil, “o curta-metragem não é só coadjuvante, mas personagem principal do cinema”como afirma o cineasta Maurício Arruda.




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