Estilo de vida minimalista

Réplica da cabana de Thoreau em Walden Pond State Reservation, EUA.
"Em meio ao oceano encapelado da vida civilizada, são tantas as nuvens, as tormentas, as areias movediças, os mil e um pontos a levar em consideração, que um homem, se não quiser naufragar e ir fundo sem jamais atingir seu porto, tem de navegar por cálculo e, pra consegui-lo, precisa ser realmente bom de cálculo. Simplifiquem, simplifiquem. Em vez de três refeições por dia, se necessário façam apenas uma; em vez de cem pratos, cinco; e reduzam as demais coisas na mesma proporção. Nossa vida é como uma Confederação Germânica, feita de estados minúsculos, com suas fronteiras sempre variando, a tal ponto que nem um alemão é capaz de dizer quais são a cada momento. A própria nação, com todas as suas ditas melhorias internas, que aliás, são todas externas e superficiais, é uma instituição simplesmente tão pesada e hipertrofiada, tão entulhada de coisas e tropeçando na armadilha de seus bens, tão estragada pelo luxo e pelo esbanjamento, por falta de cálculo e de um objetivo digno, quanto os milhões de lares que existem na Terra; e o único remédio para isso, em ambos os casos, é uma economia rigorosa, uma simplicidade de vida inflexível e mais do que espartana, e a elevação de propósitos".

Henry David Thoreau era um chato de galochas (de fato ele as calçava), como destaca o jornalista Eduardo Bueno, na apresentação do livro Walden ou A vida nos bosques, mas era também um perspicaz observador. Soube como poucos analisar o mundo à sua volta.

Sabe quando foi publicada pela primeira vez a passagem acima? Em 1854, pasme. Mas vamos avançar para 2006.

Houve um tempo em que eu morava num cubículo que exageradamente chamavam de kitinete. A única janela que havia era a do banheiro. Na época, meus pertencentes se restringiam a uma geladeira, uma televisão (em cima da geladeira), uma cama, um aéreo, uma pia, um fogareiro, um ventilador, uma mala com algumas roupas e as minhas coisas da faculdade (notebook, cadernos, livros, mochila, etc). Em função do espaço ser minúsculo, parecia muita tralha, mesmo assim. Eu não tinha internet e nem TV por assinatura. Se duas pessoas viessem me visitar ao mesmo tempo, uma delas ficava do lado de fora. Ou dentro do banheiro. Mas mesmo assim, apesar da precariedade e da falta de espaço, eu vivia relativamente bem.

Aos poucos, consegui empregos melhores e, consequentemente, fui migrando para moradias mais espaçosas. Comecei também a adquirir mais móveis, utensílios domésticos e produtos. A cada mudança, porém, eu fui sentindo o peso do acúmulo de bens desnecessários e passei a repensar meu estilo de vida. Fiz uma lista do que eu julgava ser o essencial e reparei que eu não precisava de cerca de 60% do que havia em casa. Isso mesmo!

Acabei vendendo algumas coisas, outras doei a amigos e também para campanhas sociais. De início, senti um aperto no peito principalmente ao me desfazer dos meus livros, discos e dvds! Por outro lado, a sensação de presentear alguém com algo que nos enriqueceu é bacana demais. 

Atualmente, estou com essa mesma sensação de que devo "esvaziar" a casa mais uma vez. Além disso, ando sentindo necessidade de "esvaziar" a mente também. Passo muitas horas com a cara no computador e acabo hipnotizado em meio a esse fluxo absurdo de informações. Artigos, músicas, videos, redes sociais! É preciso buscar um certo equilíbrio.

Ao concluir a leitura do livro Walden ou A vida nos bosques, do Thoreau (ele viveu praticamente isolado à beira do Lago Walden durante aproximadamente dois anos e relata seu cotidiano nessa obra), tive a plena convicção de que é viável viver de maneira mais simples, contudo exige uma baita adaptação e uma boa dose de paciência.

A cabana foi recriada com base nos relatos de Thoreau em Walden  

Então, vamos lá. Analisando friamente, afinal de contas, quais seriam as vantagens de ter um estilo de vida minimalista?

-> Economia e liberdade. Comprar menos, sem se deixar levar por um impulso, deixa a sua conta bancária mais equilibrada. Além disso, lhe tira de uma prisão. Ou você acha que é livre tendo um zilhão de parcelas pra pagar todo mês?

-> A limpeza da casa se torna rápida. Sobra tempo para atividades bem mais interessantes!

-> Espaço. Eu me sinto mais à vontade.

-> Saúde. Quem sabe uma alimentação mais simples e sem tantas porcarias? Dar uma volta ao invés de ficar sempre plantado na frente do PC? Heim?

-> Plenitude. De um modo geral, ao simplificarmos as nossas vidas, vivemos plenamente todas as experiências e nos tornamos gratos pelo que já temos.


"A realidade do mundo é algo mais do que o estilo de vida que o mundo moderno abraçou. O prazer foi barateado; a alegria, reduzida; a felicidade foi computadorizada. O objetivo da habilidade do guerreiro é se reconectar com o agora da realidade, para que você possa avançar sem destruir a simplicidade; sem destruir sua conexão com esta terra".

Chogyam Trungpa
“Shambhala: The Sacred Path of the Warrior” (pág. 100)



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