Gilberto Zavarezzi e o universo das ilustrações!



Tive o prazer de entrevistar esse tremendo ilustrador em sua própria casa, em Santa Cruz do Sul, onde ele reside atualmente. O Gilberto (ou Zava) é sujeito tranquilo, atencioso e detentor de um humor refinado. Um homem que teve a ousadia de largar a faculdade e se lançar no mercado precocemente; um homem que chegou ao topo em sua profissão, mas que viu tudo ruir em pouquíssimo tempo; um homem que soube recomeçar do zero. Ficou curioso? Confira agora o nosso bate-papo e conheça um pouco da história de Gilberto Zavarezzi!

1ª Edição da Arte 8. "A revista em quadrinhos que iria mudar o mundo!"
O início
Eu não vou dizer que perdi meu tempo, mas sim que eu dediquei muito do meu tempo desenhando exaustivamente. Queria ser desenhista de histórias em quadrinhos. Acabei entrando para a Faculdade de Belas Artes no Rio de Janeiro e eu me desiludi com a ideia de produzir quadrinhos porque eu já havia feito algumas tentativas anteriores através da Editora Vecchi que tinha como seu foco as revistas de terror e participei de uma edição especial da Pesadelo Espacial, ou seja, se tratava de histórias de terror associadas ao tema da ficção científica. Eu cheguei a produzir cinco histórias como autor e uma única experiência como desenhista. Logo depois, a editora faliu. Imagina a minha decepção (risos)! Não nos dava retorno financeiro e nenhuma perspectiva profissional.

Revista Pesadelo nº 10 (1982)
Abandonando a faculdade
Decidi sair da faculdade. Cheguei para o Rui de Oliveira que foi designer da Rede Globo e era meu professor de Programação Visual, um sujeito sempre avesso a qualquer tipo de tecnologia e que não gostava da minha técnica, o aerógrafo (airbrush) porque ele considerava pouco convencional, pois saía do universo do pincel, do toque no suporte por parte do artista. No aerógrafo, você flutua sobre o suporte e joga um jato de tinta (utiliza-se máscara). Ele não admitia isso de jeito nenhum, pois era um pintor mais clássico, não na forma, mas no conceito. Obviamente, era um tremendo artista, mas eu não me sentia muito seguro com ele (risos) porque eu queria continuar com a minha técnica e não via pela parte dele um incentivo muito grande! 

Além disso, eu já estava doido para entrar no mercado de trabalho. Apesar de o curso ser reconhecido, a profissão nunca foi reconhecida. Com dois anos e meio de curso eu chutei o balde. Não avisei a minha família. Eu dizia para os meus pais que estava indo para a faculdade, mas na verdade eu ficava no apartamento da minha namorada.


Os primeiros passos como profissional
Eu fiquei seis meses preparando o meu portifólio e em seguida me lancei no mercado. Eu tive que tentar primeiro o mercado editorial. Após um certo tempo, eu consegui fazer algumas boas capas. Boas porque elas eram revistas de relativo nome na época. Fiz Duna, de Frank Herbert, por exemplo, e muitas capas de autores nacionais. Assim, eu comecei a ter um pequeno retorno financeiro. Uma capa de livro dava em torno de R$ 300 nos valores atuais. Não era muito, até porque era só a ilustração, uma vez que eu não era o capista. Enfim, eu comecei a trabalhar para a Editora Nova Fronteira, depois para a Editora Rocco e assim por diante.


Duna, de Frank Herbert (Editora Nova Fronteira)

Eu comecei a chamar a atenção do mercado publicitário quando fui para a Editora Bloch. Lá, eu apresentei um projeto de pin-ups e acabei ganhando uma página na Revista Ele & Ela. Essa oportunidade caiu como uma luva pra mim, pois se você imaginar que a revista tinha em média 450 mil exemplares por mês e as pessoas pagavam pra anunciar seus produtos e serviços, eu fazia isso pra desenhar as minhas pin-ups. Ganhava uma miséria, provavelmente também uns R$ 300 em valores atualizados, mas tinha uma página inteira de uma revista de grande circulação. 

Depois de algumas edições, eu comecei a marcar visitas nas agências de publicidade do Rio de Janeiro. Em pouco tempo, trabalhei numa campanha para a Ponto Frio através de uma agência que, na época, figurava entre as quatro maiores do ranking nacional. 

Eu trabalhava de domingo a domingo e a minha vida profissional estava indo muito bem. Aí acontecem aquelas coisas da vida: você se casa, se separa; vem o governo e resolve interferir na sua vida (plano cruzado de um lado, plano real de outro); a informática causa transformações no mercado e isso tudo acontece praticamente ao mesmo tempo.


Os efeitos colaterais da tecnologia
Eu já tinha alguns amigos que estavam trabalhando com computador, mas eram pessoas que lidavam muito mais com design do que com ilustração. Então, eu analisava esse novo panorama e pensava: "Eu estou muito tranquilo. Isso vai demorar alguns anos para se popularizar (isso no início da década de 90)". Me diziam: “daqui a cinco anos você deve começar a se preocupar”. No ano seguinte, simplesmente ninguém que eu conhecia dentro dos estúdios das agências estava lá. 

Nos grandes estúdios, eu ganhava muito dinheiro fazendo uma coisa pouco artística, mas que ajudava bastante nas contas da casa e ainda fazia sobrar dinheiro. Nós chamávamos de fundo aerografado que nada mais é do que o gradiente do Photoshop. Só que isso era feito manualmente e só quem dominava o aerógrafo conseguia fazer uma variação cromática suave de uma cor para outra. Em função dessa dificuldade, nós éramos bem pagos. Eu levava de dez a quinze minutos, no máximo, pra fazer e ganhava algo em torno de US$ 100. Hoje em dia você vai com o “baldinho” e pronto! Qualquer criança faz um gradiente, no entanto, você não imagina a dificuldade que era com o aerógrafo!

A partir daí, a informática acabou com o meu trabalho, assim como acabou com o trabalho de um monte de gente. Eu simplesmente tive que repensar o que fazer da minha vida. Eu não tinha alternativa. Passei dois anos e meio esperando que um vírus acabasse com essa porcaria de uma vez por todas! Falava-se tanto naquela época em vírus e eu pensava: não é possível, tem que surgir algum que aniquile de vez com esse monstro que é o computador! 


O recomeço
Eu tive que começar do zero, literalmente. Eu estava com 35 anos de idade e vi a minha profissão praticamente desmoronar. 

Eu havia assumido uma posição de destaque dentro da ilustração, pois fazia parte de um time de primeira. Nós éramos entre 12 ilustradores publicitários para um mercado de 250 agências. Você sabe o que é isso? A gente mandava e desmandava. Pegávamos só anunciantes grandes como Gillette, Pepsi, Souza Cruz e Lucky Strike, por exemplo. Naquela época não havia premiação para ilustração, apenas para produção gráfica e com a Lucky Strike nós ganhamos o prêmio de produção gráfica. Isso aconteceu também com o Mirinda (refrigerante produzido pela Pepsi no Brasil até os anos 90). Foram ilustrações que eu fiz juntamente com as peças evidentemente criadas pelos respectivos diretores de arte. Esse período durou aproximadamente cinco anos, no máximo. 

Lucky Strike  - Produção gráfica premiada

Depois disso, o mercado caiu vertiginosamente. Pra você ter uma ideia do nível em que chegou, uma ilustração minha, relativamente simples, como cartazetes de ponto de venda pra refrigerante não saía por menos de US$ 2.000 ou US$ 3.000. Eu fui fazer ilustração pra Ediouro Publicações por R$ 10. Sabe essas palavras cruzadas que aparece o desenho do ator e uma frase com algo tipo “trabalha na novela das oito” e você tem que preencher a palavra cruzada? Eu fiz ilustrações dessas aos quilos e só assim valia a pena. A mudança foi grotesca em função da tecnologia. 

No meu último trabalho analógico, eu fiz 25 ilustrações para uma rede de supermercados e ganhei US$ 800 por cada uma delas. Então, eu comprei um computador. O que havia de melhor: um Pentium 300 (risos)! Num certo dia, eu ganhei um pacote de softwares de um amigo e, dentre os aplicativos, estava um de 3D

À tarde, eu deixava o computador livre para o meu afiliado que estava sempre interessado em mexer nele. Num desses belos dias, voltando pra casa (eu estava morando com meus pais por conta das minhas dificuldades), o garoto me chama e diz que descobriu uma novidade. Ele estava com o software 3D aberto e quando ele clicou num determinado botão, surgiu uma esfera dourada. Eu perguntei como ele havia feito aquilo. Ele me ensinou os passos e eu achei aquilo muito fantástico. Eu levava uns três dias seguramente pra fazer aquilo no aerógrafo e ele fez em segundos na minha frente (risos). A diferença entre eu e ele é que eu via dinheiro, enquanto ele (na época com 15 anos) só via diversão. Obviamente, eu passei a deixa-lo mais tempo no computador (risos).

Aos poucos, eu fui aprendendo também e fui tomando consciência de que as coisas poderiam acontecer. Comecei a estudar pra valer e foi muito difícil porque não existia nenhuma documentação do 3Ds Max disponível (isso por volta de 1995). O meu afiliado me ajudou muito nesse aspecto. Ele me ensinou muitas coisas. Hoje em dia ele é programador, trabalha em São Paulo, e desenvolve aplicativos. É um tremendo profissional e está muito bem estabelecido.

Contudo, eu estava sem norte naquela época. Eu produzia um ou outro trabalho. Foi necessária a luz de um adolescente para me direcionar e para as coisas acontecerem. Hoje eu trabalho com isso. Graças à curiosidade de um adolescente.


Trabalho desenvolvido recentemente através de computação gráfica 

Causos do dia-a-dia!
Essa história que eu vou contar é sobre a importância do profissional se valorizar. No início, eu demorei para entrar na “alta publicidade” do Rio de Janeiro e eu tentava trabalhar pra Coca-Cola, Pepsi e então eu fui tentar a sorte na Alcantara Machado. Lá, eu encontrei uma amiga que era encarregada do tráfego (pessoa que recebe a solicitação do diretor de arte pra contratação de um determinado profissional para uma peça publicitária). Eu sempre era chamado naquelas situações em que você tinha a certeza absoluta de que você era o último da lista. Na maioria das vezes, os trabalhos já estavam com os prazos de entrega praticamente estourados. Eles provavelmente haviam tentado contatar outros profissionais, mas por algum motivo não haviam fechado com nenhum. Então, eles olhavam novamente para a lista: “olha, temos esse cara aqui que nos visitou esses tempos”. 

Quando você começar a descascar pepinos, aos poucos, começa a ganhar a confiança deles. Depois de um tempo, surgiu a oportunidade de fazer um trabalho para a Pepsi. Fui até a Alcantara Machado, me apresentaram a peça e eu com aquele sorriso interior! “A minha hora chegou” (risos). 

Essa minha amiga pediu quanto eu queria pra fazer o trabalho. Dei meu preço baseado nos trabalhos que eu havia feito. Ela olhou pra mim e falou que não aceitava. Eu pedi se estava caro demais e ela respondeu: “Não, Gilberto, você não está entendendo. Se nós te chamamos é porque nós te consideramos um bom profissional. Tá muito barato (sussurrando). Você foi indicado pela dupla de criação. Significa que você vai cobrar o seu preço. Se não for nenhuma exorbitância, mesmo que seja maior do que dos outros, vai ser aprovado. Mas se eu aceitar o teu custo o cliente vai me perguntar se você é bom. Óbvio que nós vamos dizer que você é bom. Então, o cliente vai questionar o porquê de ele estar pagando dez vezes mais pelos outros. Pega mal pra agência. Se ele aceitar sem perguntar e por alguma razão qualquer deu um 'piriri' e você não pode fazer o trabalho, como é que eu vou convencer os outros a fazerem pelo teu preço? Eu multipliquei por oito o teu valor”. Eu ganhei uma bela grana. 

A área da computação gráfica também nos reserva algumas situações bem interessantes. No período em que eu estava numa empresa aqui em Santa Cruz do Sul nós atendemos uma fumageira, e essa fumageira, através de uma agência local, queria desenvolver um calendário com vários tipos de fumos (um para cada mês do ano). 

O engraçado é que durante o desenvolvimento desse projeto eu não dava um passo sequer sem ter um botânico do meu lado pra me explicar como deveria ser a folha do respectivo fumo. Chamava-me a atenção o rigor e o zelo do profissional. Ela tinha que estar dobrada, pendendo de um certo modo pro lado esquerdo ou pro lado direito, distribuída em espaços exatamente iguais ou não sobre o caule principal; a coloração e assim por diante. 

Isso me remete muito a certas situações da minha vida como quando eu conheci um pedreiro que ao quebrar os azulejos brancos do banheiro do meu pai falava “oh, mas que azulejo maravilhoso, não sei como você tem coragem de quebrar um azulejo como esse”. Eu não conseguia entender como é que alguém podia achar um azulejo uma coisa maravilhosa. Ainda mais branco. Mas ele como pedreiro sabia que se tratava de um azulejo de qualidade e eu não conseguia ver a diferença de uma folha pra outra (risos)! 

E para o cara, uma mera mexida num vértice ou num polígono no software 3D significava algo tremendo! Se fosse uma apresentação 3D que você pudesse aproximar e avaliar meticulosamente as plantas pelo menos faria algum sentido. Eu entendo que ele está pagando e quer o melhor, mas publicidade sem objetividade tende a ser o oposto daquilo que ela se propõe.  Qualquer coisa que você venha a fazer, você tem que saber para o que você está fazendo. Qual é a finalidade? Quem vai ver? Como será visto? Porque não adianta eu pintar os poros de uma pessoa se eu vou imprimir num selo! Mas infelizmente o cliente sempre tem razão. Fim de papo!


Dicas para os iniciantes
Eu acredito que uma pessoa de talento sempre vai ter colocação no mercado, por mais saturado que ele possa estar, o que não é o caso da computação gráfica, por exemplo. Eu não me considero muito bom, me considero bem mediano naquilo que eu faço. Eu não me considero genial. A questão é que falta gente. Até Porto Alegre sofre com isso. Por que o pessoal de São Paulo vem me procurar? 

Qualquer um que se dispor a estudar e praticar, além de ter coragem suficiente de se lançar no mercado pode se dar bem. Ainda mais atualmente, onde o mundo está praticamente sem fronteiras e você consegue trabalhar pra fora do país com muita facilidade.  É só ter talento, se expor e mostrar o que sabe fazer.


Trabalho utilizando computação gráfica



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