Olheiras


Tenho usado uma droga pesada. Sou dependente. Custei para admitir. Resolvi expor meu problema para ver se encontro alguém que já passou por isso ou que ainda passa. 

Traço um mapa mental a fim de livrar-me do consumo desenfreado. Fecho os olhos, encontro a paz. Torno a abri-los, tenho visões violentas. Vou da fantasia ao tédio. O coração acelera. Nariz coça. Fungo. Forço o espirro. Despenco em velocidades terríveis. Gaguejo ao pedir ajuda. Tento uma fuga e sumo por dias. Porém, sempre alguém surge com mais doses dessa droga. Todos colaboram com meu vício.

Esse excessivo consumo contamina meu entendimento. Emergem sensações. Variadas ânsias. Sou meu próprio psiquiatra. Ela autossugestiona minha realidade. É uma droga fácil de carregar. Muito mais fácil de consumir. E muitos o fazem. 

Tentei esconder o máximo que pude. Não tenho mais como negar. A maioria das pessoas nota. É algo visível. Transpareço. Até em sonhos ela está presente. Às vezes é pesadelo acordado. Em inúmeros momentos esse vício assemelha-se a algo insuperável. Esqueci a primeira vez que usei. É algo tão profundo que parece ter nascido comigo. Sinto o peso da confissão. É uma mistura de vergonha e alívio. E quantos compartilham desse vício? O vício de observar o comportamento humano.



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