O bigode da poesia


Eu mataria dois Paulos com uma paulada. O Maluf. E o coelho. Para trazer de volta, o Leminski. Então, se ele viesse. O que diria a “besta dos pinheirais” sobre esse quintal. Ou seria circo? Que é nosso País? Queria vê-lo fazer “chover nos piqueniques” dessa mofada cultura Brasileira, recitando “merda e ouro”. Presenciar os “sustos e os ecos” que o “polaco loco paca” causaria. 

Nascido em Curitiba no dia 24 de Agosto de 1944. Paulo Leminski não foi um poeta convencional. Cigarro entre os dedos. Exageradas doses de conhaque para espantar o frio de sua cidade natal. Cidade pela qual tinha descontentamento devido ao exagerado provincianismo. Ele era uma estranha mistura. Estudou em mosteiro. Começou a faculdade de Direito, mas a vida acadêmica não despertou seu interesse. Deixou de lado. Batia de frente com os professores. Não era pior nem melhor que eles. Apenas estava em outro nível. Erudito e coloquial. Foi hippie. Beatnik. Judoca. Trabalhou em agências de publicidade. Traduziu livros. Agitou a cultura local. Falava rápido. Gesticulava ferozmente. Dava cor e contexto às suas palavras. Tinha verve. Carregava consigo livros e revistas. Sempre consultando e fazendo anotações. Em guardanapos rabiscados nascia a maior parte de seus poemas. 

Leminski "pediu a conta" em 7 de junho de 1989, vítima de cirrose hepática, deixando o "silêncio de suas obras completas"

Imagine você recém-saído do ensino médio. Matricula-se em um cursinho pré-vestibular e no primeiro dia de aula entra na sala uma figura dessas. Sujeito alto. Meio careca. Enormes óculos de grau. Um grande bigode. Papéis e mais papéis embaixo do braço. Estilo overdose de boemia. Sim, Leminski foi professor. E dos bons. Introduziu um novo jeito de ensinar. Era a didática misturada com espetáculo. Inesquecível, segundo seus alunos. Lecionava Literatura e História. Ele fez história. Tinha o dom de influenciar todos à sua volta. Poeta pop. Movimentava a cena. Despertava e ainda desperta a vontade de criar arte.

Descobri sua obra literária através de um professor de filosofia. Professor Fernando Delavy. Louco de pedra, no melhor sentido da palavra pedra. Era meu primeiro semestre de faculdade. Eu estava naquela ânsia inicial de anotar tudo que os professores falavam. Peguei no ar o nome do Poeta e fui ver quem era. Naquela época, eu não tinha o mínimo interesse por Poesia. Porém, comecei a lê-lo. Mais e mais. A influência foi inevitável. Descobri que poesia não precisa ser aquele marasmo cheio de convenções e signos indecifráveis. Algo distante do dia a dia da maioria das pessoas. Poesia pode, e deve misturar humor e erudição. Cativar pelo sofisticado simplismo. 

Falei apenas sobre o lado mais “distraído venceremos” da vida e da pessoa do poeta. Mas, como todos nós, ele teve seus defeitos e passou por várias fases. Vale a pena dar uma boa garimpada na internet. Descobrir mais sobre o “Bandido que sabia latim”.



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