O lado negro da Copa do Mundo


No dia 21 de maio de 1904, em Paris, nasceu a Federação Internacional de Football Association (FIFA). Sua função era coordenar as diferentes associações nacionais e uniformizar as regras do jogo de futebol. 

A FIFA só conseguiu organizar a primeira Copa do Mundo em 1930. A intenção era aproximar as nações após a Primeira Guerra Mundial. Estagnar sangramentos. Apaziguar os ânimos. Dar uma trégua. Era o esporte na sua essência: confraternização entre diferentes grupos numa competição saudável.

Ao longo das décadas, o cenário foi se transformando e o poder da FIFA aumentou. Os times deixaram de ser amadores. Os interesses aumentaram. O jogo foi sendo jogado cada vez mais fora das quatro linhas. Atualmente, a Copa do Mundo gera controvérsias. O lado negro fica evidente.

Desde o começo, fui contra a realização da Copa do Mundo no Brasil. Com tantos problemas para se resolver, uma copa sequer entraria numa lista de prioridades. Teremos novos estádios, uma revitalização de determinadas áreas públicas, atrairemos turistas do mundo todo, blá-blá-blá. Cá entre nós, é muito pouco. Os gastos estão exorbitantes e a balança está desequilibrada. Continuaremos com graves problemas em praticamente todos os setores (saúde, educação, transporte público).

A Copa da Confederações começa hoje, justamente no momento em que vemos eclodir uma consistente mobilização social contra todos os absurdos recentes. As últimas notícias escancaram que a Copa das Confederações será o prelúdio de algo maior. O momento é de tensão crescente. Creio que ninguém tenha gostado de ler que um hospital de Brasília suspendeu cirurgias por causa dessa copa; que no estádio Mané Garrincha foram gastos 1,566 bilhões, simplesmente o dobro do previsto; que protestos serão coibidos com prisão (ninguém pode se opor a esse maravilhoso evento) e por aí vai.

A própria legislação brasileira foi alterada para atender as exigências da FIFA, uma organização atualmente nada idônea. Dentre os pontos negativos da Lei Geral da Copa podemos citar: 

- a submissão da União Federal à FIFA por meio de sua responsabilização por quaisquer “danos e prejuízos” causados ao evento privado (artigo 22, 23 e 24); 

- criação de novos tipos penais, com repressão da liberdade de expressão, da espontaneidade e da criatividade brasileira (Artigos 31 a 34); 

- violação do Estatuto do Torcedor em favor do monopólio da FIFA (Art. 67); 

- permissão excepcional de venda de bebidas alcoólicas durante os jogos, retrocedendo em relação à legislação existente (Artigo 29);

- risco ao direito à educação pela possível redução do calendário escolar (Artigo 63); 

- infração direta ao Código de Defesa do Consumidor, isentando a FIFA de responsabilidade civil (art. 27, I), permitindo venda casada (art. 27, II) e cláusula penal (art. 27, III), além de restrição à liberdade de escolha do consumidor (art. 11).

Mais absurdos: a Copa do Mundo está destruindo comunidades e isso não é mostrado em determinados telejornais. Famílias estão sendo retiradas de suas residências apenas em função das obras da copa. Será que o ritmo das remoções está acompanhando o ritmo da construção de novas moradias? 

Uma bola murcha vai rolar. A partir de hoje, meu amigo, começamos a ser governados também pela FIFA. 



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