Um passeio pela história do cinema


Foi num café em Paris, mais precisamente em 28 de dezembro de 1895 que os irmãos Lumière exibiram o primeiro filme da história do cinema. Apesar de toda a rusticidade, o cinematógrafo encantou (e também apavorou) os privilegiados espectadores que viram fascinados um enorme trem vir em direção a eles sem nenhuma piedade. A vida começava a passar diante dos olhos, em pequenos filmes que rodavam de 16 a 26 quadros por segundo de pura “bruxaria”.


A curiosidade em torno da misteriosa invenção foi cedendo lugar aos questionamentos quanto ao conteúdo a ser exibido. Aos poucos, a simplicidade documental dos filmes dos Lumière foi abrindo espaço para a ousadia e tenacidade de diversos artistas. O ilusionista francês Georges Méliès, por exemplo, ainda em 1902 com o soberbo Viagem à lua, mostrou que a nova invenção poderia servir a um propósito artístico muito especial: contar histórias. A partir de então, gradativamente os filmes foram se tornando mais complexos, agregando uma série de pequenas inovações no que se refere a questões técnicas e também de linguagem.



É interessante perceber também que o cinema passa a entrar em sintonia com movimentos artísticos oriundos da literatura e das artes plásticas. Tendo seu apogeu na década de 20, o chamado expressionismo alemão manteve no cinema as suas principais características: o retorno ao gótico, temas sombrios, formas distorcidas, oposição ao racionalismo moderno e, sobretudo, uma pitada de crítica ao momento político em que a Alemanha se encontrava (o país vinha de uma perda retumbante na Primeira Guerra Mundial e enfrentava uma forte crise econômica). 

Com os obscuros O Gabinete do Dr. Galigari (1919), de Robert Wiene, O Golem - Como veio ao mundo, de Paul Wegener (1920) e Nosferatu (1922), de F.W. Murnau (só para citar os mais conhecidos), o mundo viu o nascimento de um cinema mais contestador, além de inovador quanto a sua estética. Mesmo revendo atualmente, é difícil não se surpreender com os cenários milimetricamente trabalhados; a maquiagem, tão carregada quanto as dramáticas atuações dos personagens (em sua grande maioria perturbados e enigmáticos); a fotografia fantasmagórica, com um incrível jogo de luz e sombra; e, por fim, os truques criativos de montagem envolvendo sobreposição de negativos.


O mesmo pessimismo e engajamento dos expressionistas acompanhou outro movimento importante do cinema: o neo-realismo italiano. Se pelo lado dos alemães, a indignação era reflexo da Primeira Guerra, pelo lado dos italianos, a situação foi semelhante. Décadas depois, a Itália vivia o fim da Segunda Guerra Mundial e era impossível acreditar na ilusão fascista. O país estava com uma economia fragilizada, taxas alarmantes de desemprego e se desestruturando politicamente. 

Os cineastas da época propuseram então, dadas as circunstâncias, a criação de um cinema mais próximo do cotidiano, ou seja, da dura realidade das ruas italianas. Eles optaram pela utilização de atores não-profissionais, filmagens fora do estúdio e pouco uso de artifícios como luz artificial e construção de cenários. Assim, realizadores como Roberto Rosselini, Vittorio De Sica e Luchino Visconti desenvolveram uma estética que se aproxima do documentário, ao contrário dos expressionistas, e mostraram a realidade da classe operária na busca por melhores condições de vida. 

A obra máxima dessa época é Ladrões de bicicleta (1948), dirigido por De Sica, que carrega todas as características citadas acima numa história tocante sobre um homem que tem seu instrumento de trabalho (uma bicicleta) roubado, sendo, por consequência, ameaçado de demissão. Cabe salientar que o filme venceu o Oscar de melhor filme estrangeiro na época do seu lançamento. 

Na década seguinte, o neo-realismo ganha uma vertente mais intimista com os filmes de Federico Fellini e Michelangelo Antonioni.


Nos anos 50 e 60, os amantes da sétima arte observaram a eclosão de outros movimentos importantes como a Nouvelle vague, proveniente de críticos franceses como Jean-Luc Godard (O Acossado, Alphaville) e François Truffaut (Incompreendidos, Julie & Jim) que tratavam de temas existencialistas e visavam transgredir as regras básicas do cinema comercial. 

No Brasil, surge o Cinema novo, capitaneado por Glauber Rocha influenciado pelos franceses e pelos filmes italianos do neo-realismo (cinema barato, “real”, engajado). 


Nos anos seguintes, cessam os movimentos, mas as bases estavam sólidas para que uma nova leva de criativos cineastas pudessem transitar (e, claro, prestar as devidas homenagens vez ou outra). O incansável Woody Allen é um bom exemplo. 

Manteve o minimalismo e as provocações estéticas, além da economia de planos e de recursos financeiros, de um modo geral, em boa parte de seus filmes. Versátil, não ficou restrito a um modo específico de fazer cinema e fez uma bela homenagem ao expressionismo alemão em Neblina e sombras (1991). 


Apesar de possuir uma diversificada filmografia, Woody Allen conseguiu criar uma identidade básica para a sua arte. Já nos créditos iniciais da maioria de seus filmes, por exemplo, observa-se a conhecida tela negra com o nome do filme e da equipe, sempre com a mesma fonte ao som de grandes nomes do jazz


Os temas variam, mas em praticamente todos ficam evidentes os dilemas existenciais e as críticas sociais carregadas de um humor refinado. É impossível esquecer dos diálogos inspiradíssimos de clássicos como Noivo neurótico, noiva nervosa (1977), Manhattan (1979) e Hannah e suas irmãs (1986).




O universo cinematográfico tem espaço também para projetos audaciosos e com orçamentos mais elevados. Martin Scorsese é um bom exemplo de cineasta que explora todos os detalhes possíveis nos seus filmes. Em a Época da inocência (1993), o esmero começa já na abertura produzida por Saul Bass (conhecido por trabalhar com grandes nomes como Alfred Hitchcok  e Francis Ford Coppola). 

Entre imagens de flores desabrochando, juntamente com uma textura em primeiro plano de tecidos de renda e uma trilha clássica, já se pode criar uma expectativa de que algo grandioso virá em seguida, o que de fato acontece. 



Seja na postura, seja na audácia, seja na quebra de paradigmas, a sétima arte sempre acaba se reinventando e renovando a curiosidade dos telespectadores. 




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