Uma reflexão sobre os videoclipes


Atualmente, com a popularização de determinados websites voltados à difusão de vídeos como o Vimeo e, sobretudo, o You Tube, percebe-se com maior clareza o quanto os videoclipes fazem parte do nosso cotidiano. Consolidado durante a década de 80 com a MTV, esse formato audiovisual, enquanto linguagem, se destaca por ir além das possibilidades visuais tradicionais do cinema. Apesar de Dziga Vertov e outros vanguardistas terem criado um novo tipo de narrativa que se assemelha a estética do videoclipe ainda na década de 20, percebe-se, de modo geral, que as obras contemporâneas agregaram novas técnicas e exploraram diversas outras possibilidades. 

Assim como ocorre com as peças publicitárias de sucesso, parte do fascínio do espectador pelo videoclipe reside no fato de que a todo instante surgem obras ousadas que se utilizam de técnicas criativas e uma mensagem peculiar. Além disso, no fim das contas, ambas tem o mesmo objetivo: vender. No caso da peça publicitária, uma empresa e seu produto, enquanto o videoclipe tem por finalidade vender o artista e sua música. 


Convictos do potencial desse formato, alguns artistas investem verdadeiras fortunas na produção dos seus vídeos. Madonna, por exemplo, investiu cinco milhões de dólares no videoclipe de Bedtime Story, lançado em 1995. Mesmo se utilizando de muita computação gráfica (na época ainda engatinhando), o clipe permanece atual e é uma verdadeira obra de arte (foi adquirido pelo Museu de Arte Moderna de Nova York - MoMa para integrar sua coleção permanente). Sombrio e com toques surrealistas, o vídeo é recheado de referências a trabalhos de artistas plásticas como Remedios Varo e Frida Kahlo, sendo que algumas cenas são muito semelhantes às pinturas originais. Além disso, ele é carregado de simbolismos, sobretudo cristãos e islâmicos, mas apesar dessa quantidade de informações, tudo está no seu devido lugar, graças a bela direção de Mark Romanek, figura respeitada no ramo e que já trabalhou com artistas consagrados como David Bowie e Iggy Pop

Referências: a obra de Remedios Varo (Los amantes, 1963) e a cena replicada em "Bedtime Story" (1995)

Agora, muitos anos após o lançamento de Bedtime Story, pode-se avaliar com maior precisão o quanto o uso massivo de computação gráfica e as experimentações estéticas (incluindo aqui os “truques visuais”) foram se consolidando como marcas registradas dos videoclipes. 

Recentemente, bandas como Gorillaz e Franz Ferdinand, por exemplo, produziram seus vídeos utilizando técnicas de animação de forma interessante. No caso da primeira, chama atenção a mistura entre o real e o virtual, principalmente nos videoclipes de Feel good inc (a banda é virtual e aparecem os rappers nos televisores, ironicamente) e Dirty Harry (o cenário é real e os personagens são animados, com exceção do rapper, mais uma vez). O resultado dessa mistura é interessante e se encaixa na proposta da banda, pois se trata de um grupo fictício/virtual. Indo para além das questões técnicas, não é exagero ter como base o Gorillaz para uma análise mais reflexiva, visto que indiretamente são lançados vários questionamentos sobre o real e o virtual, englobando assuntos como cibernética e ciberespaço. 


Já analisando a obra do Franz Ferdinand, em especial, o vídeo para a música Take me out (2004), pode-se perceber semelhanças com Bedtime story no que se refere à concepção estética. Além do uso de computação gráfica, o diretor sueco Jonas Odell e a banda também se propuseram a revisitar o trabalho de vanguardas artísticas modernistas. Inspirados, sobretudo, pelo construtivismo russo e obras dadaístas, os artistas produziram um videoclipe com diversas colagens, formas geométricas e cores básicas que logo remetem o espectador ao conceito básico da arte de propaganda daquele período. Cabe salientar ainda que essa escolha se encaixou muito bem com a sonoridade da banda, ou seja, o ritmo bem marcado e “reto” de certa forma se harmonizou com as formas visuais geométricas. 


Assim como ocorre numa obra cinematográfica, no videoclipe, o espectador pode ficar tocado pela mensagem, pelo conjunto da obra, ou simplesmente por alguma “sacada” técnica. Em alguns casos, as bandas parecem acertar em cheio em todos os aspectos. 

REM e os bastidores de "Imitation o life"
A lendária banda norte-americana de rock R.E.M., por exemplo, produziu um clipe instigante para a música Imitation of life, lançada em 2001. Contendo apenas uma cena mostrando uma festa na beira de uma piscina, o vídeo fala sobre os detalhes da vida, dos atos banais e das ações rotineiras que por vezes passam despercebidas. Pouco a pouco, uma série de personagens são enquadrados em situações cômicas. O curioso é que o tempo real de vídeo é de apenas vinte segundos. Na montagem, os editores usaram partes em reverse e partes com o andamento normal, alternando-se entre os personagens enquadrados. Em resumo: um videoclipe soberbo, dirigido pelo sempre criativo Nick Goldsmith


Apesar da qualidade indiscutível dessas obras citadas, é necessário também que se direcione o olhar para uma série de artistas que se distanciam, mesmo que minimamente, dessa estética já tão consolidada e se propõem a novas abordagens visuais. 

As experimentações estéticas de Björk em "Pagan poetry" (2001)

Experimentalista, politizada e versátil, Björk faz parte dessa turma e há anos vem produzindo vídeos de qualidade indiscutível, sendo completamente alheia a modismos. Pagan poetry (2001), por exemplo, mostra momentos íntimos da cantora, mas com um aspecto abstrato, intercalados com cenas de pérolas sendo costuradas no seu corpo. Tudo isso num ritmo mais cadenciado e com uma economia de planos que combina com a sua música atmosférica e minimalista. Mesmo longe de ser apelativo, o clipe causou polêmica. Talvez o fato de notícias sobre os bastidores da produção terem sido divulgadas tenham ajudado na criação de um burburinho, pois sabe-se que o diretor Nick Knight deu uma câmera caseira para que Björk filmasse cenas de sexo com o marido. As cenas sofreram tratamento gráfico, mas mesmo assim escandalizaram parte do público. Somam-se a isso, as cenas das pérolas sendo costuradas no seu corpo. 


Outra artista que se destaca é Erykah Badu. Tão engajada quanto Björk, ela também acabou se envolvendo em polêmica ao lançar o clipe de Window Seat (2010). Num plano-sequência (plano que registra a ação inteira, sem cortes) vemos a cantora caminhando pela rua e se despindo. No final do vídeo, já totalmente nua, ela é atingida por um tiro e morre. Analisando os dois vídeos, percebe-se que a crítica quanto ao erotismo é duvidoso e frágil, pois nos dois casos, eles não são apelativos. No clipe de Pagan poetry é sutil e poético, enquanto em Window Seat, é duro e propõe um diálogo pelo choque. Afinal, qual é o papel da arte? 


Ironicamente, muitos videoclipes que rodam diariamente na MTV, inclusive em horário nobre, têm a questão do sexo e da superexposição do corpo como mote principal (com letras bem específicas, diga-se de passagem) e não recebem a mesma atenção. 

Por fim, pode-se afirmar que a riqueza do videoclipe, enquanto formato, reside também no intercâmbio entre profissionais de outras áreas do audiovisual. Fotógrafos de moda como David Lachappelle (que dirigiu clipes de Amy Winehouse, Madonna, dentre outras estrelas), cineastas cultuados como Tim Burton (trabalhou com The Killers), Spike Lee (dirigiu Fight the Power, do Public Enemy) e Gus Van Sant (trabalhou com o Red Hot Chilli Peppers em Under the bridge), além da contribuição de estilistas como Alexander MacQueen (já colaborou com a citada Björk), fazem com que esses pequenos vídeos se transformem em peças ricas e atemporais.

Tim Burton e The Killers



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