Bundas e afins

Dezesseis documentos do Word soltos na tela do computador. Todos incompletos. Mais de uma semana sem ver a luz do sol. Dias cinzas. Inverno. Ideias indo e vindo. Quero escrever, mas não consigo. Escrever dói. Seja o que for escrever. Dói a testa. Os dedos. Dói por ter excesso de ideias ou pela falta delas. Dói a bunda e a alma. Toma tempo e na maioria das vezes não compensa.

Falando em doer a bunda. Farei livres associações de ideias. Assim, lembrei-me do alemão Karl Marx (1818-1883). Esse escrevia muito. Devido as incontáveis horas escrevendo, desenvolveu fortes dores nas costas. Bom, dor nas costas é comum. Porém, Marx, além da compulsão por escrever, tinha compulsão pelo tabaco. Há relatos que seus manuscritos ficavam defumados. Se um texto não estivesse cheirando a fumaça, deviam desconfiar que não fosse de Marx, imagino. Vai ver era uma das tantas marcas registradas do pensador. 

Luta de classes. Manifesto Comunista e várias tragadas depois, Marx acabou desenvolvendo a doença de pele chamada, hidradenite supurativa aguda. Consequência direta do excesso de tabaco. A doença é uma espécie de alergia. Causa feridas que se espalham pela região das axilas, pernas, braços e o pior, na região anal. Pensador com uma enxurrada de ideias na cabeça. Ganhava a vida escrevendo. E, justo na hora de sentar-se para colocar tudo no papel, a dor das feridas anais. O que não foi empecilho para Marx formular teorias que influenciam diferentes temas das ciências sociais e até das artes. Com toda essa influencia, Marx foi parar até na capa do disco dos Beatles, Sgt. Pepper´s Lonely Hearts Club Band (1966).

Marx está à direita, ao lado de Oliver Hardy, o personagem de chapéu amarelo.
Já que o texto desceu pelas costas e parou na bunda. E já que falei de música. Decidi escrever escutando aquele disco do Tom Zé (Todos os olhos, 1973). Naquele ano, o Brasil começou a contrair uma dívida externa que, mais tarde, iria comer o cu da maioria dos Brasileiros. Enquanto a capa ficou conhecida como uma das mais famosas do Brasil. E não é para menos, foi lançada em plena ditadura militar. Hoje, chamá-la de provocativa é um diminutivo.  

Música boa tocando, voltamos reto para o assunto.
Johann Wolfgang Von Goethe (1749 – 1832). Assim como Karl Marx, também nasceu na Alemanha. Escritor, pensador, cientista e açoitado por fortes dores no ânus. Tinha hemorroidas. Não conseguia sentar-se direito. O incomodo era tanto, que Goethe mandou construir uma mesa bem mais alta que as comuns. Assim, ele escrevia em pé. Como se estivesse num púlpito. Indiferente a isso, escreveu romances, poesias e ensaios científicos. Foi contemporâneo de Napoleão (1769 – 1821). E, deste, recebeu a medalha honorífica cruz da legião de honra, em 1808, que condecora personalidades militares e civis pela contribuição de seus feitos e obras. 

Coincidentemente, Napoleão também tinha hemorroidas. Segundo alguns historiadores, a batalha de Waterloo, resultou em derrota para o exército Napoleônico devido às hemorroidas do Imperador. Não pode montar no cavalo. Não liderou. Ficou horas sem ação. De bunda para cima. Desde então o caso é conhecido como: A posição que Napoleão perdeu a guerra.

O dueto bunda e ânus é bem farto. As associações de ideias são inevitáveis. E tome mais uma dica musical. Sigur Rós – Met sut ieyrum vit spilum endalaust (2008). O disco dos islandeses é de uma essência melódica intensa. A capa dá para se dizer que é semelhante a do Tom Zé. Porém sem dar close. 

Vai lá, dá um tapa nesse som.
Fiz todo esse círculo de ideias e anatomias para chegar a simples conclusão. Não sofro de dores nas costas. Não tenho hemorroidas e, tampouco, aquelas feridas anais. Não sei o que me fez reclamar tanto lá no início do texto. Mas sei que cu e bunda podem dar muito assunto. Mesmo não sendo carnaval.



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