Feliz aniversário, ressaca!


Acordo me sentido velho. Levanto e caminho até o banheiro. Paro em frente ao espelho, quadrado igual meus parentes. Me olho procurando algo. Não há nada de diferente. Não há rugas nem cabelos brancos. Mas algo persiste. Na boca gosto de nostalgia. Saudade sem motivo aparente. Não sei se foram dez ou cem anos atrás. Vinte e oito, resmungo. Estou onde devia estar? Como o sintetizador do rock progressivo, meus ouvidos chiam.

Giro para o lado do vaso. Esqueço as sensações por quase um minuto. É o tempo que levo pra urinar. Alguém com ouvido absoluto diria que nota musical o vaso emite. Não sou músico. Quando muito ouvinte. Continuo com o pau pra fora. No vaso sanitário a inscrição: Ideal Standard. Vai ver é a marca. Quem sabe uma sátira da minha atual condição. Quase sem ideais. Mas o que é um ideal? Um sonho? É o tal projeto de vida? O anti-materialismo dos beatniks? Os projetos pessoais de um CEO de grande multinacional? O advogado imbatível? Polarizo. 

Século vinte e um. Tecnológico. Grande coisa. Ainda tem gente morrendo de fome e diarreia. Século vinte e um. Voraz. Volátil. Massivo. Merece pichações nos muros e uma hecatombe nuclear. E que sejam antes do meio-dia.  

Olho por cima do ombro e vejo o quarto. A ponta da cama. Quem dera visse ela, seminua entre o lençol. Com cara de sono. Cantarolando alguma do Raul. Ou Vera Loca. Melhor, arranhando whatever. Naquele inglês britânico do Oasis. Cara amarrotada, me dizendo com a voz rouca: Volta logo pra cama e me conta sobre os anos noventa. 

São sete e trinta e poucos da manhã. Para não ser exato. A basculante do banheirinho está iluminada. Convidativa como a fachada de um cinema antigo. Poderia ser a fachada de um cabaré parisiense. Puteiro no Ceará. Um fliperama de mil novecentos e oitenta e cinco. Luz que mescla novidade e decadência, nesse cubículo. 

Cabelos na pia. Pentelhos na borda do vaso. Dor no joelho esquerdo. Estou em pé e acordado feito o sol. Os olhos voltam-se para o espelho. Imagino o maior clichê. Frase escrita com batom vermelho. Guardo meu pau. Leio em voz baixa. FELIZ ANIVERSÁRIO, RESSACA!



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