Notas da rodoviária

07:46

A rodoviária está silenciosa. Poderia estar ainda mais caso o refrigerador da lanchonete não fosse tão velho. Fora eu (silencioso), vejo apenas um casal conversando sonolentamente entre goles de café. O clima está ótimo: céu fechado e uma garoa constante. Após uma semana de calor infernal, ter uma surpresa agradável dessas ao levantar da cama é tri. 

Na falta de um alvo fácil, miro num quadro velho que está próximo do balcão. Está sujo e desbotado. Não tem nada de mais. Um casarão tipicamente germânico na beira de um lago. Mesmo assim ele me fascina. Tire esse quadro da lancheria e ela não será a mesma. Não será mais uma lancheria de rodoviária e a própria rodoviária não será mais a mesma. Imagino a cena: um velho, desses típicos, que sempre aparecem de manhã com um jornal debaixo do braço, fungando e, já com um palito no canto da boca, se escora no balcão. Pede cachaça. Na verdade ele não pede, mas ele ganha. E bebe feliz, pois alguém se importa com ele. Retomando a lógica: pense num plano fechado e imagine aquele velho rosto avermelhado. Como está o enquadramento? O que há em segundo plano levemente desfocado? O nosso quadro, claro. Que charme. O velho feliz e o quadro. 

Olho o meu bilhete de passagem. Mais uma vez, fiquei com a poltrona 26. É uma constante. O ônibus nunca sai lotado. Sempre sobram bilhetes. Não sei o motivo.  Aliás, não deve ter motivo. Simplesmente olham pra minha cara e pensam: "hummm, vamos ver, acho que esse idiota tem cara de 26". Outros tem cara de 6, outros de 15 e eu de 26. 

Mais cinco longos minutos e o meu ônibus deve encostar na plataforma oito. Entra o infeliz do velho feliz. Vermelho. Com o palito no canto da boca. Peço gentilmente que ele se acomode no balcão, próximo ao quadro velho. Pago uma cachaça. Ele se sente importante. Vivo a cena. Não entendo nada. Enlouqueço. Embarco no ônibus. Esqueço de fotografar. Enlouqueço. A minha poltrona está ocupada. Enlouqueço.



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