Construindo seres humanos

Do alto da minha ignorância, – e como é bom reconhecê-la, penso que o inferno é aqui na Terra. Deus, diabo, e outras representações de poder sobre-humanas, castigo ou redenção, foram criadas ao longo da história para representar a nossa consciência e inconsciência. Essas, submetidas ao prisma das qualidades, dos medos, ambições, erros, acertos e tantos outros itens que compõem a desfocada personalidade humana.

O famoso peso na consciência, a impressão de que estamos deitados em um colchão de espinhos, – chamam de insônia, ou bem mais agradável, a sensação de dever cumprido.

– Serão estas, parte de uma realidade moldada de acordo com nossas ações ou omissões em relação a nós mesmos e aos outros seres humanos que nos cercam?

Sendo eu extremamente teórico, – alguns chamam de vagabundo sonhador, a maioria chama só de vagabundo, corro o risco de meu texto tornar-se obscuro devido a minha dificuldade em transformar ideias abstratas em concretas. Entretanto, se você e eu quiséssemos facilidades, estaríamos, até aqui, lendo e escrevendo receitas de bolos.

A minha intenção, frequentemente, é questionar o modo como certos padrões sociais interferem em nossa vida. Padrões esses, na maioria das vezes, impostos a base da força, seja ela psicológica ou física. Difícil dizer qual a mais eficiente. Muito mais difícil apontar de que pessoas ou grupos tal força padronizadora emana.

A padronização é uma das formas de controle

É crescente, em nossa modernidade volátil, a ação de forças quase onipresentes que direcionam o consumo de produtos e informações. Há ainda, o consumo de relações humanas. A busca pela escalada social. Os relacionamentos pessoais, afetivos e profissionais que abrem portas.

– A cena que imagino são aqueles peixes que se grudam, através de ventosas, no ventre dos tubarões para alimentarem-se dos restos. 

Depois de ler a frase do filósofo Francês Jean-Paul Sartre (1905-1980), “o inferno são os outros”, fiquei imaginando as inevitáveis influências que uma simples atitude nossa poderá ter sobre a vida de quem nos cerca. Ainda orbitando a mesma frase de Sartre, imagino o quanto os outros podem influenciar a nossa existência.

– A existência humana seria uma espécie de destino, porém, um destino mutável? 

– Com a boca amarga de cafeína, o assunto pede esse estímulo, fui saber mais sobre a filosofia existencialista.

Descobri que foi nessa filosofia que Sartre baseou-se para proferir a conferência; O Existencialismo é um humanismo, em 1946 na cidade de Paris. Diante de uma plateia digamos, dificílima, pois ali estavam católicos e marxistas, – lembrando que estes não precisam ser encarados como opostos, Sartre defendeu, entre as inúmeras ramificações do existencialismo, o conceito de que a existência humana precede a sua essência. 

Exemplo claro disso é a construção de uma casa. Antes de construí-la, há um projeto. Antecipadamente você já sabe como vai ser a casa e qual será o seu uso. Com o projeto, saberá todas as particularidades da residência. Com os seres humanos, segundo o existencialismo, isso é praticamente impossível. 

A dedução é de que o ser humano nasce apenas por nascer, sem nada que garanta-lhe sucesso ou fracasso, felicidade ou tristeza. – Apresso-me a dizer a frase popular; Nasci careca e sem dente, o que vier é lucro, mas não é bem assim. 

Após nascer, o homem necessita de construção pessoal, esta vai influir nas outras pessoas, quer você queira ou não. Afinal, em nossa contemporaneidade, é quase impossível não viver em sociedade, seja a sociedade real ou a virtual. Devemos encarar a construção pessoal como sendo o meio para nossa própria realização enquanto ser e, consequentemente, chegarmos ao fim coletivo, a felicidade, que não é apenas sorrisos ou bens materiais.

Construir-se implica em construir o outro

Até certa idade da infância, nossas escolhas são submetidas às escolhas de outras pessoas, os nossos responsáveis legais. Nossa vivência não é pautada por decisões próprias, ainda que, as decisões tomadas logo nos primeiros anos de vida, possam interferir no nosso futuro e no futuro de outras pessoas, sejam elas próximas ou distantes de nós. 

Cada vez mais, somos influenciados a escolher desde a marca de papel higiênico até a cidade que vamos residir. Da pessoa que vamos amar até a cor dos nossos chinelos. Tendências da moda. Nichos de mercado. Versões atualizadas. Destinos turísticos badalados. Designs arrojados. – Será que alguns termos estão firmemente enraizados em nossas decisões que não nos damos conta do quanto são poderosos influenciadores?

Em inúmeras escolhas, algumas estritamente inconscientes, é que residem responsabilidades sobre nossa vida e consequentemente sobre a vida de outras pessoas. Até a escolha de não fazer escolhas é considerada uma liberdade geradora de responsabilidades. – Pois não dizem que é a omissão dos bons que confirma as ações dos maus? – E, se dizem, não é porque também tentam nos influenciar? 

É frequente, em nossa atualidade, a desconstrução do ser humano. Alguns cientistas sociais, falam em crise intelectual e moral da maioria das sociedades globalizadas. A desconstrução, seja pelas indústrias artísticas de baixíssima qualidade, seja pela manipulação dos meios de comunicação tradicionais até os mais recentes, pode ser o fator decisivo na hora de conquistar um eleitor, um telespectador ou um voraz consumidor. – Talvez a ordem em que eles aparecem no texto não seja por acaso.

Às vezes, a desconstrução fica a cargo de pessoas do nosso próprio convívio pessoal. – Ou você não tem alguém bem próximo que, sem nenhuma dificuldade, consegue rotular as suas ideias como sendo péssimas?

O indivíduo deve ter noção que pode modificar a realidade à sua volta

Imagine-se fazendo faxina na sua casa. Arrumando os móveis. Lavando a roupa. Recolhendo a sujeira do chão. Agora, imagine-se juntando toda a sujeira que resultou da limpeza e jogando-a pela janela. Serviço pronto e atitude tomada, você vai para um demorado banho. Após tudo isso, você e sua casa estão cheirosos e limpos. Então, toca a campainha, ao atender a porta, você é surpreendido com a visita de um amigo. No entanto, ele está coberto de sujeira e cheirando mal. Pois caiu no lixo que você havia jogado pela janela. Inevitavelmente, a pessoa te abraça e entra com calçados e roupas sujas dentro de sua casa que a pouco estava impecável.

Embora seja um exemplo simplório, isso é uma parte que propõem implicitamente a filosofia existencialista. A angustiante ideia de que nossas atitudes refletem invariavelmente nas outras pessoas e retornam para nós. Somos responsáveis por nossa construção e pela construção dos outros seres que dividem conosco esse momento de existência na Terra.

– Para a filosofia existencialista, sentir as dores do mundo, não é uma ideia totalmente vaga.

Reconhecer que cada um de nós carrega o mundo nas costas

A filosofia existencialista, também tem suas dificuldades de aplicação. Aqueles contrários a ela defendem a ideia de que não há possibilidades de pautar todas as ações humanas visando sua repercussão futura. É a mesma crítica que sofre outra filosofia ligada às ações humanas, a filosofia utilitarista.

Mesmo assim, o existencialismo, – que não foi criado exclusivamente por Sartre, deve ser analisado não como um dogma a ser seguido irredutivelmente. Ele vem para nortear o ser humano, levando-o a tomar atitudes que construam seu caráter, alinhado a isso, que propiciem a construção de outros seres humanos.   

Embora pareça algo simplório hoje em dia, – pois eu não tenho como competir contra o hipnótico e acelerado ritmo das redes sociais, de alguma forma exerci influencia, caso não fosse, você não chegaria até o final deste prolixo texto.



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