Guarde bem essas palavras


Certa vez, fui na casa da minha vó e entrei sem bater, como de costume. Peguei ela de surpresa. Estava concentrada, escrevendo tranquilamente num caderninho. Assim que me viu, tratou logo de guardar o tal caderninho numa gaveta. 

Durante muito tempo quis saber sobre o que ela escrevia. Uma pessoa tão vivida quando se põe a escrever é porque tem algo realmente importante a dizer. O que seria?

Há mais de 20 anos ela reside sozinha. Pouco sai de casa, a idade não permite uma aventura maior do que atravessar a rua e ir até o mercado. 

Numa outra ocasião, decidi perguntar. Ela buscou o misterioso caderninho e me entregou já numa determinada página. Enquanto eu lia, ela foi preparar o chimarrão.

“Seja importante para alguém. Muito importante. Trate bem essa pessoa e faça com que ela queira conviver com você até que seja possível. Guarde bem essas palavras. Eu vejo rastros de vida passando na tela da TV e pela janela do quarto. Ganho um pouco de vida numa ligação telefônica ou numa visita, disso não posso me queixar. Mas não tenho alguém do meu lado pra dizer essas coisas bobas de toda a hora. Enfim, eu não sou mais muito importante e não sei muito bem o que fazer.”

Quando ela entrou na sala com o chimarrão, eu já havia envelhecido mais de 50 anos. Eu estava vivendo, por um dia, o que ela tem vivido nessas últimas décadas.




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