Não matarás


Não Matarás (Krótki Film o Zabijaniu, 1988) é um filme marcante e de uma crueza perturbadora. Dirigido por Krzysztof Kieslowski, essa premiada obra se originou de uma série de filmes produzidos para a televisão polonesa, baseados nos Dez Mandamentos, conhecida como Decálogo. Posteriormente, Não Matarás e Não Amarás foram transformados em longas, sendo aclamados pela crítica e pelo público no mundo inteiro. Porém, o maior sucesso comercial de Kieslowski veio com a trilogia A Liberdade é Azul, A Igualdade é Branca e a Fraternidade é Vermelha, uma produção francesa baseada nas cores da bandeira e no slogan da revolução do país.

Em Não Matarás, inicialmente, o espectador acompanha a vida de três personagens nas ruas de Varsóvia, na Polônia. Um taxista maldoso e mal humorado, um advogado que realiza uma prova (algo semelhante a OAB brasileira) e um jovem delinquente que caminha pelas ruas da cidade. Dentro de poucos minutos, já é possível intuir que os três personagens irão se encontrar em algum momento. Utilizando a técnica de montagem alternada, ao longo de trinta minutos, Kieslowski cria um clima de expectativa e apresenta os personagens, revelando pequenos traços da personalidade de cada um. A tensão começa a aumentar quando ocorre o encontro entre o jovem e o taxista. Sentado no banco de trás, com uma corda sendo lentamente desamarrada de suas mãos, o rapaz inicia seu crime. O motorista entra numa área isolada do centro urbano e é surpreendido pelo jovem que tenta enforcá-lo. Ele tenta reagir, lutando contra o agressor, mas acaba sendo morto, numa das cenas mais cruéis e violentas da história do cinema.

O rapaz é preso e o advogado visto no início é quem o defende no tribunal. Contudo, o jovem é condenado à morte. Nesse momento do filme, ocorre uma enorme elipse, poupando o espectador das intermináveis audiências. A cena mostra apenas o juiz declarando a sua sentença e todos se retirando do local. Com essa economia narrativa, o diretor se concentra no desfecho da situação, com o advogado inconformado por ter perdido seu primeiro caso e, principalmente, por não conseguir salvar a vida do criminoso. As portas da prisão batendo e todos os rituais burocráticos para o enforcamento são sombrios e dramáticos. Além disso, vale destacar o último diálogo entre o advogado e o rapaz. Extremamente bem produzido e interpretado, esse momento do filme emociona pelo seu tom melancólico e confessional, fazendo com que espectador se sensibilize com o rapaz, mesmo sendo testemunha do seu ato de total perversão.

Tratar de um tema tão delicado quanto o da pena de morte naquela época, em um regime socialista no qual vivia a Polônia, não é uma tarefa simples. Kieslowski nos mostra de forma crua uma sociedade violenta e insana. Esses elementos não ficam restritos aos cidadãos, ou seja, a crueldade está presente também na esfera governamental. A forma como o jovem é morto e a forma como os policiais encaram a rotina de trabalho (completamente alheios a sentimentos) são tão duras quanto o assassinato do taxista. Será que se faz justiça, cometendo outro crime, tão bárbaro quanto o do assassino?

Mais um.
Além de possuir um ótimo roteiro, Não Matarás se destaca também pelas cenas extremamente bem produzidas e pela belíssima fotografia. Alguns planos são muito criativos como o gravado no interior do carro, quando o jovem retira o taxista e o arrasta até a beira do lago. Nesta mesma seqüência, há um plano interessante, mostrando o taxista sendo espancado enquanto uma pessoa passa de bicicleta a alguns metros dali, sem perceber o que estava acontecendo. Kieslowski utiliza também diversos planos detalhe, deixando que as imagens contem um pouco da história. Quando o jovem está na lancheria e a câmera mostra as suas mãos enrolando friamente a corda, já é possível perceber que ele está planejando um crime. Aliás, o filme possui uma quantidade mínima de diálogos, se concentrando muito mais nas imagens, cores, expressões e pequenas atitudes dos três personagens. Não é exagero afirmar que o filme poderia até ser mudo que não perderia nem um pouco da sua maestria.

Outra questão que chama atenção é o "tom" da obra. Utilizando filtros amarelados, esverdeados e escurecendo propositalmente as bordas das imagens, o cineasta consegue construir através das cores um clima de frieza e tristeza, essenciais para a história. A primeira cena, em que se vê um gato morto, as cenas externas em que o jovem perambula pela cidade, cometendo inclusive pequenos delitos e a cena do assassinato ficaram realmente sombrias com os filtros. São questões técnicas relativamente simples, mas que enriquecem muito o filme, de um modo geral.

A estética carregada e sombria de Não matarás
Quanto à montagem e a pós-produção, de um modo geral, dois fatores merecem atenção: o ritmo e a trilha sonora. Não Matarás possui um ritmo lento, podendo até causar incômodo entre o espectador não familiarizado com o cinema europeu. Em relação à trilha sonora, é curioso analisar como são raros os trechos do filme em que se utiliza alguma música. Essa economia, ao contrário do que muitos possam imaginar, auxilia ainda mais na construção do filme, pois inquieta e perturba o espectador.

Por fim, pode-se afirmar que o filme é pesado e extremamente violento, no entanto estas características não são expostas no filme de forma apelativa, simplesmente visando conquistar espectadores sedentos por violência. O que o maior cineasta polonês nos oferece é uma excelente oportunidade de refletir acerca de um tema tão controverso e, de quebra, sobre a forma caótica como nos relacionamos enquanto seres humanos.



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