O frio me (con)venceu


A conversa segue descontraída e calorosa. Pudera, estamos ao redor da lareira. Para uma noite de sábado, que o inverno decidiu mandar o sopro gelado na cidade, não há lugar melhor para conversar. Duas taças de vinho tinto circulam por nossas mãos. Revezam-se na função de manter as ideias não tão sérias e brilhantes, e os lábios roxos.

Há um antigo ditado romano que diz: “A verdade está no vinho”. Fico com a dúvida. 

Será que a verdade exige moderação? 

A conversa seguia, descontraída, até que eu, que não sou de propagar debates tensos, acendi o estopim. Aos meus seis amigos que estavam, assim como eu, atraídos pelo calor da lareira, lancei a frase: 

- Coitados daqueles que não têm como se aquecer no inverno... 

O papo pegou fogo.

Um amigo se armou com três pedras na mão. Disse que pobre não se ajeita por falta de inteligência. Que gasta tudo em bebida. Completou com o argumento de que a maioria não sabe lidar com o pouco dinheiro que consegue adquirir.

Bebi um gole do vinho. 

– Até das maiores bobagens tira-se lições, pensei em dizer. 

O vinho desceu pela garganta. A frase não desceu, ficou na cabeça. Nem sempre digo o que penso.

Outro amigo, disse que a pobreza é exclusivamente culpa do governo, que não dá assistência aos necessitados. Além do mais, segundo ele, o governo deveria implantar programas de ensino que visassem o aprendizado de línguas estrangeiras e moldassem o caráter desde cedo. Falou também em aulas de noções de Direito, Economia e Cidadania para alunos do Ensino Fundamental. 

Alguns riram. Outros quase pularam no seu pescoço. 

– Não seja louco! - disse um deles. 
- Como que tu quer ensinar essas coisas para crianças que ainda não aprenderam o básico? 
– Deixa de ser louco! - reforçou antes de ouvir a resposta.

A taça de vinho segue na minha mão. Portanto, continuo sem falar nada. O vinho, no momento, é bem mais interessante que aquelas entusiasmadas soluções para a pobreza brasileira.

Uma amiga, esposa daquele que saltou com três pedras na mão, contou a nós uma experiência pessoal que teve. Ela é professora municipal, tem contato direto com a realidade social de alunos de baixa renda. Alunos do ensino fundamental. Ela falou sobre um desses alunos que frequenta suas aulas no turno da manhã. O detalhe é que o menino sempre usava chinelos de dedo.

O frio que faz aqui no Rio Grande do Sul encarregou-se de dramatizar ainda mais o que ela nos contava. Comovida com a situação do aluno, deu a ele um par de tênis feminino. Era só o que ela tinha para doar. Era bem o tamanho que servia no menino. Tênis usados, mas ainda em condições de aquecer os pés.

Não me recordo se ela falou a idade e o nome do aluno. Entretanto, falou que ele não deu importância para os detalhes na cor rosa que os tênis têm. 

– Esses tão na moda. 

– Chinelo é muito frio, professora.

Ela entendeu que essas afirmações foram a forma dele agradecer a doação. 

A semana seguinte à doação foi chuvosa. Já na quarta-feira, o menino apareceu novamente na escola calçando os surrados chinelos.

– Fulano, e os tênis que te dei? 

O menino respondeu sem constrangimento: 

– Molharam, profe! Muita chuva!

Um par de chinelos velhos, maiores que seus pés e, agora, um par de tênis feminino. Esses eram os únicos calçados dele. Serviam tanto para ir à escola, para passear ou brincar.

Se é que nessa situação o menino tem ânimo para fazer essas coisas, pensei, antes que ela terminasse de contar outros detalhes da vida familiar daquele aluno.

– Cinco filhos, casa de madeira sem divisão nos cômodos, mãe desempregada e pai sustentando a casa com trabalhos informais. Os populares bicos.

- A irmã mais velha do menino tinha que entrar e permanecer dentro da casa com a cabeça baixa, curvada, senão batia no teto. 

– Casa minúscula como aquelas casas de bonecas, só que sem a felicidade das brincadeiras de criança.

– Esse é o retrato não só dessa, mas de inúmeras famílias Brasil afora.

Será que tenho parte na culpa por aquela criança usar chinelos de dedo em pleno inverno? E eu aqui, bebendo vinho, com o estômago cheio, bem acomodado em frente à lareira. 

Me senti um burguês egoísta. 

Que porra de humanitário eu penso que sou? Afinal, hoje, diferente de outras épocas, possuo facilidades para um estudante universitário de classe-média. Possuo condições de fazer algo para ajudar quem realmente necessita. Mas não faço. 

Tenho o automóvel da família quando preciso me locomover, caso o lugar que pretendo ir fique muito distante de onde estou. Embora sua utilidade tenha sido desvirtuada a muito tempo, automóvel só serve para isso.

Alguns de meus amigos também sentem vontade de ajudar outras pessoas. Minha geladeira está cheia assim como meu roupeiro. Mesmo durante os dias de semana, sobra algum tempo que eu poderia usar para melhorar diretamente a vida de alguém, ou então, fazer isso sendo voluntário em alguma instituição de caridade.

Tenho disposição, mas não tomo a iniciativa certa. Minhas maiores solidariedades resumem-se a parar o carro na faixa de pedestres. Dizer saúde quando alguém espirra mais alto ou segurar a porta do setor de autoatendimento dos bancos quando tem alguma pessoa saindo logo atrás de mim. – Como sou solidário...

Não, isso não é ser solidário, é ser apenas educado, gentil e omisso. Tipo facilmente encontrado nas universidades brasileiras. 

Numa escala de zero a dez, estou no grau menos um, no quesito ajudar o próximo. Enquanto isso, alguma pessoa enfrentaria melhor o frio do inverno se eu doasse aquele moletom que está a anos no fundo do meu guarda-roupa. E se eu fizesse mais... E se eu participasse de algum projeto social? Qual a dificuldade em ser mais solidário, cara?

Distraído com esses inúmeros pensamentos, não prestei atenção ao que estava sendo conversado. Ao retomar a atenção para o assunto, notei que o debate ficava cada vez mais tenso. As taças não estavam mais nas mãos.     As mãos gesticulavam tentando dar ênfase aos argumentos. A quantidade de argumentos era das mais variadas linhas. Era um caos verbal. Hálitos cheirando a vinho. Perdigotos saltando em todas as direções. 

Parecíamos políticos treinando oratória. Gritando promessas genéricas. 

– O governo é uma merda. - dizia um. 

Outro falava que o povo está acostumado com o paternalismo estatal.

– Não podemos setorizar os problemas - disse eu, numa tentativa de parecer inteligente. 

O nosso papo furado explodiu de vez, quando eu disse que defendia o programa assistencial Bolsa Família. Mesmo que alguns amigos tenham me dado razão, outros disseram que o governo vai sustentar para sempre o que, segundo palavras deles, são as pessoas que esperam tudo cair do céu, não trabalham e ficam fazendo filhos. 

Rebati aquele papinho tendencioso, mesmo sabendo que estava usando o tal do “faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço”. Disse que o programa é uma forma de dar o arranque inicial para tirar famílias da extrema pobreza. Dar condições mínimas de alimentação e tentar manter as crianças frequentando a escola. 

Para chamar atenção ao que eu estava dizendo, peguei novamente uma das taças de vinho na tentativa de ganhar suporte ao que eu iria contar. Apelei para o drama verídico da época em que passei fome e não tinha forças para prestar atenção nas aulas. 

Uma lição que, para o meu bem, é melhor não esquecer. 

– Acho que só isso justifica minha preocupação com quem passa por dificuldades sociais. 

Mas enquanto eu falava, eu pensava... Omisso. Omisso. 

A palavra martelava na minha cabeça...

Todos na sala notaram a transparência que dei ao meu relato e o tom das vozes baixou instantaneamente. Até aquele momento, o que predominava na conversa era uma guerra de egos e discursos repetidos. – Inclusive os meus. Foi bom mencionar a experiência que tive com a dona fome, que me custou dois anos escolares perdidos. 

As vozes baixaram tanto, que virou silêncio. Mudos, ninguém se olhava.  

Clima de velório. Elevador lotado. Só dava para ouvir os estalos da pequena e última lenha que ainda mantinha o fogo acesso. 

A conversa havia morrido. O fogo estava cambaleante. Nós, semi-bêbados, sendo que não existe essa palavra e nem esse estado físico. 

Estamos bêbados ou não? 

Confirmei aquele antigo ditado. A verdade estava no vinho.

Usei-os sem moderação.

No final, quando a cor que predominava na lareira era cinza, e o fogo não cumpria a sua finalidade, aquele que não era bem vindo resolveu intrometer-se para acabar com a reunião dos velhos amigos que não chegaram a quase nenhum consenso. 

Nossos argumentos eram mais baratos que o nosso vinho. 

O frio mandou que calássemos a boca. Obedecemos. Fechamos os lábios roxos e fomos para nossas casas.

Mesmo sem nos darmos conta, chegamos a algumas conclusões naquele sábado congelante. 

No inverno, depois que acaba o vinho, a lenha e a inteligência, não tem conversa que resista. Além disso, num país em que crianças vão para a escola usando chinelos de dedo num frio de quatro graus, juntamente com universitários que não participam de nenhum programa social ou não tomam nenhuma atitude de ajuda ao próximo, nesse tal país, continuarão a existir enormes dificuldades em correr atrás do tão sonhado desenvolvimento social. 

Assumo minha culpa.



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