Dahmer à vista

Qual a função das artes? E dos artistas? Suas obras têm utilidade? Tenha você pensado ou não nessas perguntas, garanto que elas estão na sua cabeça. Respostas para perguntas desse tipo existem várias... 

Para mim, as perguntas surgiram ao ver uma tirinha do desenhista e poeta carioca André Dahmer. Na primeira batida de olho achei o traço simples, infantil, mas parei por mais alguns instantes os olhos na tirinha, reparei no texto, formei mentalmente o contexto e exclamei a primeira frase em voz alta: acidez pura!


André Dahmer nasceu em quatorze de setembro de 1974 na cidade do Rio de Janeiro, foi um menino inquieto, hiperativo. Descobriu ainda na infância o calmante para tanta hiperatividade: desenhar.

Em frente a sua casa existia uma escola de artes, da professora de pintura Maria Teresa Vieira (1932 - 1998). Ela foi amiga de Carlos Drummond de Andrade, do cartunista Ziraldo, e de outros tantos artistas do efervescente cenário cultural carioca daquela época. Dá para imaginar o quanto de influencias positivas ela tinha e o quanto repassou ao então aprendiz André Dahmer. 

Segundo relatos do próprio, a pintura o ajudou a pensar, melhorou seu desempenho no colégio, desde quando começou a frequentar as aulas na escola de pintura, suas notas melhoraram e nunca mais ficou em recuperação. Além disso, ele deu os primeiros traços para tornar-se o artista que é hoje.  Ao ler essa pequena biografia do Dahmer, exclamei a segunda frase em voz alta: guri sortudo!

André ficou na escola de artes até os dezesseis anos de idade, terminou o colégio e foi para a faculdade na PUC-RJ, onde começou o curso de desenho industrial. Já no terceiro semestre da graduação ele sentia-se desmotivado com as aulas e vislumbrava um futuro que, para ele, não seria nada animador, - vou desenhar embalagens de sabonetes pelo resto da minha vida. Mais uma vez o guri sortudo teve a ajuda de um professor que, notando sua desmotivação, deu alguns conselhos ao André: 

- Você não pode pintar mexendo o pulso, você tem que pintar mexendo o sovaco; - Quem pensa não pinta, quem pinta não pensa. Conselhos sábios que o artista carrega até hoje.  

Eu imagino várias situações para aplicar os conselhos que o professor deu ao André, no entanto, não quero transformar esse texto naquelas verborragias dos livros de autoajuda, cheios de lições de moral, que parecem receitas para as pessoas construírem uma vida feliz e de sucesso.

Interpretem as frases ditas pelo professor de André de acordo com as suas necessidades. Mecham seus sovacos!

O então aluno desmotivado resolveu continuar na faculdade, não pelos conselhos que ouviu do professor, pois, na ocasião, eles serviriam mais para aplicar na sua arte. 

André seguiu no curso de desenho industrial para não decepcionar seus pais. Ele formou-se, entregou o diploma a eles e nunca mais o usou. 

O artista foi à luta, decidiu que iria desenhar quadrinhos. Mesmo sem bagagem nenhuma nesse tipo de arte, ele começou um blog na internet, isso em 2001. 

Despretensioso, amador, - palavra que ele adora, abasteceu o blog com suas criações e ganhou visibilidade, tanta, que André não fazia ideia, deu-se conta do tamanho da sua obra quando recebeu uma ligação de alguém que se dizia do Jornal do Brasil, um dos mais importantes veículos de informação do país queria que ele fizesse tirinhas para o jornal. Ele pensou que fosse brincadeira de algum amigo. Não era. Hoje André é reconhecido como um dos mais importantes desenhistas do Brasil, mas odeia ser chamado de profissional. 

Comparo suas obras com pinturas rupestres, aquelas que nossos irmãos primitivos faziam nas paredes das cavernas para retratar seu cotidiano.

As tirinhas de André carregam uma ironia profunda quanto ao nosso modo de viver nesse início de século, são como uma lente de aumento direcionada para o lado podre que há em todos nós, o lado perverso que, tão banalizado, tem aflorado cada vez mais. 

As respostas para as perguntas do início do texto? Tenho algumas. Penso que a função do artista, nesse caso, artista visual, é a de captar pedaços da realidade para formar outra realidade. Aumentá-la. Dobrá-la. 
Suas obras são como antenas que captam ao mesmo tempo em que imitem sinais. No caso das obras logo abaixo, elas provocam nosso riso colocando-nos em frente ao espelho que é nossa própria vida. 

Terceira frase que exclamo em voz alta: chega de texto, hoje, vocês merecem imagens!













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