Especial Sexta-feira 13: Fatos inexplicáveis que marcaram os autores do Altos Papos pt 01



O dia em que o diabo foi enganado (ou quase)

Imagine se o seu melhor amigo viesse na sua casa todo afobado e cuspisse para você:

- Cara, a vizinha tá possuída. Parece que amarraram ela na cama. E agora?

Na época, eu tinha 12 anos. Obviamente fiquei apavorado, ainda mais quando me dei conta de que ela morava do lado da minha casa. A notícia logo se espalhou e a cidade toda ficou num alvoroço daqueles. Era o assunto do momento em todas as rodas de conversa. No colégio, os meus colegas riam do meu pavor.

- Se fudeu, se fudeu, ela é tua vizinha! Se fudeu, se fudeu!

A dúvida que pairava no ar era: Por que ela? Será que havia um motivo específico ou o coisa ruim escolheu a sua vítima aleatoriamente?

As mais controversas teorias surgiram. A mais aceita entre os moradores envolvia duas religiões e uma “brecha espiritual” muito bem aproveitada pelo capeta. Vejamos passo a passo:

-> A moça era da religião A;

-> Era normal (aparentemente);

-> A família dela também era da religião A; 

-> A família decidiu trocar para a religião B;

-> A moça decidiu se converter para a religião B com o restante da família;

-> Entre essa troca de uma religião para a outra a família ficou numa espécie de limbo;

-> Alguém disse com toda convicção que “nesse perigoso momento de transição existe a possibilidade de todo tipo de força sobrenatural se manifestar, aproveitando a brecha fornecida”;

-> A moça foi a grande afetada porque supostamente “se encontrava num momento emocionalmente instável”.

A esmagadora maioria da população da cidadezinha acreditou na teoria. Logo, ela foi aceita e virou a “versão oficial popular”. Com 12 anos apenas, eu não conseguia formular nenhuma teoria melhor. Então, decidi estudar o caso de perto. 

Meu amigo perguntou se eu já tinha assistido O Exorcista. É claro que eu já conhecia toda a história, porém faltava coragem pra ver o filme. Analisando a situação, ele foi pragmático:

- Se tu tem medo até de assistir o filme, de onde é que tu vai tirar coragem pra ir ver uma mulher possuída?

Nesse momento, eu pensei que isso funcionava a meu favor. Acredito que se eu tivesse assistido o filme, eu realmente iria lembrar daquelas cenas arrepiantes e desistiria da ideia. Por outro lado, eu não possuía nenhum acervo visual na minha mente que pudesse vir a me travar. Eu poderia, sim, ir até lá e dar uma espiada rápida. Bem rápida.

O que eu vi naquela tarde de verão me intriga até hoje. 

Percebi que a janela do quarto dela estava com uma fresta aberta. Me aproximei lenta e silenciosamente. Caminhando a cerca 50 metros do local já era possível escutar os urros da moça. O tom de voz era grave e forte. Eu comecei a tremer e suar. As minhas pernas fraquejaram algumas vezes, mas eu consegui chegar bem próximo da janela. Meu amigo ficou observando de longe. Eu estava com tanto medo que só consegui olhar por alguns segundos, no entanto, foi mais do que suficiente. A moça estava deitada na cama gritando e se mexendo sem parar. Ela estava inchada e com a pele roxa.

Foi uma visão apavorante. Não pensei duas vezes e saí de lá correndo o mais rápido que pude junto com meu amigo! Eu não queria mais saber daquilo tudo. Mas as histórias continuavam correndo de boca em boca. Realidade e ficção se misturavam. Ninguém sabia o que fazer e nem em quem acreditar.

Nos dias seguintes, a moça continuou aparentemente possuída. Líderes da nova religião da família tentaram exorcizar o demônio, mas não obtiveram sucesso. Um grupo de senhoras “de muita fé”, comovidas com o caso, resolveu ajudar. Corajosamente, se revezaram em sessões de oração durante a noite na própria casa da moça.

Logo na primeira (e agitada) noite de orações, a moça (sempre amarrada na cama) gritava furiosamente palavrões tentando intimidar aquelas bravas senhorinhas. Num determinado momento, o diabo decidiu fazer um acordo: se elas se retirassem dali, ele deixaria a moça em paz exatamente à meia-noite. Todas obviamente aceitaram. O problema é que ainda faltavam duas horas. E a coisa estava bem feia.

Uma das velhinhas chamou a amiga de lado e sussurrou:

- E se a gente adiantasse o meu relógio pra meia-noite e cinco?

Incrédula, a amiga retrucou:

- Tu tá querendo enganar o diabo?

Enganaram. Cheias de esperança, adiantaram o relógio, mostraram os ponteiros e ordenaram de forma autoritária a saída do demônio. Silêncio no quarto. A moça parecia dormir tranquilamente. As bravas senhoras se abraçaram e agradeceram a Deus. 

Contudo, alguns minutos depois, a moça acorda e grita:

- Vocês tentaram me enganar. Agora aguentem as consequências.

O caos tomou conta do local. A família, sem saber mais o que fazer, decidiu voltar atrás e chamou o padre da religião A para tentar mais uma vez curar a moça.

No dia seguinte, no turno da tarde, o padre foi até a casa da moça e exorcizou o suposto demônio. Lembro de ter visto ele saindo da casa completamente ensopado de suor e visivelmente exausto. 

Possessão demoníaca? Surto psicótico? Ninguém sabe responder o que aconteceu naqueles estranhos dias de verão.



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