Especial Sexta-feira 13: Fatos inexplicáveis que marcaram os autores do Altos Papos pt 02

Os relatos a seguir são verídicos. As imagens. Os detalhes. As sensações. A mente humana é poderosa, entretanto não tem explicação para certos fenômenos que nos cercam. Se os fenômenos que vi foram criados pela minha imaginação ou foram algo realmente externo à mim, não sei. Sei que vi algo. Sei que foi marcante. Vou lembrar até o último dia de vida. Ou até a última noite. Isso os torna, ao menos para mim, tão verídicos. 


A primeira sombra na memória

O som da televisão tomava conta de todo o ambiente. Primeiro de maio. Noite de domingo. Ano de mil novecentos e noventa e quatro. A casa era nova. Construída dois anos atrás. O relógio perto de marcar vinte e duas horas. Eu só recebia ordens. Naquela noite a última ordem que ouvi veio da minha mãe. Ela me mandou escovar os dentes e ir dormir. Relutei por alguns minutos.

 - Que criança cumpre uma ordem dessas sem relutar? Não adiantou a luta. Tive que ir para o banheiro, contrariado, mas fui. 

No banheiro a higiene bucal já estava quase no fim. Eu debruçado sobre a pia branca olhava fixamente para o ralo, via perfeitamente o contorno da minha sombra, mais precisamente a sombra da minha cabeça, dentro da pia. 

Não pensava em nada. O ato de escovar os dentes estava acontecendo de forma mecânica. Nesse ato mecânico e distraído olhei novamente para o ralo da pia e subitamente, ao retornar os olhos para o contorno da minha sombra, notei que tinha algo diferente. Era como se fosse uma mexa de cabelo a mais, algo no formato de um gancho, uma espécie de ponto de interrogação bem no alto da minha cabeça. Não me assustei. Segui escovando os dentes mesmo sem entender. 

Mexi a cabeça e a estranha sombra acompanhava. Mesmo sem assustar-me, nesse instante eu já não escutava o som da televisão que antes podia ser ouvido. A luz do banheiro incidia sobre mim da mesma forma. Eu apenas olhando aquele fenômeno que, agora, colocado no papel, parece tão banal. Durou dois segundos e sumiu. 

Não tive medo. Terminei o que estava fazendo. Retomei a posição ereta, pois eu estava debruçado sobre a pia, e olhei-me no espelho. Não havia nada sobre minha cabeça, a não ser a dúvida. Tudo perfeitamente igual, não fosse aquele contorno na minha sombra, que pode ter mil interpretações diferentes. 

Fui dormir pensando no que tinha acontecido, não contei para meus pais, deitei e dormi sem dificuldades. Crianças, diferente dos adultos, lidam bem com o inexplicável. 



O primeiro vulto na memória

Estou no mesmo bairro, na mesma casa onde ocorreu o fenômeno da sombra. Há rumores que na época dos jesuítas, nos primeiros anos da minha cidade natal, esse bairro serviu de cemitério. 

Isso não explica nada, mesmo assim é impossível não fantasiar sobre o que existe abaixo das casas. Que pessoas e que artefatos estão repousados ali sobre nossos pés. Houve boatos de pessoas que acharam ossos humanos. Uma faca de prata. Esses artefatos foram encontrados nos terrenos que ficam à frente de onde foi construída minha casa.

Estamos em dois mil e um. Eu converso com três amigos na frente da casa de um deles. A casa que este amigo mora, foi uma das primeiras do bairro. Casa antiga, arquitetura popularmente chamada de “cachorro sentado”, devido à construção ser alta na fachada e ir gradativamente baixando até a parte dos fundos.

Embora os rumores não confirmados sobre o cemitério jesuíta, sobre os artefatos achados nos terrenos e sobre outras tantas coisas ligadas ao que as pessoas chamam de sobrenatural, a história verídica parte do assassinato de uma prostituta na casa que falei. Nos anos sessenta a casa serviu de prostíbulo. 

Numa noite de casa cheia, ocorreu uma briga entre dois homens e uma das prostitutas. Ela acabou degolada por um deles. Morreu na hora. Desde então conta-se na cidade que a casa é mal-assombrada. Ou bem assombra. Pois também contam que a prostituta era a mais linda da casa. 

Contam que à noite as pessoas ouvem o som de pratos quebrando e barulho de chuveiro ligado. Típica lenda urbana. O assassinato é verdadeiro. Os sons que as pessoas dizem ouvir durante a madrugada, eu já não sei. 

Cria-se um universo de histórias paralelas em torno de acontecimentos como esse. Meu amigo que mora na casa disse que nunca ouviu nada, a não ser o barulho dos ratos correndo pelo antigo forro de madeira.
   
Como falei, é noite, estamos na rua, bem em frente à casa estilo “cachorro sentado”. A casa que foi prostíbulo. A casa que, igual a maioria das casas antigas, têm ratos no forro. 

Quase nove horas da noite. Conversamos sobre assuntos nada sérios. Nada de fantasmas ou algo parecido. Nada que pudesse sugestionar nossa imaginação. Ou somente a minha. 

Estou de frente para o Sul. Converso desinteressadamente. Olho para a esquina. A rua vazia e silenciosa. Só uma moça vindo a alguns metros na nossa direção. Meus amigos de costas para ela. Não ligo muito, volto o olhar para um dos meus amigos, troco duas palavras, e olho novamente para a esquina. A moça sumiu. Desapareceu com se alguém desligasse a luz. Ela vinha pela parte direita da rua, onde hoje ainda há um grande muro. Ali não há entradas ou algum lugar que a pessoa entre e fique fora do campo de visão. Vi ela a uns quarenta metros de onde nós estávamos.  Ela parecia ter cabelos pretos, lisos e longos. Vestia roupas claras. Parecia ser bonita. Magra. 

Falei para meus amigos sobre o que vi. Falei na hora que ocorreu. Eles riram. 

- É lógico que não iriam acreditar, eu não acreditaria se me contassem algo semelhante. 

Mas vi. Vi por uma fração de segundos. Acontece tão rápido que não dá tempo de sentir medo. Não assustou. Pisquei os olhos, ela parecia ser linda.



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