Roque? Eu rio.


Não se sabe se o Roque cometeu suicídio ou foi assassinado. O Roque que se ouve hoje, tirando raríssimas exceções que, de tão raras, ninguém sabe ao certo se existem, é um eco do passado, um espírito captado e retransmitido por médiuns vocalistas, a maioria deles, vestidos por um estilista e seguindo as ordens de um empresário. Proteção ao investimento, pessoal!

Eco de guitarras. Distorções. Distorções do som, do instrumento, pois as distorções do gênero, cada vez mais, confundem-se com o lamento dos saudosistas e com o excesso de zelo dos críticos e dos fãs. Todo disco tem o lado A e o lado B, escolha o seu preferido.

Saudosistas, críticos e fãs em frente a uma loja de vinis
A morte não esclarecida foi dolorosa, foi lenta. Caso tenha sido suicídio, deve ter ocorrido pelo corte dos pulsos ou por overdose, o Roque sempre foi dado aos clichês e aos extremos. Caso tenha sido homicídio, primeiro, houve a tortura. 

As mais tocadas das rádios e as listas das músicas mais importantes é uma espécie de tortura que antecipou o homicídio. Fez com que bandas de qualidade aceitável fossem reconhecidas apenas por uma faixa aleatória, logo, a enxurrada de outras faixas e as intermináveis listas, juntamente com outras bandas que surgiam, jogou terra na garganta e nas mãos de músicos relativamente bons. A quantidade matou a qualidade. Top hits deveria se chamar top risco. Hoje em dia, a opção daunloades, deveria ser substituída por baixar o santo

Os contratos não lidos, a falta de compromisso com a carreira, - Falo da carreira musical, as constantes automutilações do estilo e do som, juntamente com os músicos de vitrine, os manequins usando camiseta de banda, tudo isso contribuiu para levar o Roque ao suicídio. 

– Será que foi um caso atípico, suicídio e homicídio juntos, no mesmo instante?

Quem sabe cientistas, arqueólogos, cantores gospel, filósofos ou algum grupo de pago-funk-nejo-tecno-pop, num futuro bem próximo, descubram o que ocorreu no fatídico dia 17 de agosto de 1969, um domingo. – Os domingos são sempre nostálgicos. Foi exatamente nessa data que o jovem Roque traçou seu destino ou teve seu destino traçado, fato que ocorreu sob os olhos e ouvidos de 500 mil testemunhas, aproximadamente. 

As 500 mil testemunhas e o jovem Roque
Se algum crítico especialista esteja lendo, já sabe que data foi essa, o que de especial há nela. Se não conseguiu ligar a data ao defunto, relaxe, todos nós temos a memória seletiva. Esquecemos o que, por conveniência, não queremos lembrar, tampouco admitir.

A data citada foi o último dia do festival Udestoque, festival ocorrido numa fazenda alugada em Bethel, interior de Nova Iorque, EUA. Precisamente no último dia do festival, diante das 500 mil testemunhas, o Roque iniciou sua decadência que anos mais tarde, pois a data da morte não está esclarecida, culminaria em velório. 

O último acorde da guitarra de Jimi Hendrix no festival pode ser interpretado como a marcha fúnebre, embora antecipado, pois o Roque ainda tinha vida, o acorde previa que o passar dos anos seriam fatais. 

Quando Hendrix, que coincidentemente morreria um ano depois do festival, desplugou sua guitarra, o mercado do shoubisnes percebeu que encher os bolsos é mais prazeroso do que encher os ouvidos com boa música. Duas linhas foram traçadas. A ascendente do lucro cruzou pela descendente da qualidade. 

O lucro nunca atravessa o ritmo, nunca erra a nota e, caso isso ocorra, sempre haverá editores e críticos bem pagos para fingir não ter notado  alguma banda ou músico solo maltratando os ouvidos da plateia. 

Notas musicais foram substituídas por outras notas. Nada contra o lucro, mas que fosse mantida a qualidade musical. Uma das piores coisas que pairam sobre o túmulo do Roque é a massificação dos gostos musicais. A nuvem negra atende pelo nome de nuvem eclética.

A lápide do Roque
Pulando etapas, para poupar o leitor de uma reconstituição de fatos trágicos, o Roque foi da crueza do som feito na garagem direto para a geladeira do necrotério, do célebre, porém premonitório Udestoque, aos sonolentos festivais que hoje vemos. 

Sim, vemos, pois as atrações sonoras perderam espaço para mirabolantes efeitos visuais. Lembram shows de ilusionismo que, para esconder o truque e os defeitos, os mágicos colocam belas assistentes no palco, usam luzes, fumaça e espelhos, o público delira e a mídia aplaude. – Ou seria o contrário? - Bis, bis, canta outra que eu gosto!    

Deitados sobre uma pilha de discos de vinil, os saudosistas lamentam; - Oh, Roque querido, quanto incenso desperdiçado tentando ressuscitá-lo! 

Apesar disso, o Roque é o defunto mais visto, ouvido e comentado em todo o mundo. - Estou na turma dos saudosistas, e você? 




Compartilhar: