Rua terra. CEP 21

Num bairro qualquer. Numa rua igual a tantas outras ruas. Vivem famílias de várias etnias. Tem a família Silva. A Hérnandez. A família Ahmed. A González. A família Wang. A Johnson, enfim, inúmeras famílias. Elas deveriam praticar a política da boa vizinhança, contribuir para tornar a rua um lugar melhor para viver, mas não fazem. A rua não é calma.

Há sempre algum atrito entre alguma dessas famílias. Muitas vezes por motivos fúteis. Embora todas as famílias afirmem que não têm interesse em brigar, parece que a convivência entre elas fica pior a cada ano que passa.

É o cachorro dos Silva que estraga o jardim dos Hérnandez. O filho dos Wang que estaciona o carro na porta da garagem dos González. Os Ahmed que às vezes escutam música em um volume muito alto e atrapalham o sono dos outros moradores da rua. Essas coisinhas que acontecem na maioria das vizinhanças.

Ultimamente, o que vem ocorrendo, o que vem preocupando os moradores, é algo mais sério. É o excesso de intromissão e curiosidade da família Johnson. Eles, preocupados com os pequenos atritos que acontecem na rua e querendo propagar a paz no local, deram em cuidar a vida dos vizinhos. Algo que tem gerado fofocas de todos os tipos. 

O senhor Wang jura que viu o senhor Johnson xeretando sua garagem.    Sr. Johnson nega, disse que naquele dia estava em casa assistindo beisebol na TV. Porém, senhor Johnson ressaltou que até poderia fazer isso, caso achasse necessário para manter a paz na rua.

Os três filhos dos Hérnandez, reclamaram para a mãe que foram impedidos de brincar na pracinha do bairro pelos filhos dos Johnson. Os Johnsinhos, falaram que era para o bem dos Hérnandez, pois brincar longe de casa não é nada seguro. Os Johnsinhos são conhecidos pelas suas duvidosas técnicas de proteção e heroísmo.

Houve até uma cena teatral numa manhã dessas. A senhora Johnson acordou cedo, não tomou café, estava com pressa, foi direto para a frente da sua casa, que fica acima das outras casas. De lá tem uma visão privilegiada. A rua em que as famílias moram é uma ladeira, embora poucos admitam isso.

Senhora Johnson permaneceu na frente da casa, imóvel, imponente como sua mansão, olhar fixo no horizonte, lembra uma águia voraz procurando a preza, até que a preza surge. É o carteiro, que vai em direção à caixa de correspondência da modesta casa dos Ahmed. Sra. Johnson corre ladeira abaixo, o carteiro se assusta com a pressa daquela mulher com olhos de águia. 

Ela para na sua frente, entre a caixa de correspondência e o rapaz, e ordena que ele lhe dê todas as cartas dos Ahmed, ela quer ler antes deles.  O carteiro pergunta os motivos, Sra. Johnson desconversa, ela é hábil quando assuntos precisam ser desconversados. Ele se nega a cumprir a ordem. Sra. Johnson fica furiosa, pois ainda não tomou seu café, não comeu seus bacons com ovos mexidos. Ela esbraveja, gesticula, berra ofensas ao rapaz, mas ele é mais rebelde que ela e não cede. 

Sra. Johnson volta para casa de mãos vazias. Mas Antes de dar meia volta, já havia acordado toda a vizinhança da rua com a cena que fez para tentar ler as cartas da família Ahmed. Ela é conhecida de todos por sempre fazer escândalos quando vai para a parte externa da sua casa.

Passada aquela manhã teatral, embora ninguém tenha esquecido a cena do carteiro, a última fofoca que corre na rua é algo que, segundo os vizinhos mais linguarudos, já acontecia há meses.

A senhora Silva, diferente da senhora Johnson, é conhecida na rua não pelos escândalos, mas sim por sua beleza. Sra. Silva é uma bela mulata. Recatada, discreta, mesmo assim têm chamado a atenção da vizinhança. 

Numa tarde de domingo, céu azul e termômetros batendo nos 29 graus, Sra. Silva decide tomar banho de sol nos fundos de casa, dispensou a praia, biquíni minúsculo, pegou a canga, os óculos, espalhou bronzeador pelo corpo e deitou-se de bruços sobre a toalha estendida na grama. 

– Dizem que a do vizinho é sempre melhor, estou falando da grama. 

Nádegas ao céu, - diria eu se tivesse visto a cena, pois dessa fofoca fiquei sabendo através de várias bocas, ela folheava de maneira sonolenta uma revista de moda. Como estava de óculos escuros, percebeu um pequeno movimento refletido nas lentes, era no muro logo atrás de onde ela estava, novamente outro, e outro, vários movimentos daquele vulto. Sra. Silva se assustou, tinha alguém a espionando. No impulso, no susto, tirou os óculos, jogou a revista longe, voou a canga, olhou para trás e teve a desagradável surpresa. 

Seu observador era o calvo e roliço senhor Johnson, que ao ser descoberto, fez questão de pular para dentro do pátio dos Silva. Ele vestia uma regata branca da Nike manchada com ketchup, - novamente os vizinhos linguarudos disseram que as manchas eram sangue, e um calção curto e florido estilo Havaí. 

- Ele tinha ganância nos olhos. Foi a frase dita dias depois pela Sra. Silva, que estampou a capa do jornalzinho do bairro.

Ao ver o corpo bronzeando da Sra. Silva, que já estava em pé, o Sr. Johnson começou a gritar como um porco alfabetizado, PETRÓLEO, PETRÓLEO, enquanto acariciava com a mão direita seu minúsculo taco de beisebol que mal fazia volume dentro do calção florido. A senhora silva também começou a gritar, os gritos acordaram o Sr. Silva que cochilava no quarto do casal, as crianças começaram a chorar na sala, os cães latiram, os vizinhos ficaram apavorados com tudo aquilo e não sabiam o que fazer. 

Era o caos na Rua Terra, pessoas tirando fotos, algumas em cima dos muros com seus celulares filmando e postando nas redes sociais, enquanto o roliço senhor Johnson ainda segurava seu taco de beisebol e gritava... PETRÓLEO! PETRÓLEO!

*Qualquer semelhança com os casos de espionagens envolvendo brasil e EUA é mero exercício de observação.



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