A festa


Você está prestes a entrar na festa, está na porta, mas ainda falta provar que você é mesmo você. Falta apresentar a identificação.
Identidade devidamente provada, a porta se abre.
Você entra numa grande sala. A festa já está lotada.
Pessoas e mais pessoas. Elas conversam sobre assuntos variados.
Interagem, mas ainda assim estão sozinhas.

Falam da vida, do trabalho, do governo, dos estudos e da segunda-feira.
Reclamam da vida, do trabalho, do governo, dos estudos e da segunda-feira.
Passos em direção ao fundo da sala e você já reconhece alguns rostos.
Está aquele seu colega do tempo da pré-escola.
Está aquela pessoa que você pensava ser o amor da sua vida.
Está a ex-professora da terceira série.
Uns três ou quatro membros da sua família.
O colega chato do trabalho e alguns amigos.
Todos aqui, poucos conhecidos e muitos íntimos desconhecidos.
O colega chato quando te vê vem logo puxar conversa.
Fala do fim de semana, fala do futebol.
Mostra uma foto do que jantou naquele restaurante chique recém-inaugurado.
Você finge interesse, mas suas palavras não passam de sons por educação.
 - Aham! Aham! Legal!
A ex-pessoa amada, ao te ver, larga uma indireta, que é percebida por todos.
Você não fala nada e segue caminhando, vai em direção ao fundo da sala.
Um dos seus familiares toma suas dores e rebate a indireta com outra indireta.
O colega de trabalho, o chato, levanta o polegar direito num sinal de aprovação ao ouvir o que o seu familiar disse.
Um desconhecido repete a todos a frase de uma escritora famosa que foi a indireta para você.
Mais pessoas levantam o polegar direito. Aprovam a frase, no entanto não sabem o que estão aprovando.
Nesse mesmo instante a ex-professora da terceira série ergue o braço e em sua mão está uma foto do seu cãozinho perdido.
Várias pessoas repetem o gesto dela até que todos na sala veem a foto.
Ela finaliza o gesto dizendo: Pago recompensa!

Dois desconhecidos reclamam do preço da gasolina e falam de futebol como se falassem de religião.
Argumentos costurados sem vírgulas.
Um terceiro desconhecido entra no assunto e GRITA com eles como se estivesse digitando com o caps lock acionado.
Os três começam a discutir.
Discussão ferrenha que não se aproveita uma letra.

Você caminha mais um pouco. Mas já se sente desconfortável nesse ambiente.
Mesmo assim caminha em direção ao fundo da sala. Quer ver mais dessa festa.
É como se tivesse alguém com as duas mãos nas suas costas, na altura dos ombros, te empurrando para frente.

Uma pessoa desconhecida vem falar com você.
Pergunta as banalidades que até os amigos perguntam.
 - Como vai? E as novidades?
Antes que você responda, a pessoa cita para todos que estão na festa uma frase famosa, porém atribui a frase ao escritor errado.
Você pensa em dizer a autoria certa da frase, mas antes que o faça, cinco pessoas levantam o polegar direito aprovando a demonstração pública de sabedoria do desconhecido.
Você desiste de atribuir a autoria da frase.
A ex-professora repete a frase do desconhecido e as amigas que a cercam exclamam: Genial!

Agora duas mãos no teu peito parecem empurrar você para a saída.
Enquanto as mãos nas costas forçam que você fique mais um pouco nessa festa que ninguém se entende.
Nas paredes da grande sala há cartazes com propagandas disfarçadas de dicas de moda, de culinária, lançamentos de carros, celulares e livros sobre dietas milagrosas.

Pessoas citam em voz alta frases do Caio Fernando Abreu.
Do Renato Russo. Do Jô soares. Do gari que virou celebridade.
Pessoas mostram fotos da última baladinha que foram.
Da última viagem.
Do que comeram no almoço.
Uns falam que começou a chover.
Mais gente levanta o polegar. Outros reclamam.
Alguns repetem a notícia da chuva sem saber se é verdade.
Os olhos de todos brilham. A falsa interação excita.
O amigo do tempo da pré-escola fala a todos que vai sair da festa e vai para a academia.
Projeto verão, diz ele.
Mais pessoas levantam o polegar.
Uma delas até comenta que também está indo para a academia.

Você não aguenta mais.
Procura a saída. Ela está a sua direita.
Você sai. Respira.
Entrou para ver como estava a festa.
Seriam apenas cinco minutos.
Olha para o relógio.
Passaram-se quarenta e sete minutos.
A festa é tão social, mas consome o tempo e a paciência.
Daqui a pouco você esquece o que viu lá dentro.
A vontade de saber se tem novidades na festa domina teus pensamentos.
Pensa que se chegar na roda de conversa certa, ficará por dentro das últimas notícias.
O desejo de entrar toma conta novamente.
E lá está você mais uma vez apresentando sua identificação.
Sorriso no canto da boca.
Mais uma dose de festa.
Mais quarenta minutos da sua vida socializando-se no Facebook.



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