Boi de Piranha


No pantanal brasileiro, quando os boiadeiros precisam passar com a boiada por rios e regiões alagadas, onde há piranhas, eles usam o artifício que deu título a esse texto. O boi mais velho, que tem baixo valor de mercado, é escolhido para a missão.

Enquanto a boiada é contida na margem do rio, o boi de piranha é conduzido para a água, ele vai primeiro. Logo ao entrar, o animal começa a se debater e atrai as danadas. As mordidas fazem o sangue manchar a água, e mais piranhas são atraídas. 

Resumo da cena: Enquanto um cardume de piranhas, distraídas, mordem a carne do boi que não serve mais para o abate, os outros animais, junto com os boiadeiros e seus cavalos, atravessam o rio em segurança. O boi velho foi devorado.

A estratégia boi de piranha é bem antiga. Tão antiga que foi aprimorada e é usada em larga escala. 

A mídia corporativa, que se diz jornalística, é uma das responsáveis por esse aprimoramento da tática, juntamente com alguns setores da política e das agências de publicidade. Vincula matérias de cunho jornalístico quando, na verdade, as matérias não passam de propagandas disfarçadas. 

Nem sempre é fácil notar a maquiagem, afinal, são bons no que fazem.

Notem as reportagens que são exibidas dias antes de datas comemorativas.  

– Natal, que está logo aí, por exemplo –. 

Com o pretexto de mostrar o movimento no comércio, as reportagens tendenciosamente exibem imagens das lojas cheias de pessoas. A decoração natalina brilhante, as mercadorias, que na reportagem viram presentes, sendo disputadas a tapas e socos por um público ávido em presentear. 

Enquanto a repórter sorridente fala; – Vejam as lojas lotadas –. 

A mensagem que chega aos nossos ouvidos é; – Vá até as lojas, compre, não seja insensível, é natal, presenteie –. 

Passam as festas de final de ano, começa Janeiro, e a reportagem muda o tom. 

A mesma repórter, agora mais séria, repreende nossa capacidade de lembrar até do presentinho para o porteiro do prédio. 

Em tom severo, ela fala.  – A inadimplência do consumidor Brasileiro sobe, veja dicas para fugir das dívidas –.

As mesmas mãos que no natal aplaudiam as pessoas por lotar as lojas, agora, dão tapas na cara dos endividados.  

A chamada para a matéria sobre as dicas para se livrar das dívidas é uma pedrada no ouvido. 

– Seus caloteiros, compraram e não pagaram, não é –?

Na política também há os bois velhos, há a estratégia, o artifício de atrair as piranhas para um lado e passar pelo outro.   

Embora mais complexa, a travessia do rio ocorre quando nossos amados integrantes do cenário político resolvem colocar em pauta votações de projetos de lei que, se fossem analisados por um público maior, jamais seriam aprovados. Ou então, devido à pressão popular, seriam aprovados com mais dificuldade.

O truque, o boi de piranha, começa com a divulgação de um escândalo político, verídico ou não, que dizem ser o mais escuso e prejudicial para a população, algo inimaginável no Brasil. 

A ênfase no escândalo não é atoa. Com a opinião pública malhando os envolvidos, a passagem fica livre para que projetos escolhidos a dedo sejam aprovados. Projetos esses que, por serem colocados em votação de maneira pouco divulgada, dá para imaginar que não atendam a interesses públicos essenciais. 

– Votação do projeto de reforma tributária? Da reforma agrária? Da reforma política? 

– Não. Vamos votar sobre a liberação do consumo de bebidas alcoólicas nos estádios, afinal temos que adular a FIFA –. 

O estatuto do torcedor, – ainda vigente –, que proíbe o consumo dessas bebidas nos estádios, vale menos que um rolo de papel higiênico. 

E não precisa ser apenas escândalos políticos para servir de distração, pode ser também o resgate dos cães Beagles, a vinda de médicos estrangeiros, o impasse sobre as biografias não autorizadas, o capítulo final da novela das oito, os peixinhos que são usados para comer a carne dos pés, deixando-os lisos e lindos. Quase tudo é distração, para cegar, ou chegar, a um fim que privilegia, nesse caso, poucos interessados. 

Na publicidade, a estratégia pode ser uma imagem associada ao produto, uma frase de efeito, um personagem tipo Bombril, que tem mil e uma utilidades. Aqui o meio não importa, importa o fim, e o fim é distrair as piranhas, ou seja, nós, para que comprem o produto.

A mais popular é a imagem associada ao produto. Popular e, por isso, a mais difícil de ser notada. 

– Já viu algum comercial de companhia de celular que alguém esteja triste? Que alguém não esteja falando? Vivendo a alegria da comunicação –?

– E o comercial de cerveja, com uma linda mulher usando biquíni –? 

– O comercial do automóvel que, se eu comprar, terei a disposição todas as mulheres do bairro –.  

– Ou determinada marca de shampoo, que as mulheres usam e ficam lindas, deusas que saem pelas ruas imitando a Medusa, transformando homens em estátuas de sal –. 

Impossível fugir. A estratégia boi de piranha está em todos os lados. 

Resta-nos, alternar entre os papéis. 

Algumas vezes somos as piranhas, outras, o boi velho. Raramente somos a boiada que passa sã e salva. Quase nunca somos os boiadeiros, que escolhem qual boi vai virar comida de peixe.



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