Biscoito da sorte


Um dia, sem mais nem menos, os posters das bandas preferidas caem da parede. Descolam como se avisassem que é hora de tomar providências e juízo. Deixar a vida de freelancer. Ter horários definidos. Chega de matar aula e dormir até o meio-dia. Nada de Sessão da Tarde. É o momento de vestir a carapuça de quase adulto. Ter um diploma pendurado na parede. Investir na carreira e ganhar o pão de cada dia. Comprar uma casa, achar um par, ter filhos e morrer feliz. Mensagem no biscoito da sorte: Deve nadar de braçadas no mar de responsabilidades. Os posters caíram da parede faz muito tempo.

Nessa hora, nessa guinada que a vida dá, os gostos passam a ser repensados. A seletividade aperta o cerco sobre tudo o que nos cerca. Os amigos, que antes poderiam encher uma van de dezesseis lugares, agora não passam de três. Daquele bando, que pensávamos ser inseparável, restaram os mais confiáveis, os mais toleráveis e os que ainda suportam a ranzinzice típica de alguém que está mudando de casca, como se fosse um filhote de cão inquieto que morde a perna da cadeira. Mensagem no biscoito da sorte: Estão nascendo os dentes que o levarão a líder da matilha. Será o macho alfa ou o bibelô de madame? O cãozinho de apartamento? Só o tempo dirá. 

Enquanto ele não diz, abre a lembrança. Da turma dos dezesseis, que restaram três, nota-se que eram apenas companheiros por osmose, por aproximação, não por afinidades. Era o conhecido do amigo do colega de escola. Era o primo de um dos fundadores do bloco de carnaval. Era a menina bonita que surgiu do nada e sumiu com tudo, inclusive alguns corações. Era o mentiroso compulsivo que ninguém dava bola, mas além de mentiroso ele era perseverante, sempre andava colado no bando, não desgrudava, espécie de cão de guarda, sombra ao entardecer, sempre dois passos de distância, mas na hora da briga não se via nem o rastro. Mensagem no biscoito da sorte: De covarde em covarde, Genghis Khan perdeu seu império.

Envolto em lembranças, vejo o bando nas notícias velhas. Manchetes de um jornal de domingo, mesmo velhas, surpreendem. Contam sobre um que casou contrariado e agora é feliz sendo chefe de família, já tem um filho nos braços. Ouve-se sobre outro que teve a primeira experiência homossexual, foi o ativo, jura que não sentiu prazer e que nunca mais repetirá a dose.

Um virou empresário, sonha em ser bem sucedido, mas até agora só acumulou gordura. Aparece outro atrás das grades, carrega nas costas um homicídio. Surge aquele que morreu num acidente de moto, com a cabeça rachada no meio fio da calçada, tinha passado no concurso, iria assumir o cargo em alguns meses. E aquele que estava no banco do carona, sem cinto, na BR, capotaram, ele voou para fora carro, morreu instantaneamente, deixou uma saudade tão intensa quanto o porre que estavam, afinal, era fim de festa, era fim de ano, sábado de madrugada, quem não estava?

Os mesmos que com dezessete anos ainda jogavam bola na rua, com dezoito alistaram-se. Aos dezenove serviram a pátria. Aprenderam muito sobre nada. Rastejaram e sofreram, mas hoje, sentem vontade de voltar no tempo. Rastejar até aquela época que eram selvagens e indecisos, talvez por isso, poucas coisas incomodavam. 

A cachaça de R$ 2,70 misturada na garrafa do refrigerante de R$ 1,30. O gelo não fazia falta. Tinha gente ao redor. Tinha gargalhadas. Havia olho no olho, e não olho na tela. Tinha a menina que transava com todos. Aquela do boquete que custava R$ 0,30 centavos a mais que a cachaça. Nossas verdades mudavam da noite para o dia, mas doíam como socos na cara. Talvez aquelas verdades voláteis doessem, pois tinham a força inevitável do tempo atravessando nossos corpos. Empurrando-nos até o dia de hoje. O dia em que viramos lembranças. Mensagem no biscoito da sorte: Procure as lições no teu passado.

Lembrei de mais de uma década atrás, misturei com mais alguns meses. Éramos felizes e não sabíamos. Mais uma manchete velha. Mais uma frase que todos repetem. 

Se, para mim, essa lembrança não faz o menor sentido, quem dirá para você, que pode estar com cara de espanto ou com um sorrisinho no canto da boca, feito alguém que acabou de ler uma mensagem doida num biscoito da sorte, e não entendeu porra nenhuma.



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