Não urine na piscina (Última gota de 2013)


Final de ano. Tudo a flor da pele. Ainda assim, é extremamente difícil para alguns de nós entendermos o quanto o sentimento de coletividade é importante. A maioria das pessoas não possui um por cento do senso de organização coletiva que dispõem as abelhas e as formigas. Passamos longe de percebermos o quanto é importante a ajuda mútua. Não falo em caridade, não chego nesse mérito, falo em facilitação do dia a dia. Falo em não urinar na piscina.

Não confunda facilitação com o famoso “jeitinho brasileiro”, que, no próximo ano, na copa do mundo de futebol de 2014, passará a ser conhecido mundialmente como “Brazilian little way”. Não confunda também em ter educação ou externar gentilezas às outras pessoas. Embora educação e gentileza sejam louváveis, a meu ver, nenhuma delas é pré-requisito para sermos facilitadores. 

Melhorar o mundo a nossa volta, aliás, melhorar a sociedade a nossa volta, consiste em melhorar aspectos de vida daqueles que nos cercam. Facilitar a vida envolve facilitar atividades profissionais, relacionamentos pessoais, atividades intelectuais, as compras do final de semana, enfim, absolutamente tudo que permeia a interação de duas ou mais pessoas. 

O ano muda de dígito, e nós, estamos dispostos a mudar nossas atitudes? Será que nossos anseios por uma vida melhor não passarão de mais uma lista? Uma lista que sequer vai para o papel?

Uma lembrança de infância me motiva. Verão. Lembro de algumas crianças, todas mais novas do que eu, brincando numa piscina de plástico. A piscina deixava de ser azul por causa dos inúmeros brinquedos que boiavam na água. Muitas cores boiando. As crianças se refrescando. Até que uma coloração estranha tomou conta de um dos cantos da piscina. Uma das crianças, um menino, até então o mais agitado, estava quietinho naquele canto. A cor amarelada da água denunciava. Ele urinou na piscina.

Quando as outras crianças notaram, saíram aos gritos da água. Voaram para fora patos de borracha. Bonecas barbie. Bolas de tênis.  Armas de brinquedo. Peças de um quebra-cabeça. Havia quase uma brinquedoteca naquela piscina de 4.000 litros. A mãe do garoto, dona da casa onde a piscina estava, imediatamente veio ver o porquê de a algazarra ter aumentado. Ao perceber que o seu filho, o único ainda dentro da água, tinha urinado, ela o repreendeu sonoramente. O xingamento fez eco. A cem metros de distância já sabiam, por causa dos gritos da mulher, que o menino havia sujado a água da piscina com a água do joelho. 

Perguntado sobre a façanha, além da sensação de aperto, o menino deu a mesma explicação furada que nós usamos sempre para justificar certas atitudes e nem nos damos conta. Ele assumiu que havia urinado, mas, segundo a sua inocência, urinou bem no cantinho da piscina. Para ele, isso não afetaria as outras crianças que dividiam com ele a água.

Ponto culminante. Moral da lembrança. Pressa, 2013 está no fim. Quando você abre uma bala, leva-a até a boca e joga a embalagem no chão? Você está urinando no canto da piscina. Quando você marca um compromisso com alguém e sem motivo não vai, sequer avisa que não vai. Mesma coisa. Você está urinando no canto da piscina. Furou fila? Urinou. Está no ônibus e fingiu não ver a mulher grávida em pé, não cedeu-lhe o lugar? Urinou. Não facilitou a vida de quem, naquele momento, precisaria ter a vida facilitada. Recebeu troco para mais e não devolveu? Amarelou a água. Você se pergunta, mas todo mundo faz isso, porque eu não posso fazer? Ao fazer essa pergunta, mesmo que mentalmente, você também está urinando no canto da piscina. Urinando na coletividade. Respingando omissão.

O caso da piscina serve também para políticos que cedem ao lobby de empresas privadas para aprovar ou desaprovar determinado projeto de lei, deixando o verdadeiro interesse público afogado ou em banho-maria. Aliás, Maria, poderia ser o nome da mãe do menino da piscina, caso minha memória não falhasse. Aliás, memória, ano que vem, além da copa do mundo, haverá eleição. Você se lembra em quem votou na última? Está cobrando mudanças ou não liga para quem urina na sua piscina?

Facilite a vida dos outros que nos cercam. Tenha bom caráter, algo que Platão já falava a milênios ser indispensável ao ser humano. Exija bom caráter das outras pessoas. Sou desesperançoso quanto à mudança de atitudes, é essa uma das minhas urinadas na piscina, reconheço, mas não custa tentar. 

Nos falamos em 2014, em janeiro. Aproveite os dias e as noites quentes de verão. Não abuse do álcool, das paixões e da velocidade. Use cinto de segurança e camisinha. Leia os clássicos. Mergulhe de cabeça nesse novo ano, mas, por favor, não urine na piscina, mesmo que a piscina seja sua.

Contrariando cada letra que escrevi. “A virtude está nos atos e não necessita de discursos nem ciências numerosas.” (Antístenes, Grego, considerado o pai dos cínicos)



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