Ao norte de lugar nenhum


Quando olhei para trás e só avistei poeira, percebi que os meus olhos entraram em total sintonia com a nebulosidade  em que se encontravam os meus pensamentos. O sol era escaldante e eu não sabia dizer que estrada era aquela que estávamos percorrendo, apesar de me parecer familiar. Estávamos em algum lugarejo do interior. Possivelmente do interior de nós mesmos. Estranho, quente e misteriosamente hospitaleiro. 

Então, paramos ao norte de lugar nenhum. O preto velho respondeu as perguntas sem que a gente perguntasse. Suas palavras eram ásperas e desengonçadas, mas certeiras. Convictas. Coisa de quem nasceu com o dom de mudar o curso do universo sem fazer muita força. Algo rotineiro, entre um gole e outro de uma bebida feita para quem sabe beber. Um feitiço entorpecente para o próprio feiticeiro. 

Logo, ele profere a sua previsão improvisada. A simplicidade foi tanta que me atingiu como um afago, um consolo pra mente. Já nem lembro exatamente o que ele disse. Foi tudo tão absurdamente rápido, na velocidade da luz e sem paradas, direto ao espírito. Esbocei uma reação, formulei uma pergunta, ma-ma, mas fi...cou nisso...

Eu estava querendo algo a mais quando na verdade precisava de algo a menos. Havia encontrado o absurdo, claro e nítido. Puro. Senti novamente aquela inocência infantil. Quando crianças, nós simplesmente somos. Sim, era isso. O presente tem seus presentes.

O calor e o cansaço foram aniquilando a minha curiosidade no caminho de volta. Já não importava mais saber que lugar era aquele, quem afinal era aquele velho e quem era o meu guia. Eu estava novamente conectado.



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