Crônica Suada


O verão é democrático. Nessa época do ano, aqui no hemisfério sul, não importa se o nosso poder aquisitivo é baixo ou alto. Se jogamos tênis no clube ou sinuca no bar da esquina. Do pedreiro ao dono do prédio. Do governador ao jardineiro. O calor nos faz companhia da mesma forma. É um companheiro fiel. Fraterno. Um velho conhecido de abraço grudento e caloroso. 

Os dias e as noites quentes pedem ao garçom algumas cervejas geladas. Mas eu não bebo cerveja. Penso, talvez, numa caipirinha. Mas o alto teor alcoólico daria ainda mais calor. Quem sabe ir até a sorveteria mais próxima. A mais próxima fica a cinco quadras de distância, além do mais, estou cortando o açúcar da dieta. O calor me deixa ainda mais chato e preguiçoso. Não devo ser o único.

Então, penso nas praias lotadas. As sereias de biquíni. Mas e a areia grudando no suor? E o vendedor de milho gritando no ouvido? E o governador Tarso Genro de sunga verde? Até o governador não aguentou o calor e foi se refrescar nas areias do litoral gaúcho, deixando o pessoal do CPERGS mornos. Com o perdão do trocadilho. Lá estava Tarso, exibindo o físico de bailarino russo aposentado. Branco feito a cara dos professores cada vez que abrem o contracheque.

Cléo Kuhn, o meteorologista, disse que tudo vai mudar. Não falou na situação dos professores, ele falou nas condições do tempo. Disse que há uma densa massa de ar seco sobre as regiões sul e sudeste do país. Segundo Cléo, até vir a chuva, eu sentirei saudades da Sibéria, embora só conheça a Sibéria pela televisão. 

Falando na bendita, ela exibe as mesmas reportagens do verão passado, algumas que se repetem por puro descaso do poder público. Nas metrópoles, as chuvas de verão trazem os famosos alagamentos. Os deslizamentos de encostas. As mortes em decorrência da falta de obras eficientes que contenham essas tragédias. No Brasil, o frágil planejamento derrete com o forte calor. 

As reportagens repetidas seguem, agora, mais banais e menos tristes. O assador da churrascaria que sofre com o calor que vem da churrasqueira. Noventa quilos de carvão queimando lá dentro, diz ele. O padeiro, que derrete em frente ao forno para ganhar o pão de cada dia. A matéria fala ainda nos trabalhadores de uma indústria de gelo, tranquilos, nos doze graus negativos que deixam o verão deles, aí sim, parecendo os dias “amenos” dos Siberianos. 

Ainda na TV, o autodefinido melhor telejornal do meio-dia, apresenta uma série de reportagens onde a estrela principal é uma de suas apresentadoras. Aprenda os truques de bronzeado da Cristina, diz a chamada da série. Parece que ela usa um método infalível que envolve até uma cenoura. Troco de canal antes que a cenoura entre em cena. Esse calor todo dá náuseas, principalmente nos responsáveis por escolher as matérias “importantíssimas” que irão ao ar.

Lá fora, pássaros se jogam em qualquer tigela que tenha água. As pessoas compram suco e procuram sombra, mesmo que seja a pequena sombra dos postes. Cães com a língua de fora parecem usar gravata. Não abanam mais o rabo para os donos nem latem para os intrusos. Ambientes com ar-condicionado viram o paraíso na terra. O sol é o vilão, dizem os dermatologistas. O sol é uma benção, dizem os veranistas.

Suor na testa. Quase sem assunto. Médicos falam que acima dos trinta graus, nossa concentração diminui drasticamente. Gosto muito do verão, mas, assim, de língua de fora, corro o risco de queimá-la. Nessa selva de concreto, façamos a dança da chuva.



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