A novíssima interatividade


Subvertendo os padrões usuais, dias, aqui, tornam-se medida de distância. E poucos dias nos separam. Poucos dias é o espaço entre a ideia-semente e este que você lê agora.

Rápida. Dinâmica. Fluída. Assim é, na maioria das vezes, a criação textual na internet. É a rapidez com que os autores-leitores chegam até seus possíveis leitores-autores. Criação movida pela interatividade de motores-cérebros em altíssima rotação. Dando sinais de fadiga e, por isso, com baixo sinal de brilhantismo, temos um Gutenberg à frente de cada computador, tablet ou Smartphone. Armado de teclado e conexão com a grande rede.

Autores-leitores. Leitores-autores. Tais nomes estampam essa faceta específica da internet, nela, é quase impossível escrever um texto sendo simplesmente autor. O autor como ser só. Ser de monólogos intermináveis. Ser de ideias trabalhadas, lapidadas em câmera lenta. Esse tipo de autor, o tradicional, inevitavelmente, perde cada vez mais espaço no mundo dos caracteres formados por bytes e pixels

Os autores-leitores, e vice-versa, não necessitam de explicações, basta citar a Wikipédia, para termos uma ideia do que eles representam.

O ofício do autor convencional dá sinais de inevitável extinção.
O tempo de sobrevivência, após ser publicado, de um texto exclusivamente “internético”, depende, e muito, da interatividade dos comentários pós-texto. Na troca de comentários entre autor-leitor e leitor-autor, cria-se a via de mão dupla. No meio da via, com todos os lucros e perdas que isso acarreta, surge a possibilidade de corrigir equívocos quase que instantaneamente. Surgem os comentários de fim de página. Os fóruns de discussão. Apontam-se os erros. Aplaudem-se os acertos. Geram-se polêmicas.

Os textos vivos, lidos e comentados, ganham apêndices, sejam eles úteis ou não. Há pouquíssimas pessoas na sociedade dita conectada, moderna, a tribo dos toques na tela, que ainda não tenham provado a sensação pré-orgasmo que a rápida interatividade proporciona. Pupilas dilatadas. Mãos trêmulas. Rubor na face. Arrepios percorrendo o corpo todo. Ego na ponta dos dedos e da língua. Toda essa interação vicia. Aparecem os danos e os prejuízos, resultados de tamanha interatividade.

Surfamos, navegamos, somos afogados, com frequência crescente, por grandes ondas de informação. Montanhas diárias de conteúdo que, infelizmente, são irrelevantes antes mesmo de irem para a inflada bolha que é a web do século 21. Filtrar o útil do fútil é uma tarefa pouco prazerosa. Algo impossível, cujo esforço necessário ganharia o rótulo de censura. 

Embora a pedra de toque seja a interatividade proporcionada pelos textos produzidos para a internet, surgem as inevitáveis perguntas. Os livros impressos vão sumir? As bibliotecas convencionais serão reduzidas a salas dentro de museus? Os autores convencionais devem mudar radicalmente sua forma de trabalho? Os autores que publicam somente em e-books ou só para a internet, são o óleo ou a areia nas engrenagens do velho sistema das editoras? A resposta é uma e vem na forma de outra pergunta: Quem se atreverá a respondê-las?

Bibliotech. Esse é o nome da primeira biblioteca pública norte-americana que disponibiliza apenas livros digitais. Localizada na cidade de San Antonio, Texas, inaugurada no final de 2013, com um acervo de 10.000 e-books, a bibliotech faz o empréstimo de aparelhos que armazenam todos os livros de seu acervo. As pessoas cadastradas gratuitamente têm o período de duas semanas para ficar com os aparelhos em casa. Após esse tempo, eles são bloqueados e os usuários necessitam fazer uma nova visita à biblioteca, caso queiram continuar usando-os. Algo simples e pratico. Algo que contribui para que os livros convencionais, papel, tinta e traças, sejam empurrados ainda mais para o fundo do baú. 
- Crítica negativa ou apenas uma crua constatação?   

Numa comparação obtusa, escrever um livro e publicá-lo apenas na forma tradicional, pode ser comparado ao atirador de elite. Muita análise e calma antes do disparo. Há uma enorme preparação para dar o tiro. O autor precisa esperar mais tempo para ter o retorno do público. Tem que surgir algo como o tesão pelas letras. Pelas ideias no papel. Pelo tempo de gestação do livro. Inegável, é um método mais lento de trabalho. 

Em contrapartida, existe a facilidade de escrever e publicar pequenas contribuições apenas na internet. Seguindo o exemplo bélico, é como disparar rajadas a esmo na direção do alvo. Grandes chances de acertos, mas, devido a pressa, o desperdício de projéteis é enorme. 

Humanos primitivos já sentiam a necessidade de deixar suas marcas. Emitir opiniões é uma das tantas formas de interatividade.
Dedo no gatilho e na ferida. A interatividade e os novos meios que a possibilitam ainda revolucionam. É uma translação revolucionária. Revolução que atingiu e atinge diversas áreas do conhecimento e da criação artística. Movimentos incessantes que nos jogam num eterno futuro. Mas, embora seja constante, essa revolução se dá muito mais através dos meios que transportam a mensagem do que pela própria inovação da mensagem. 

A interatividade existe desde a criação dos primeiros jornais, era a semente da seção que hoje chamam de carta do leitor. A falsa impressão de que, no passado, os exercícios interativos dos leitores eram mais profundos e produtivos, se dava pelo fato de que havia um maior espaço de tempo entre o que o autor escrevia e as possíveis manifestações do público.

Preservar os antigos modos e conciliá-los com aquilo que há de melhor nos meios de produção textual e a leitura da era da interatividade instantânea.
Hoje, algo é publicado e, alguns segundos depois, são encontradas opiniões sobre o texto, sobre o autor, sobre o assunto. Compartilhamentos. Curtidas. Vídeos falando sobre determinado texto ou livro. Velocidade que por vezes atrapalha o senso crítico do então leitor-autor.

As mensagens, as opiniões que transbordam nos comentários pós-texto, assemelham-se a uma velha piada sem graça, atualmente, viajando na velocidade da luz, montada na fibra óptica, rejuvenescida por um efeito 3D. 

Resta-nos, conciliar as qualidades dos dois modos de leitura e produção textual. Os tiros certeiros dos autores convencionais, junto com as rajadas dos leitores-autores da internet. 

Vida longa à interatividade instantânea, embora ela seja o mais do mesmo, é inevitável e necessária. Com calma e sensatez, comentem!  



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