No outono subo a montanha


Os raios do sol incidem por igual nos hemisférios norte e sul. É o equinócio de outono. A estação começou oficialmente hoje, às 13h57min. O outono marca a transição até o temível inverno. É como se fosse meu caminho até o topo da montanha. Até o meu retiro. Caminho coberto por folhas amareladas que lembram a hora de hibernar. Nesse momento, me sinto um urso acumulando calorias para enfrentar os dias frios. Indo cabisbaixo, arrastando a bunda, até uma caverna segura para dormir o sono que é quase um estado de coma.

Em coma, até meados de setembro, produzo pouco. Escrevo pouco. Sinto ainda mais as dores de um poeta reumático. É osso. A preguiça se faz mais presente. Uma nostálgica melancolia me abraça. - Desconheço a melancolia que não seja nostálgica.

Ouço pessoas reclamando do inevitável inverno que aponta. Vejo gente estocando lenha. As lojas liquidando as últimas roupas de verão. Nos supermercados, as prateleiras onde ficam as bebidas são abastecidas com vinho. - Pelo menos uma coisa boa.

Cada vez mais as pessoas parecem formigas nas calçadas. Apressadas e carregadas de sacolas. Carregam para suas tocas, tudo que julgam amenizar o período gélido e pálido do ano. Vejo também, para meu desprazer, a partir do outono, as mulheres guardando os shortinhos e escondendo as pernas. Vejo jaquetas escondendo os bustos. Vejo botas tapando lindos tornozelos. Guarda-chuvas invadem as ruas e fazem dueto com a neblina. Tapam minha visão e fico órfão de belos sorrisos.

Os dias ficam tão tediosos quanto o programa da Fátima Bernardes. As noites vão ficando cada vez mais longas. E ainda tem as temperaturas abaixo dos quinze graus que, para mim, são brochantes. Fazem com que meu bom humor e algumas partes do corpo encolham drasticamente. Encolhido, me curvo por causa do vento e cravo o queixo no peito. Nesse outono as temperaturas abaixo dos quinze graus serão constantes, dizem as previsões. Sofro por antecipação. Já estou tremendo bem antes do frio intenso. 

O inverno me viu nascer e mesmo assim não nos topamos. Quando o outono anuncia que ele virá, penso logo no calor do Rio de Janeiro. Nas praias do nordeste. No sol da Califórnia. No vento norte e quente que sopra lá na minha querida fronteira com a Argentina. Lá na fronteira, dizem que o inverno é para gaúcho macho. Nessa hora eu saio do armário carregado de casacos. 

Especialistas em moda, dizem que a tendência do outono será as estampas que lembram animais. Volto a pensar como um urso. Porém, não tenho aquela enorme capa de gordura e a proteção dos pelos para enfrentar cinco frentes frias, no mínimo, que também estão previstas para a estação que começou hoje. 

Pouco adianta reclamar. Resta-me comprar um par de botas. Meias de lã. Achar um bom aquecedor elétrico e conquistar uma namorada. Talvez eu até inverta essa ordem, já que com as estações do ano, não tenho escolha.



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