Biohacking


Para discutir um assunto polêmico como o biohacking, tive a ideia de escrever uma introdução puramente imaginativa, com a intenção de adentrar um pouco na mente de cientistas amadores e pesquisadores de garagem que estão revolucionando a relação do homem com a natureza. Mesmo um tanto quanto excêntrico, “Cromossomos de besouro” tem o objetivo apenas de introduzir um assunto quase inesgotável. Pouco conhecido no Brasil, o biohacking ainda vai dar muito o que falar, então o leitor pode sentir-se a vontade para comentar no final! 

Cromossomos de besouro

Hoje acordei com um besouro meditador incrustrado em minha parede. Meu HD é SempToshiba e eu continuo a olhar aquela criatura, imóvel. Nenhum membro, nenhuma antena se movia, nenhum um sinal de vida naquele corpo ali parado. Eu observei o animal por cinco dias e quatro noites, mas ele continua lá, sem se mover. Penso que coisas passam por sua mente. Imagino que experiências ficaram registradas naquele minúsculo cérebro. Ele continua lá. Imóvel. Paralisado. Aparentemente triste. Será que ele está triste? Será que existe algum sentimento no íntimo daquele ser? Um besouro meditador, era o que ele parecia. Não sei mais o que fazer. Talvez seja apenas um cadáver, ali enrijecido. Duro como a morte. “Libertários não morrem” – foi o que pensei.

Aquele pequenino ser, ali parado, com minúsculas garras firmemente presas nas microfissuras da parede azulada, me passava a impressão de que poderia permanecer ali por mais vinte ou trinta anos. Até se deteriorar tanto que a própria gravidade faria o serviço de removê-lo neste período. Quis retirar aquele animal dali piedosamente. Quis entende-lo e descobrir a razão que o levou a estacionar em minha parede, quando estava bem perto da morte. - “Será que ele está morto?” – me perguntava. Não consegui me compadecer pelo drama que o havia envolvido, mas particularmente interessei-me pela história que aquele animal carregava em seu exoesqueleto marrom-esverdeado. De onde teria vindo? Que espécie de moléculas, ou resquícios delas, carregava em sua carapaça fina? Que histórias de vida se poderia encontrar nos resíduos de poeira, pólen e todo o tipo de matéria na borda inferior de suas asas? Eu sentia o cheiro de Carbono no corpo daquela criatura. Meus implantes nunca me enganavam. Mesmo a um metro e meio dela. Meus braços doíam um pouco, minhas pernas também. Meu laboratório estava abandonado. Minhas anotações já tinham sido espalhadas pelo vento por quase todo o chão da garagem. Meu computador estava pedindo água. Eu precisava desliga-lo.

Arredei para o lado o suporte de rodinhas que improvisei para minha lente de aumento. Pus as duas mãos na cabeça e cocei. Meu viveiro de moscas fluorescentes já não tinha mais nenhum brilho. Esqueci de fechar a janela da porta e também a claraboia. Minhas lesmas médicas tentavam se esconder embaixo de uma pedra de arenito que, por sorte, pus no canto esquerdo do “sacrário”, que construí para elas. Por que me tornei tão relapso? Como me despi de minhas preocupações mais rotineiras? Estou trabalhando há mais de seis meses nas moscas africanas e, agora que consigo fazê-las brilharem por alguns minutos, acabo conhecendo esse besouro misterioso! Meu laboratório precisa de mim. EU preciso de mim! O que o professor Jaques faria em meu lugar? - “Pense, pense!” - Meu microscópio é Zeiss.

Dois anos para produzir Stomoxys calcitrans geneticamente modificadas. Elas têm só doze cromossomos, mas mexer no código fonte é realmente complicado. Não saio mais da minha garagem. Quase nem como. Mas não quero mesmo comer. Primeiro vou terminar com elas. Hackear organismos vivos, só por diversão, tem sido um passatempo e tanto. Não imaginei que mergulharia tão fundo em minhas pesquisas. Eu só queria que meus ratos tivessem olhos azuis! – “É muito pedir isso?” - Fiquei meses sequenciando o genoma deles. Até que descobri onde devia mexer. Tudo graças a entusiastas, como eu, da biologia faça-você-mesmo. Depois de 36 tentativas, agora Alfred e Ziguifrid tem olhinhos azuis que saltam quando alguém os espreme entre as mãos. Infelizmente a mãe deles, Donna, morreu em seguida. Sorte que foram adotados por Debbie, uma adorável ratinha do viveiro 5 que passava o dia amantando e correndo atrás da prole de olhinhos azulados. Quatro deles foram para Cambridge, na Inglaterra, mas Alfred e Ziguifrid estão comigo até hoje.


Depois deles descobri as Escherias Coli. Misturar os genes de diversos organismos vivos com os delas pode trazer resultados muito mais excitantes do que apenas sintetizar hidrocarbonetos. Tive que desistir de minha pesquisa por que o FBI invadiu minha casa, confiscando meus discos rígidos, minhas anotações e levando as Escherias todas com eles. Brutos. Não tiveram o menor cuidado. Acabaram com minhas pesquisas e ainda maltrataram minhas bactérias. Anos de trabalho na mão daqueles maníacos. Mas não perdi nada. Está tudo registrado em minhas memórias. - “Um dia eles me pagam!” - Se não tivesse conseguido fugir para o Rio de Janeiro com um passaporte falso e algumas ameaças, talvez tivessem me enfiado em algum laboratório subterrâneo no Arkansas para que produzisse armas biológicas. Jamais faria algo assim. Não me pegariam vivo.

Vou ter que tomar uma atitude rapidamente. Não gostei da cor que minhas lesmas adquirem quando entram em contato com o Sol. Era para ficarem rosas, não vermelhas-sangue. Minhas lesmas médicas são o futuro. Minhas moscas africanas conseguiram escapar por uma fresca minúscula. Por sorte seus ciclos de vida são curtos devido as modificações genéticas. Com sorte vão morrer antes de picar alguém. Por sorte não serão capazes de se reproduzirem fora do laboratório, por que criei apenas espécimes fêmeas. Não quero mais ouvir falar das Escherias. Vou desistir das Stomoxys também. Tudo por causa desse magnifico besouro... - “Sim, ele deve estar meditando. Se não está meditando está morto!” - Estou obcecado por essa criatura! O desenho do seu exoesqueleto me fascina... Estou curioso para descobrir que histórias existem em seus élitros embaixo do estojo de quitina. Não aguento mais, preciso removê-lo da parede. Meu microscópio está pronto para ele. Eu me rendo, não aguento mais esperar que ele se mova. Melhor mesmo que esteja morto. Imagino que segredos descobrirei em suas células. Em seu genoma. Em seus cromossomos. Confesso que fico um pouco assustado com as consequências de minhas pesquisas. – “Tudo bem, não vou desistir agora.” -  Estou excitado demais com a ideia de tirá-lo dali. - “Como será que ele vai reagir?” - Vou pousar sua carcaça sobre a bancada. Depois retirar uma amostra de seu corpo enrijecido. Talvez do exoesqueleto. E depositar na placa de Petri. – “Sempre sinto um frio na barriga quando começo tudo de novo!” – Mas quando pus aquele pequenino corpo sobre a bancada não imaginei o que estaria por vir. Aquele simples inseto começara a mudar a minha vida...


O conto de biohacking “Cromossomos de besouro” é apenas uma tentativa de mergulhar na mente dos adeptos dessa estranha e, ao mesmo tempo, fascinante prática que surgiu recentemente. Nascido do movimento “Biopunk”, grupo de pessoas que produzem biologia sintética baseados nos conceitos da biologia “do-it-your-self”, ou “faça você mesmo”, o biohacking pode parecer enredo de filme de ficção cientifica, mas está acontecendo agora mesmo em garagens, laboratórios improvisados e sendo feito por empresas que buscam possíveis aplicações comerciais para as novas descobertas. Trata-se de hackear organismos vivos. É exatamente isso. Hackear e depois modificar suas funcionalidades. A maioria dos ativistas do biohacking identificam-se com o tecnoprogressivismo, o transhumanismo e o movimento biopunk. As possibilidades do biohacking são vastas. Vão desde especialistas, engenheiros e técnicos que projetam e instalam no próprio corpo dispositivos tecnológicos com diversas finalidades, como os implantes de ímãs de neodímio nas pontas dos dedos de Tim Cannon, que tem por objetivo ganhar a habilidade de sentir campos magnéticos, até biólogos e cientistas que produzem sequenciamento genético nos quintais de suas casas. 
Nomes como Tuur Van Balen, amante da biologia faça-você-mesmo que manipulou lactobacilos em um iogurte para que produzissem Prozac, tornam mais fáceis de visualizar o horizonte de possibilidades que virão pela frente, em um futuro próximo, quando o assunto é biohacking. Além de modificar as funcionalidades dos lactobacilos, ele gravou um vídeo demostrando passo-a-passo a realização do experimento para deixar claro que qualquer um pode fazer isso com relativa facilidade. Imagine, você pode produzir em casa o seu próprio iogurte antidepressivo. Outro ativista que expande as fronteiras da prática é Tim Cannon, que além dos ímãs de neodímio, implantou no antebraço direito um chip do tamanho de uma carteira de cigarros, capaz de parear com Android e informar dados corporais por bluetooth. 


Quem também está fazendo pender a balança da popularidade do biohacking é Ellen Jorgensen e seus colegas do laboratório sem fins lucrativos Genspace, no Brooklyn, em Nova York, que levam a biotecnologia até as pessoas comuns. O Genspace disponibiliza uma série de usos práticos, divertidos e até aplicações artísticas e inusitadas da biotecnologia amadora. Mas existem laboratórios assim em vários países como o Ars Electronica, em Linz, na Austria, o Hackerspace, em Singapura, o Labitat na Dinamarca, o Lapaillasse, na França e vários outros em países como a Holanda e também na Indonésia e Reino Unido. No Brasil, o biohacking foi tema estreante na edição brasileira da Campus Party de 2012, tendo ainda pouca expressividade, mas trazendo, entre outras informações, a ideia do projeto Cão Mulato, desenvolvido há mais de dez anos pelo zootecnista e mestre em linguagens visuais Edson Barrus, que pretende criar uma raça mestiça de cachorro para levantar a discussão sobre a manipulação genética.


O biohacking é um tema vasto e polêmico. A cada dia surgem novas ideias, experimentos e iniciativas, mas ao mesmo tempo em que o entusiasmo cresce a ameaça aumenta, pois o risco do bioterrorismo é bastante real. Ok, ele já existia muito antes do biohacking se tornar comum! Para quem se interessar pelo tema seguem algumas dicas de links úteis no final do texto. Bactérias transgênicas, insetos modificados geneticamente, implantes de ímãs de neodímio nas pontas dos dedos, borboletas com padrões de asas modificadas artisticamente, criando desenhos e cores que não existem na natureza, dispositivos eletrônicos acoplados em corpos, transhumanismo e pós-humanidade... O que vem a seguir? Participe desse debate!

Dicas de links
http://vimeo.com/57536108
http://www.ted.com/talks/ellen_jorgensen_biohacking_you_can_do_it_too?language=pt-br#t-24961
https://www.youtube.com/watch?v=GcaCP0xDXFA#t=160



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