Para não repetir 1964


Exatamente cinquenta anos atrás, no dia 1º de Abril de 1964, começava o regime militar. Mesmo com esse nome, não foi só militar. O golpe contou com o apoio externo, - do governo norte-americano, apoio de parte da sociedade civil, e também apoio midiático. 

Muita coisa permanece sem esclarecimento, inclusive a data do seu início, que ainda gera controvérsia. Alguns falam em 31 de Março de 1964. Outros citam o dia 2 de Abril de 1964 como sendo o marco inicial do regime.

Datar o seu início talvez seja mais fácil do que citar os inúmeros personagens que compõem o golpe. Houve uma movimentação militar crescente. Meses de articulações nos bastidores militares e políticos.

Inteligência. Desinteligência. Espionagem e contra-espionagem. O golpe não foi um movimento seco, mas sim algo orquestrado, calculado. O argumento principal dos apoiadores do regime era, e ainda é, o de que seria implantado no Brasil um governo de extrema esquerda nos moldes de Cuba. 

Mudanças sociais, políticas e econômicas ocorreriam de maneira profunda. Não se sabe se seriam boas ou más para o país, pois o golpe deixou as tais mudanças somente pairando no ar. 


Esse momento da história brasileira, que durou vinte e um anos, foi, e ainda será, por muito tempo, relembrado e escrito de várias formas. As versões das pessoas que vivenciaram o golpe contribuem com a memória coletiva dos fatos ocorridos. Mas versões solapam outras versões. Equívocos tornam-se verídicos. Verdades caem no esquecimento. Há quem defenda o regime com unhas e dentes. O mesmo ocorre com os contrários a ele. Houve e há extremismos dos dois lados, inegável. Há quem no meio do jogo tenha mudado de time. Trocado de ideologia. Traído o partido. Delatado um companheiro de resistência. 

Penso que não há santos nem demônios, apenas seres humanos que agiram em prol daquilo que acreditavam, ou ainda acreditam ser o certo. Quantos jovens idealistas morreram para defender o regime militar? Quantos jovens idealistas morreram para assegurar a queda da ditadura? Quantos pais de família nunca mais voltaram para casa? Quantos tiveram que fugir para outros países, - exilar-se, para preservar a própria vida? 


O fato é que o regime imposto detinha o poder. Possuía material humano e bélico para mantê-lo. Possuía apoio chave de setores sociais que garantiam o avanço da marcha que esmagava direitos dos cidadãos. O governo militar contra células de resistência tornava ainda mais visível a disparidade das forças. Com o passar do tempo, a guerrilha, como forma de organização da resistência, tornava-se necessária. 

Saldo da disparidade de poderes. Um presidente deposto, - João Goulart. Torturas como forma de obter informações. Perseguições à resistência. Assaltos a bancos. Sequestros. Luta armada. Invasão de tropas do governo às universidades.  Mães amamentando que recebiam injeções para cessar o período lactante, para o fato de estarem amamentando não ser um peso na consciência de seus torturadores. Bebês torturados e mortos em frente aos seus pais, para que eles dessem informações sobre os aparelhos, como eram chamadas as células de resistência ao regime. Funcionários públicos mortos, - pela resistência, por defenderem a ditadura para manter seus cargos. Crescimento econômico à custa da dívida externa que só crescia. 

Fatos e mais fatos que surgem em meio ao turbilhão de lembranças que ainda não cicatrizaram na história recente do país. Fatos que são a matéria-prima para livros, filmes, documentários, músicas, séries e reportagens na TV e na internet. Exatamente hoje, em muitos meios de comunicação, o marco dos cinquenta anos do golpe de 1964, ganha destaque. 

É de extrema importância conhecer e comparar as várias facetas do regime militar. A ditadura foi uma parte nesse período, que ganhou força com o tão falado e rígido AI-5. O ato institucional nº 5, foi o principal mecanismo institucional e autoritário acionado para tomar o controle geral do país. Veio para oficializar atrocidades que vinham sendo feitas de forma mais velada logo que o golpe foi declarado. Atrocidades que mataram a democracia brasileira e de arrasto, levaram a liberdade de expressão do povo. Quem se manifestasse contrário ao regime, era considerado agente subversivo, e era conduzido para averiguações até o Destacamento de Operações de Informações do Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-CODI), o nome do “destacamento” era tão confuso quanto a definição de quem era subversivo ou não.

Havia o toque de recolher taxado de, “para sua segurança, permaneça em casa após determinado horário”. Havia a censura prévia de jornais, revistas, estações de rádio. As torturas, a censura, o toque de recolher, não eram restritos aos grandes centros como São Paulo ou Rio de Janeiro, ocorria também no interior do país. 

Ouvi relatos pessoais de quem foi “conduzido”, por agentes do departamento de ordem política e social (DOPS), à quartéis ou delegacias da época, para prestar esclarecimentos sobre determinada conduta. Até mesmo este texto, se fosse publicado no período do regime, teria provocado a minha condução à prestar esclarecimentos. Quem sabe eu permanecesse alguns meses em uma cela, para aprender a não ir contra os ideais nacionalistas vigentes. - A repressão e a censura espalharam-se Brasil afora feito rastilho de pólvora. Muitos sumiram sem deixar rastros.


Cabe a quem, como eu, não vivenciou o momento histórico, buscar meios de entender o que ocorreu a partir de 1º de abril de 1964. Conhecer os mais variados relatos, tanto dos apoiadores do regime militar quanto dos que eram contra ele. É importante inteirar-se sobre o quanto àqueles acontecimentos marcaram e ainda marcam o Brasil. 

Além disso, após ter uma noção dos fatos, ao menos que superficial, é preciso posicionar-se. Minha posição, minha conduta, é colocar todos os gatos, os ratos e os abutres no mesmo saco. Regime militar. Ditadura. Golpe militar. Dops. Doi-Codi. Governo que deixou de usar o cérebro e passou a pensar com os coturnos. Morte da democracia. Interrogatórios. Torturas. Corpos enterrados em valas comuns. Há quem ainda chame tudo isso de “ditabranda”. A verdade, para estes, dói ainda mais.

- Segue abaixo uma junção de frases que poderiam resumir tudo o que eu escrevi e, de quebra, mostram o que vem à minha cabeça quando leio a palavra ditadura.



Para não repetir 1964

Abraça a causa
Ou faça
As malas
Alguém gritou em 64
Abraça a causa
Ou vai para a vala
Alguém gritou em 64
Abraça a bandeira
Ou vai para o pau de arara
Alguém gritou em 64
Siga as ordens
Ou levará choque
Alguém gritou em 64
Não incite o povo
Ou vai ter a corda no pescoço
Alguém gritou em 64
Apoie o regime
Ou será perseguido
Alguém gritou em 64
Obedeça a censura
Ou vai sumir da rua
Alguém gritou em 64
Nos muros
Nas faixas
ABAIXO A DITADURA
Para não repetir 64 



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