Série Despertar: O medo de


Há uma apressada tentação em traçar uma linha imaginária e colocar lado a lado as palavras medo e despertar. Alinhar seus significados justamente para tentar entender como agem sobre nós. Com a mesma força que surge a tentação, surgem as dúvidas. Em que ordem tais palavras devem ser colocadas? O sentimento de medo antecede o ato subjetivo de despertar? A vontade de alinhá-las seria algo ordinário e errôneo? Algo como atribuir peso igual a moedas de tamanho e material diferentes?

Em uma primeira análise rápida e desinteressada, as duas palavras, bem como o que representam, parecem misturar-se em um emaranhado impossível de ser alinhado. Cortes no raciocínio e na própria carne serão necessários.

Em algum ponto remoto da existência humana na Terra, muito antes de surgirem representações simbólicas dos nossos pensamentos – palavras ou desenhos para expressá-los, o ser humano reagia a situações que colocavam em risco a sua vida ou que, aparentemente, sugeriam isso. Mesmo primitivo, aquele ser demonstrava traços daquilo que, com o passar do tempo, ganharia o nome de medo. Algo marcado em nosso DNA. 

Mesmo marcado em todos nós, não há como entrar no campo do medo coletivo, incutido em grande parte da sociedade moderna de maneira “mediática”, a intenção aqui é discutir o medo no campo subjetivo, tomando por base reflexões próprias.

Quando uma pessoa externa sua posição de que não tem medo de absolutamente nada, não estaria ela apresentando uma das formas mais básicas do medo? Pois, não estaria ela afirmando implicitamente que tem medo de sentir medo? Precisa ela, então, parecer alguém de coragem inabalável? Este medo em pequeno grau misturado com dúvida, travestido de afirmação, poderia atuar, talvez até erroneamente, como um escudo ao evitar que outras pessoas coloquem o rótulo de não corajoso no emissor daquela autoafirmação?

Ainda, quando alguém afirma não temer a morte, mas, emenda com outra afirmação, que tem medo da velhice, não estaria tal pessoa apenas declarando de uma forma velada seu medo de morrer? Tomando como ponto de partida que a chegada da velhice, o passar do tempo, aproxima dia após dia a pessoa da morte, fica evidente sua falha ao tentar enfraquecer o medo de morrer transformando-o em outro medo, o medo de ficar velho. Maquiando um dos medos, ela apenas troca seis por meia dúzia.

Se fosse possível, no final de nossa existência, contabilizar o tempo despendido somente imaginando os riscos que uma possível decisão acarretaria, seria este tempo a representação numérica, quantificada, do quanto desperdiçamos energia apenas tecendo receios? 

Receio, então, estaria numa espécie de primeiro fio condutor para outros possíveis sentimentos que se alinham com o medo. O receio, na maioria das vezes, é a fase mental em que a pessoa cogita a possibilidade que determinada situação, determinado ato ou omissão, possa gerar perigo para ela ou para outras pessoas. 

Quando vemos a imagem de alguém na beira de um edifício ou montanha, não sentimos uma espécie de receio ou medo que a pessoa caia? Inconscientemente, antecipamos o risco que aquela exposição ao perigo venha a trazer. 

Já o medo propriamente dito, algo com mais intensidade, repousa alguns fios acima do receio. Em um raciocínio lógico, mas aberto a todo tipo de equívoco, se nós continuarmos subindo o olhar para os fios condutores posicionados mais acima, a fobia, espécie de medo patológico, seria o último fio condutor de pensamentos e sensações que nos levam a uma condição dupla. Nela, apenas duas saídas parecem viáveis, permanecer estático ou retroceder diante do medo. 

Em grau máximo, a fobia paira sobre grande parte da razão do individuo. Quase que totalmente controlado por estranhas emoções, surge uma enorme leva de sensações e pensamentos que dominam corpo e mente. Ocorre a partir disso, a perturbação dos sentidos. O medo mórbido distorce a realidade. Não sobram fios onde possam pousar sentimentos que conduziriam o ser afetado a uma condição mais benéfica. O indivíduo está paralisado. Preso ao próprio medo. Tem, justamente nesse momento, a necessidade de esvaziar-se. De olhar sobre si e sobre aquilo que o aflige. Despertar é o marco zero pós-medo. É o vazio.


E se pudéssemos condensar em uma palavra todas as possíveis formas de despertar? Se fosse possível reduzir todos os filmes, livros, músicas, pesquisas científicas e conselhos sobre como enfrentar os próprios medos, que palavra restaria?  Reflexão pode ser a palavra restante. 

No exato momento em que alguém desperta para os próprios medos, encara-os, sejam eles meros receios ou enormes fobias, na hora que aprende a lidar com seus sentimentos e suas sensações decorrentes, ocorre o esvaziamento. Nesse esvaziamento, os possíveis fios condutores que levariam aos vários graus do medo, subitamente desaparecem. Nada mais está pairando sobre os sentidos e há uma comunicação mais confiável entre mente e corpo. 

É importante ressaltar que o esvaziamento não pode ser confundido, embora exista alguma semelhança, com o estado profundo de meditação, esta, é um grau elevadíssimo e talvez poucos consigam alcança-la. Esvaziar-se, seria a meditação em momentos diários, uma forma corriqueira de meditação. É o parar e pensar por alguns segundos. Técnica usada por atletas de vários esportes em momentos que necessitam de máxima concentração. É nessa cobrança, justamente por essa exigência, que surgem os medos.  

Um maratonista, por exemplo, que lidera a prova e no quilômetro final, sobre a pressão do cansaço e dos outros adversários, começa a se perguntar se realmente terminará a corrida em primeiro. Afastar esse tipo de auto pergunta e não ceder ao medo da derrota, nesse exemplo específico, é justamente o despertar para o vazio. O medo da derrota, a reflexão sobre esse medo e o despertar, isso tudo, em uma fração de segundos, por vezes até inconscientemente, o levarão até a vitória.

Outro exemplo que pode ser encaixado, com ressalvas, no ato individual de despertar, seria quando necessitamos criar uma barreira contra nosso nervosismo. Digamos que você tenha estudado meses para um concorridíssimo concurso, então, chega o dia da tão esperada prova objetiva. Na sala lotada onde vai ser aplicada a prova, momentos antes de ser distribuída, você sente a auto cobrança. Afinal, é o cargo dos seus sonhos e, como todos os outros candidatos, um entre tantos motivos de todos estarem tão nervosos, está o fato de que vocês dedicaram meses de suas vidas para essa prova. Logo, não interessa a questão se o candidato da mesa ao lado está mais preparado que você ou não, mas sim, o fator de refletir sobre o momento e tomar o controle de si. Controlar-se, automaticamente o coloca na frente de outros candidatos dominados pelo nervosismo. 

Você estudou e sabe disso, agora, tem que despertar para o fato que é só mais uma prova. E outras provas virão. O fim do mundo não é um caderno de questões múltipla escolha. Sem encorajar ninguém a fazer isso, mas, se você não tivesse estudado sequer um dia para essa mesma prova, será que a pressão em obter êxito no concurso seria a mesma?

Se você está perdido na selva e conta apenas com um canivete para sua sobrevivência, você vai fazer de tudo para garanti-la ou vai ficar sentado se lamentando por ter apenas este pequeno utensílio?

Depois que atingimos certa idade, nossos atos de despertar vão ficando cada vez mais raros. Não só pelo condicionamento natural que a sociedade nos impõe, mas também, por nossa própria culpa, passamos a repetir paradigmas negativos que se intercalam freneticamente imitindo um som que podemos batizar de rotina. Esse som rotineiro embala o sonambulismo da maioria de nós. Despertar do sono-andante, então, seria emitir outro tipo de ruído? Que tipo de ruído ouviríamos ao quebrar nossas próprias rotinas? 

Uma das mais belas fases da infância, para o terror da maioria dos pais, é aquela que a criança sente a necessidade de ver o que há dentro de seus brinquedos. Parece que, atingida pela rotina de apenas brincar, movida por um impulso natural, ela desperta e “quebra” a rotina dos brinquedos, não mais brinca com eles, mas sim, desmonta-os. É esse impulso natural, é essa curiosidade positiva, que deveríamos manter, como essência, pelo resto de nossas vidas. Manter a essência positiva da curiosidade pelo resto da vida, consequentemente, nos joga em inúmeras possibilidades. Outros horizontes são estendidos a nossa frente. Novas possibilidades trazem mais dificuldades. Porém, surgem os fatores relacionados a tudo que é desconhecido. Ressurgem, novamente, os receios, os medos e as fobias. Temos que enfrentar este ciclo.

Despertar seria aceitar os ciclos e as instabilidades da vida? Seria buscar o âmago verdadeiro daquilo que atrai nosso interesse? Creio, momentaneamente, que o ato de despertar é sustentado por dois pilares, como um pórtico de entrada. O primeiro pilar seria o autoconhecimento, devemos buscá-lo, mesmo que o autoconhecimento tenha o impagável preço de ser uma tarefa perpétua. O segundo pilar de sustentação do pórtico, é o conhecimento da sociedade que nos cerca e como esta é apresentada aos nossos sentidos. Treinar a percepção e evitar os curtos-circuitos embutidos em nós mesmos e no nosso modo de viver. Acordar, sem medo, a criança adormecida dentro de nós, para que ela volte a “desmontar brinquedos”.

Despertar, embora haja dúvida, é lutar contra uma força tão poderosa quanto a própria vida (seria a força da autopreservação?) que tende a nos manter na zona de conforto. Em última análise, podemos chamar tal força de “o medo de despertar?”

Ao receber a proposta de escrever este texto, com tema pré-definido, aceitei na hora. Porém, dias depois, fiquei adormecido pelo medo de escrever. Existem inúmeras possibilidades de abordar o tema, variadas eram as ideias-semente, mas nenhuma vingava. Apavorado, cheguei a cogitar a possibilidade de recusar o pedido. Com uma pequena tortura interna despertei. O medo ainda existe, mas voou para outro lugar.


Cada um de nós é como um homem que vê as coisas em um sonho e acredita conhece-las perfeitamente, e então desperta para descobrir que não sabe de nada. (Platão)


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