Série Despertar: Regidos pelo medo


Quase todos os dias, inevitavelmente, nos deparamos com os mais diversos tipos de imprevistos. Simples e complexos. Acordamos pela manhã sem saber o que nos espera. O que projetamos pode ou não acontecer. Medimos as incertezas pela velocidade das batidas do coração. Temos que tomar decisões. Somos levados pelo tempo e não podemos recomeçar do zero, mas podemos ir ajustando as velas durante a jornada. Por outro lado, precisamos também pisar em terra firme. 

Recentemente, tomei a decisão de me mudar para outra cidade, em outro estado. Minutos após a decisão, fui levado por uma onda, ou melhor, um tsunami de emoções. Contudo, já estava decidido e eu tinha que lidar com aquilo, tratando de dissipar a insegurança. Analisando o meu passado, percebi que parte do meu receio era devido a uma antiga mudança mal sucedida de cidade. Na época, então com vinte e poucos anos, recebi uma boa oferta de trabalho e não pensei duas vezes. Pensei uma vez só e mal pensado! Agora, eu tinha a consciência de que o contexto era muito mais favorável do que na ocasião anterior por diversos fatores, no entanto, ainda existia aquele frio na barriga. Na verdade, o que me faltava era entender melhor como age esse monstro invisível chamado MEDO.


Tenho medo de gente e de solidão
Tenho medo da vida e medo de morrer
Tenho medo de ficar e medo de escapulir
Medo que dá medo do medo que dá

Tenho medo de acender e medo de apagar
Tenho medo de esperar e medo de partir
Tenho medo de correr e medo de cair
Medo que dá medo do medo que dá

O medo é uma linha que separa o mundo
O medo é uma casa aonde ninguém vai
O medo é como um laço que se aperta em nós
O medo é uma força que não me deixa andar

Miedo - Pedro Guerra/Lenine

Em primeiro lugar, vamos aos aspectos biológicos. O medo, o estresse e a ansiedade ajudaram o homem primitivo a evitar o perigo. Analisar os riscos. Foram ferramentas evolutivamente importantes que auxiliaram no controle dos impulsos. Elas desencadeiam uma série de reações químicas no corpo que aumentam a eficiência do organismo, deixando-o pronto para a peleia, em caso de necessidade. Doses de endorfina, dopamina e adrenalina são lançadas para a corrente sanguínea e nós vamos progressivamente sentindo as alterações. Em algumas espécies, elas são inatas, vem desde o nascimento. Basta sentir o odor de um gato para que o rato se sinta em perigo, mesmo nunca tendo visto um felino antes. 

E qual será o papel do ego nas nossas construções mentais? O filósofo budista Han de Wit diz que o ego “é uma reação afetiva ao nosso campo de experiência, um movimento mental de recuo baseado no medo”. Criamos uma bolha (ego) e nos escondemos nela por medo do novo, dos outros, por receio de sofrer e assim por diante. É difícil se desapegar por completo dessa falsa noção de “eu”, mas o simples fato de se ter conhecimento do seu mecanismo já nos possibilita um enorme progresso.

Descobri também que o medo pode ser aprendido. Sim, pode. Já havia se dado conta? Pode ser aprendido por condicionamento, surgido de uma experiência ruim, por exemplo, que não queremos reviver. Exatamente o que estava acontecendo comigo. Então, procurei colocar tudo no papel para ter mais clareza. Separei um contexto do outro e analisei os detalhes sem pressa. Ao final do processo, superada a minha insegurança, comecei a me questionar sobre como o medo pode agir numa esfera maior. Eu havia acabado de lidar com um medo intrinsecamente meu, mas não pude fugir de uma monumental questão:

O medo pode ser plantado em nós intencionalmente? 

Partindo do pressuposto de que o medo condiciona, controlando a vida em maior ou menor grau dependendo do nosso nível de consciência, não é de se espantar que alguém queira utilizar essa brecha visando moldar uma pessoa ou grupo para as mais sórdidas finalidades. É o medo potencializado pela ignorância. Mesmo se o medo for apenas uma ansiedade generalizada, sem um porque aparente, o indivíduo vai ter o forte desejo de se livrar dessa “coisa” indefinida. Sem clareza, corre-se o risco de agir de maneira equivocada. 

O medo torna o indivíduo vulnerável. A História já nos mostrou inúmeras vezes as consequências catastróficas da exploração da vulnerabilidade por parte dos mais diversos aproveitadores. Desde Hitler (que encheu de promessas e iludiu o sofrido povo alemão pós-primeira guerra) até líderes de seitas religiosas como Jim Jones (que arquitetou o suicídio em massa de quase mil fiéis da sua igreja). 

Em determinados casos, essa desarmonia causada pelo medo pode afastar gradativamente a pessoa da realidade. Aos poucos, vamos percebendo o mundo através do olhar distorcido das nossas ilusões. Isso pode evoluir para uma fobia ou estado paranoico. Poderia me estender aqui citando também como exemplo a "cultura do medo", como é chamada por certos pensadores, que predomina há décadas nos Estados Unidos, mas isso é assunto para outro artigo. Vamos voltar para o núcleo.

Após ter estudado sobre o nascimento e disseminação do medo juntamente com seus derivados, acredito que a introspecção, ou seja, a observação dos nossos próprios processos mentais, tão em baixa atualmente devido ao aumento substancial de distrações de todos os tipos, ao que tudo indica, parece ser o antídoto a ser buscado para combater o medo. Digo combater, por tratar aqui daquele medo nocivo, que afeta o dia-a-dia do indivíduo.

O monge budista francês Matthieu Ricard argumenta que “o genuíno destemor surge com a confiança de que seremos capazes de reunir os recursos interiores necessários para lidar com qualquer situação que surja à nossa frente”. De modo abrangente, podemos fazer uma comparação com o que Morpheus diz para Neo em Matrix: “Não pense que é. Saiba que é”.



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