Os Brasis e a Copa do Mundo


Os quintais estão em festa. Os brasileiros, cada qual em seus Brasis, “comemoram”, de modos distintos, a realização da copa do mundo de futebol. E tem turma comemorando a própria contradição. Ficaram anos sonhando com a segunda copa no país – a primeira foi em 1950, e agora, que ela está prestes a começar, criticam, dizem que vão boicotar, manterão as televisões desligadas. – Vou torcer pela Argentina. Ouvi de um colega da graduação. 

Outra turma sai e continuará saindo às ruas até que a copa termine. Protestam contra os gastos públicos e os incentivos dados à iniciativa privada para construir e reformar os estádios. Essa turma tem suas subdivisões e alguma razão em protestar. Alguns levam cartazes. Outros bradam frases de ordem como; “Não vai ter Copa”. E ainda tem aqueles que prometem quebra-quebra, como se isso, nessa altura do campeonato, impedisse a realização do evento.

Os protestos, - não falo em quebra-quebra, deviam ter ocorrido, no mínimo, em 2006. Naquele ano começavam, efetivamente, os preparativos para a candidatura brasileira. De que adianta promover a baderna no entorno dos estádios como estão prometendo? Colocar fogo em pneus, apedrejar ônibus, danificar patrimônio público, fará retornar aos cofres públicos os 25,6 bilhões de reais já “investidos” em obras para a realização do evento? O tom ambíguo que dei a pergunta não é por acaso. Há razões para os protestos, mas, o momento oportuno, como falei, já passou. 

Seguindo a lista quase interminável de “comemorações”, há quem fique feliz com a possibilidade, - creio que remota, de que a copa dê totalmente errado. Que seja uma vergonha para o País inteiro e um fiasco internacional. Verdadeiro chute de canela. 

Importante citar que o interesse em ver o circo pegar fogo, não é mero espírito de porco. Existem interesses políticos no fiasco. Estamos em ano de eleição. O resultado da possível má organização do mundial, será usado como pano de fundo para futuras campanhas partidárias. Quem viver até 19 de Agosto, dia do início das campanhas políticas no rádio e na televisão, verá. 

Comemoração maior se vê daqueles que pintam os rostos com as cores da nossa bandeira. Colocam bandeirinhas nos carros. Nas sacadas. Pintam as ruas. Os turistas deliram com esse “calor comemorativo” que alguns brasileiros apresentam nesses dias de jogos. 

Bom seria se víssemos todo esse “calor comemorativo”, toda essa união em prol de um ideal, no momento de escolhermos quem vai governar o país nos próximos quatro anos. Lembrando que em 2016 os jogos olímpicos serão realizados no Brasil, Rio de Janeiro como cidade sede. Novamente os olhos e os interesses estrangeiros estarão presentes. Será que os gastos públicos com outro megaevento internacional serão, novamente, recordes? 

Para acabar com minha própria visão romântica sobre a democracia, recorro ao falecido, conservador e controverso político Inglês, Winston Churchill; "A democracia é a pior forma de governo imaginável, à exceção de todas as outras que foram experimentadas."

Por fim, há ainda quem comemore não a copa do mundo em si, mas sim, a movimentação do capital que ela proporciona. O espetáculo do futebol não é para o trabalhador assalariado, não vamos nos iludir. Mesmo que para realizar tal espetáculo, seja necessária a criação de vagas de empregos. Como será o equilíbrio da balança após a copa do mundo? Os Investimentos na copa serão equivalentes ao retorno para a administração pública e consequentemente aos cidadãos? 

Como um circo, a copa do mundo de futebol, orquestrada com mão de ferro pela FIFA, percorre o mundo exigindo dos países sede que se adequem às suas exigências. Isso inclui obras em vias públicas e desalojamento de moradores sem o devido processo legal, passando também por adequações em estabelecimentos comerciais, em grande parte estabelecimentos ligados ao setor de alimentação, atendendo aos contratos milionários da FIFA com os patrocinadores multinacionais. 

Evidente que melhorar setores sabidamente deficitários faz muito bem à população, mas, depois do mundial, essas exigências padrão FIFA, serão mantidas? O dinheiro investido na realização da “copa das copas” honrará o nome de investimento? Ouço a pergunta fazer ecos; Que legado a copa vai deixar para os próximos anos?


Então, nossa segunda copa do mundo vai ser marcada por inusitadas formas de comemorá-la? Talvez sim. Embora existam grandes oposições com relação à realização do evento no Brasil, cabe, agora, fazer tudo para que seja, ao menos, uma copa do mundo normal. Que os turistas sejam bem tratados. Que o transporte público apresente condições aceitáveis de uso. A segurança pública seja efetiva e o principal, algo que deveria ser rotina, que todos esses serviços públicos que citei, mais outros de suma importância, mantenham-se nas mesmas condições quando a copa terminar e os olhos estrangeiros voltarem-se para outro lugar do mundo. Afinal, melhorar o país somente para gringo ver, é coisa da turma que recebe a visita empurrando a sujeira para debaixo do tapete. E nos muitos “Brasis” que falei, nas inúmeras formas de “comemorar” a copa, temos grandes craques nessa modalidade.


Compartilhar: