Passa-tempo


Da primeira à última palavra. Vim para ser banal. Confirmar que na vida cabem comparações das mais variadas. 

Dou um tapinha nas costas. Aprovo as palavras daquele que afirma que a vida assemelha-se à subida de uma longa escada. Degrau por degrau. Há momentos sem corrimão. Prédio antigo sem elevador. Mas quem será que mora na cobertura? Quem conhece o zelador?

Sorrio para outros ainda mais poéticos. Os que dizem que este período entre o nascimento e a morte tem os mesmos elementos do curso de um grande rio. Momentos de fúria e correntezas. Pedras, curvas, lixo e remorsos acumulados na margem. Terra arrastada. Represa de anseios. Erosão de sentimentos. 

Logo em outros trechos do mesmo rio, temos água calma e parada. Céu refletido no espelho d’água. Pai pescando com o filho. Mãe esperando ansiosa. Pastor batizando o rebanho. Procissão de barcos. 

Sendo a vida um rio, ocorrem enchentes. A fé desce por água abaixo. Leva casas, carros e cães. Coisas que amamos. Peixes e esperanças, os dois escassos. Rede vazia. A fome é um bicho de sete cabeças contaminado por mercúrio. Moramos num grande aquário. Mário Quintana escreveu: Para os peixinhos do aquário, é Deus quem troca a água... Imagino o tamanho do balde.

Entre tantas comparações, confesso a minha total admiração, morro de amores, por quem fala que a vida é uma viagem. Que grandiosa banalidade. E eu, feliz, embarco nessa. Raso feito uma tampinha de garrafa, coloco um detalhe íntimo. A vida é uma grande viagem onde todos montam os próprios Quebra-Cabeças. 

Sem paradas. Passagem só de ida. O maquinista colocou no piloto automático. Vamos sacolejando até a estação final, entretidos entre uma peça que não se encaixa e outra que julgamos ser perfeita. 

Passamos por túneis. A escuridão nos faz perder peças ou quase perder a cabeça. As peças que surgem da caixa do jogo, misteriosamente refletem nossas atitudes. Cada uma é um pedaço de espelho. Se forçar o encaixe elas se quebram. As suas e as minhas digitais marcadas em todos os movimentos. 

Estrada de ferro cheia de curvas. Os trilhos têm a força do destino? Coloco a cabeça para fora da janela. O trem avança rápido. Solta fumaça a locomotiva. Ventania. Olho para trás. Nada além de vagões a perder de vista. Volto os olhos para o meu Quebra-Cabeça. Roubaram algumas peças. Mas quem, nesse trem lotado de gente? 

Soa estranha essa (des)graça de viagem. Essa finitude certa. Embora não saibamos qual é a distância até a estação final, conheço pessoas que não querem chegar lá com o Quebra-Cabeça montado. Já jogaram as peças pela janela e agora curtem a viagem. Outros, só pensam nas próprias peças. De tão dedicados à montagem, chegam às raias do egoísmo. Extremos e extremistas trocam olhares desconfiados no corredor do trem.

Uns em pé. Outros sentados. Ouço comentários que no vagão da frente alguém desistiu da viagem. No mesmo vagão uma grávida dá a luz. A criança chora. A balança mantém o equilíbrio. Como não dizer: Que viagem! 

E tome mais carvão na caldeira. Sigo montando minha vivência. Peça por peça. Dentro do vagão vinte e nove, sentado na poltrona nº três. Murmuro palavras no ritmo da jornada. O rápido e incontrolável movimento desse trem imita o relógio na parede. Passa-Tempo. Passa-Tempo. Passa-Tempo... Acordo um quilômetro mais velho. 



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