O verme-ponteiro


Reclamar sobre a passagem do tempo é perdê-lo. Dizer que não temos tempo para determinada tarefa é o mesmo que dizer, - isso não está entre minhas prioridades. Fazemos tudo para encontrar a fórmula de controlar o tempo. Penduramos na parede. Colocamos no pulso. Nas torres das igrejas. Nos nossos monitores de computador. Transformamos o desejo de vida eterna em creme antirrugas. Mesmo tratando o tempo como algo tão valioso, - e realmente é, ele, indiferente e faminto, nos devora. Somos um delicioso banquete. Mastigados segundo após segundo.


Ao passar, o tempo deixa marcas. Chame de rugas ou perdas. Mas essas marcas, embora pareçam na nossa própria carne, nada mais são do que as nossas referências que vão sumindo. O cantor preferido que faleceu. O parente conselheiro que, pelo avançar da idade, já não consegue encontrar-se nas próprias ideias. Algum sabor da infância que não encontramos mais. As coisas da vida vão rareando. Pagamos um alto preço ao avançarmos na nossa própria história.

- Tudo passa! Tenho vontade de encerrar por aqui a crônica.

- Não vamos perder tempo. Algo em mim quer pressa.

Fico tentado a cair na lógica simplista e enxertada do lema, “tempo é dinheiro”, ou “times is money”, como satirizava o herói atrapalhado Super Sam, do seriado mexicano Chapolim. 

- Alguém lembra? 

Aquele que não larga por nada o saco cheio de dinheiro. Parece uma crítica ácida à forma com que a maioria dos norte americanos lida com o tempo.

Contemporaneamente, devido a crescente globalização do capital e dos meios de produção, adquirimos um pouco da lógica do Super Sam.


- Tô correndo atrás da máquina.

- Sigo nadando contra a maré.

Cada um tem o seu lema preferido, qual é o seu?

De um lado, o passar do tempo leva nossas próprias referências de mundo. Do outro, talvez por sentirmos a história nos engolindo, o verme-ponteiro dando suas mordidas, nos iludimos achando que, ao correr, ganhamos tempo.


Se refletíssemos mais sobre a passagem do tempo, em como ela é uma sólida parede que nos empurra para frente, ficaria um pouco mais claro que qualquer ato contrário a essa realidade é um mero desperdício de força. Basta ver a sombra do sol que avança. A noite que vem de arrasto. A foto que aos poucos vai amarelando. A ferrugem na dobradiça da porta e o cupim na perna da cama. Rugas do cotidiano. Fatos corrosivos diários. Os detalhes não mentem. Mas a pressa impossibilita a apreciação. 

Se o passar do tempo fosse tão bom, veríamos um velho de cabelos brancos ostentando uma vistosa franja caindo sobre os olhos. Nada disso, o que vemos é uma enorme testa que cresce ano após ano conforme a idade avança e que o deixa com a mesma cara de joelho que tinha quando saiu do ventre materno. Isso, somado à sensação de não pertencimento à sociedade que o rodeia, deixa evidente o ciclo da vida. 

Nascer, crescer, reproduzir e morrer. Meu tom pessimista termina com a frase do cineasta sueco Ingmar Bergman: “Somos mortos insepultos, apodrecendo debaixo de um céu cruento e vazio”.

O tempo é um mistério. Um estranhamento chamado eternidade, que nós, seres finitos, tentamos de todas as formas controlar e decifrar. E na falta de respostas claras, permanece a afirmação. Reclamar sobre a passagem do tempo é perdê-lo. 


Todo esse meu blá blá blá é por um único motivo, justificar a minha falta de tempo para escrever aqui no site. 


- Tempo, que vermezinho implacável.




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