O churrasco da contradição


Gostaria de convidar meus amigos para uma festa peculiar. Sonho em celebrar as contradições entre goles de cerveja e um bom rock 'n' roll. "O churrasco da contradição". Seria uma festa anual! Nas edições seguintes poderíamos relembrar, dependendo da quantidade de cerveja ingerida, as nossas incoerências e estaria tudo bem. Acredito que iríamos dar boas risadas, tropeçar em justificativas por vezes engenhosas, mas instintivamente trocaríamos para outros assuntos banais - a banda do momento ou a tabela do campeonato de futebol. Seria uma forma ridícula, mas eficiente, de entender e não esquecer jamais que somos confusões ambulantes. 

Vamos avançar no tempo.

Na primeira edição da festa, o Jorge só comeu salada de batatas porque tinha se tornado vegetariano. Na segunda edição, faltou carne porque ele não era mais vegetariano e não avisou ninguém. Na terceira edição, ele já era novamente vegetariano e tinha parado de beber, mas também não avisou ninguém (sobrou carne e cerveja). Na quarta edição, não teve rock, apenas jazz chato porque o Marcelo estava empolgado com os filmes do Woody Allen e preparou uma "seleção" que durou seis horas - o pessoal tirava e ele dava o play novamente. A quinta festa quase foi cancelada, pois o Vagner colocou na cabeça que era budista e quis se isolar justo no dia da confraternização (a festa seria no apartamento dele). O churrasco, então, teve que ser transferido às pressas. Ninguém entendeu nada, ele também não entendeu ninguém, mas disse que meditou sobre o assunto. O sexto "Churrasco da Contradição" também foi marcado por desentendimentos. Primeiro, porque o Jorge resolveu encher a churrasqueira de cebolas espetadas com outros vegetais esquisitos. O espaço era pequeno e o carvão era escasso, assim como a paciência do Rodrigo. Virou uma guerra de cebolas contra galetos com direito a dedos e espetos em riste. Houve espaço também para discussões excêntricas envolvendo religião e direitos dos animais. E direitos dos humanos gaúchos, como citou o Rodrigo. No fim das contas, o Rodrigo comeu mais vegetais do que carne e isso foi visto com um sinal de reconciliação. A sétima edição do churrasco foi marcada pela nostalgia. Alguém (não se sabe ainda quem) pendurou uma lista na geladeira com supostas contradições do pessoal. Alguns riram e levaram na boa, enquanto outros tentaram desesperadamente se justificar, ocasionando, como sempre, um princípio de peleia. Na oitava edição do churrasco, não teve churrasco. Fazia um calor desgraçado naquele dia e a turma optou por beber, apenas. Lá pelas tantas, o Bruno apareceu rapidamente com o filho. Tinha saído para comprar sorvete e deu uma passada para beber uma cerveja escondido da mulher. "E saber que você dizia que jamais teria filhos", disse o Marcelo. Na nona edição, questões envolvendo saúde e aparência ganharam destaque. O Jorge, antes cabeludão, agora era careca, assim como o Vagner (que tinha deixado de ser cabeludo muito cedo em função da calvície). O Rodrigo, que antes tirava sarro dos gordos, agora estava terrivelmente gordo e com hérnias de disco: "quando o dia está carregado, tipo, pra chuva, eu me obrigo a andar meio torto como um zumbi". O Bruno, por sua vez, parecia melhor do que antes.

"A grande festa do ano no bairro: 10 anos do churrasco da contradição". Na festa de dez anos, a turma decidiu que seria oportuno expandir o evento e confraternizar com a vizinhança toda. A celebração da contradição iria se alastrar, contagiando o bairro e depois o país inteiro, certamente.

Não vamos avançar demais.

Nós, os transtornados, vamos do caos apocalíptico à plenitude quando percebemos que basta rolar a pedra sem cessar. Mas de vez em quando bate um tédio e a 3ª Guerra Mundial parece iminente. Até essa leitura se torna desgastante. É isso e é aquilo. Um pingue-pongue frenético ainda sem um vencedor.

Então, a vida passa a valer a pena por algumas horas, depois ela não vale mais nada e depois passa a valer a pena de novo. E o absurdo se torna claro e nítido. Um olhar derruba a melhor das teorias, um tremor de lábios arranha a verdade e atingimos o nirvana ao som de "In bloom".

É claro que existem os sujeitos mais rígidos - mais rígidos nas suas próprias concepções - que afirmam categoricamente:

- Transtorno bipolar! Não vem me dizer que isso é normal. Eu não mudo.

Contudo, eles também mudam, a gente sabe, mas finge não saber. Eu e você não somos palanques, muito menos androides de b-movies programados para fazer sempre a mesma coisa, do mesmo jeito e para uma mesma finalidade. Somos programados apenas para morrer. Justamente em virtude dessa dolorosa limitação de ordem natural, somos obrigados a mudar. E as mudanças, sejam elas intencionais ou lapidadas pelo acaso, por vezes, carregam contradições. 



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