O retorno


Voltei a produzir.

Por forças além de meu controle, entre elas, preguiça e as regras da ABNT para trabalhos científicos, fiquei algum tempo afastado de uma escrita mais consistente, porém livre, sem tantos formalismos.

Fui dominado ora pela escrita acadêmica e, com mais força, pela vontade de não fazer nada.

Reduzi-me a poemas esparsos.

Anotei frases num velho caderninho.

Imaginei pequenos trechos de cabeça.

Contrariei Domenico de Masi, meu ócio não foi criativo.

Reconheço que deixei de lado o ato de escrever por escrever.

Teias de aranha surgiram entre um neurônio e outro.

O método cartesiano, acadêmico, engessa.

Esqueci do prazer torturante que é ter uma ideia e puxá-la pelos cabelos. Acariciar a criatividade com murros.

Estava com saudade dessa batalha interna. Palavras brigando para ver qual vai sair primeiro.

Adjetivos pedantes.Verbos gritando na primeira pessoa do singular. Sinônimos se multiplicando, querendo dominar as frases. Bagunça generalizada no plano imaginário.

Algo precisa ser feito. E vai.

Pé na porta, voltei para pôr ordem nessa suruba. 

Observando os dois atos, comparo que, escrever, por vezes, assemelha-se a um fumante tentando acender um cigarro ao ar livre.

O vento atrapalha.

Vontade não basta, é preciso esforço. Jeito. Manha. Prática. O ângulo certo.

Um velho e experiente fumante, do alto de sua habilidade adquirida com os anos, acende seu cigarro até numa tempestade.

O inexperiente, encontra dificuldades em qualquer brisa.

Para acender uma ideia, sou um fumante inexperiente. 

A ideia surge mas, algo invisível, misterioso, apaga a chama da escrita.

Perco o fio condutor.

Giro a cadeira de um lado para o outro. Não tem canto confortável onde se enfiar.

Deu branco. Procuro a melhor tática para inflamar a inspiração.

Levo a mão no queixo. Mexo no cabelo. Suspiro.

O cotovelo apoiado na mesa e a mão segurando a cabeça que pende para o lado. Como se o pescoço não aguentasse o peso de tantas palavras pressas.

Com a mão esquerda pego uma borrachinha de dinheiro e faço um malabarismo desastrado com os dedos.

Coço a orelha. Destreinado. Apreensivo. Deixo de olhar para a tela do computador.

Imagino já o final do texto.

Olho para a janela. Percorro uma linha ascendente.

O parapeito. A calçada. A rua. Os postes de luz. Descanso o olhar no horizonte. Trago alguma coisa para a página. O cursor pisca pedindo mais. Terminaram os ingredientes.

Não roo unhas. Canalizo minha impaciência e meu nervosismo esfregando um dedo no outro. Arranco pequenos pedaços de pele.

Antigamente era mais fácil. Fluía.

Parágrafos inundavam a tela branca.

Agora, olha o nível.

Precisei dividir o texto em frases para encher a página.

Usei a técnica que toda dona de casa conhece quando chega mais gente para o almoço. Coloquei mais água no feijão.

Aumentei o caldo que já não era nutritivo.

Enganei a fome de escrever, mas não a matei.

Enfim, o retorno.

Voltei.



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