Feliz Dígito-Novo



Semelhante aos fogos de artifício que iluminam e dão som à tão aguardada noite de réveillon, percebemos nessa época o estourar de infinitas mensagens de final de ano. Concorrendo com as roupas escolhidas para a festa - talvez para dar sorte, muitas dessas mensagens são brancas ou até mesmo transparentes. Insinuantes, sim, mas a maioria carece de conteúdo e carrega consigo um dicionário de palavras clichê que basta o leitor ou o público-alvo usar brevemente a atenção e já saberá do que se trata. O tom escancarado, mas sem substância, das mensagens de final de ano denota, a iminente troca de data é uma fábrica de desejos compartilhados que, usando um pouco de insensibilidade, imparcialidade, ou até saco cheio, nota-se, já nascem com o prazo de validade vencido.

Nas vitrines do comércio. Nos comerciais da televisão. Em revistas e jornais. Nas redes sociais. Os clichês são autoexplicativos. Repetem-se e por mais pessoais e carregados de emoção que possam parecer, apenas expõem desejos vagos. No último dia de 2014, ninguém cometerá erros se disser que os desejos expostos em forma de mensagens são na verdade planos a curto prazo. - Metas para janeiro? Isso se sobreviverem até lá.

Mesmo com todas as simpatias feitas na noite da virada, - todo mundo sabe ao menos uma, mais da metade dos desejos compartilhados que antes enchiam nossos ouvidos e inundavam nossos olhos vão parar no fundo da geladeira junto com o resto da ceia, ou ficam jogados num canto da memória como uma garrafa de champagne vazia misturada à areia da praia. Poucos voltam lá para recolher os próprios desejos que restaram após a noite de festa. Quem ousará reaproveitar algo que da noite para o dia parece tão velho?

Artificialmente, só para fins de marcação do tempo, há um enorme espaço entre 31 de Dezembro e 1º de Janeiro. Os desejos de boas festas e os planos arquitetados paro o ano que iniciará, ficarão presos no ano passado. A euforia dará lugar a ressaca. Mesmo assim, vamos aos preparativos.

As ruas estão lotadas. As estradas apresentam um movimento intenso em todos os sentidos. Capital-interior, Capital-litoral, Capital-fila do supermercado. Aeroportos, rodoviárias, estações de trens e pontos de táxi. Onde há meios de transporte que possam ajudar com os preparativos para as festas de final de ano, há uma enorme concentração de pessoas esperando para embarcar com as sacolas, os pacotes e os presentes. Faltam braços e sobram compras.

Correria típica do finalzinho de Dezembro. E não é a maratona de São silvestre. A maioria de nós entra num ritmo que mescla acumulação de tarefas com vontade de descansar e sair da rotina. Quem trabalha com metas precisa fechá-las a todo custo. Nas lojas os vendedores se multiplicam e vendem de tudo. De pneus até máquinas de costura. Corrida contra o tempo para quem compra e para quem vende. “Compre sem entrada, em 24 vezes e com o primeiro pagamento só para Fevereiro.” Não é difícil achar um cartaz com esse convidativo anúncio. O mesmo cartaz deveria vir com a advertência: Desejo a você um novo ano com muita saúde e poucos carnês.

Mesmo que as lojas tentem, elas não conseguem superar os supermercados na representação do clima de final de ano. Os caixas trabalhando num ritmo de malabarista de circo. Uma mão no teclado e outra passando os produtos. A destreza do empacotador que abre o saco plástico, guarda as mercadorias, puxa o saco do cliente e ainda consegue puxar papo com o outro empacotador que está à 4 caixas de distância.

O burburinho dos aposentados na seção das bebidas disputando as últimas garrafas de cerveja da promoção. O pânico na fila do açougue, pois os perus com tamanho avantajado já foram comprados, agora restam aqueles bem pequenos, os murchinhos, para a tristeza da dona de casa. - Leve dois, senhora. Diz o açougueiro. Ao colocar as aves congeladas no carrinho os olhos dela brilham, imitam as garrafas de espumante que o repositor coloca nas prateleiras ao lado do açougue, num esforço incessante contra a pressa dos consumidores. A cada 3 garrafas colocadas, uma vai para dentro de algum carrinho transbordando refrigerantes, carnes, batatas, tomates, sorvetes, tinta para cabelo, pacotes de lentilhas, caixas de bombons. Ficam produtos espalhados pelo chão do supermercado. “Todo animal deixa rastros, caçadores e bons observadores sabem muito bem disso.” Essa frase poderia ser do Ernest Hemingway, mas ele devia ir pouco aos supermercados, ainda mais nessa época.

Algumas prateleiras vazias, as filas intermináveis e a aflição no olhar das crianças pequenas que acompanham os adultos nessas compras, são provas decisivas de que somente em uma grande catástrofe climática ou numa ameaça de fim de mundo veríamos um cenário tão aterrador dentro de um supermercado.

Mas não é o fim dos tempos, é somente mais um fim de ano. Comemorá-lo ou aproveitá-lo? Há quem diga existir uma enorme diferença nisso. Feliz Dígito-Novo!

Texto criado no dia 31 de dezembro de 2014.


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