Você está sendo enganado


O título soa apelativo e de extremo mau gosto, eu sei. Hesitei por um momento. No entanto, essa foi a primeira coisa que eu aprendi na faculdade. Como assim? Eu estou sendo enganado? Na verdade, é claro que existe informação de qualidade circulando, mas é preciso aprender a separar o joio do trigo. Eu já sentia que havia algo estranho no ar desde a minha adolescência, quando comecei a prestar mais atenção nas letras de algumas músicas. Tanto artistas nacionais como os Titãs, quanto gringos como o Bad Religion, por exemplo, teorizavam sobre assuntos que ninguém abordava no colégio. 

A ferrenha luta pela manutenção da hegemonia econômica e política de determinadas instituições/corporações não segue leis, tratados e, muito menos, algum código de ética. É um jogo de xadrez com movimentos "alternativos". O Rei não anda apenas uma casa em qualquer direção, assim como o Bispo não se move apenas na diagonal, mantendo-se nas casas de mesma cor. Mas o peão, coitado, se resigna a ir em frente, por amor e honra até o momento do abate.

Ao longo da minha jornada acadêmica, conheci algumas figuras-chave da área da comunicação que me fizeram acordar. Pra ser honesto, jogaram um balde de água fria. Dentre elas, posso destacar um sujeito chamado Michael Moore. Esse documentarista norte-americano fez, praticamente sozinho, mais pelo jornalismo investigativo do que quase todos os grandes veículos de comunicação nos últimos quinze anos. E tem pagado um preço altíssimo por mostrar uma face quase oculta da realidade. 

Dividido entre a literatura e o cinema documental, ele ganhou projeção mundial após receber o Oscar por Tiros em Columbine, um ensaio sobre a cultura da violência nos Estados Unidos; e a Palma de Ouro do Festival de Cannes por Fahrenheit 9/11 que analisa os atentados de 11 de setembro e as ligações entre as famílias Bush e Bin Laden. Vale dar uma conferida no restante da filmografia de Moore, em especial, SiCKO (no Brasil S.O.S. Saúde), sobre o sistema de saúde norte-americano e a sórdida indústria farmacêutica.

Quando Moore subiu no palco para receber a sua estatueta, em março de 2003, os EUA estavam em guerra contra o Iraque. Ninguém que estava na cerimônia tinha permissão para falar com a imprensa. Havia o medo de que alguém pudesse falar alguma coisa indigesta sobre a batalha, comprometendo os esforços do governo para "unir a nação". No entanto, o documentarista chamou os outros indicados da categoria para que se juntassem a ele e disse:

"Convidei meus colegas indicados ao Oscar de melhor documentário para subirem ao palco comigo. Eles estão aqui em solidariedade a mim porque gostamos de não ficção. Gostamos de não ficção, embora vivamos tempos de ficção. Vivemos em um tempo em que temos resultados eleitorais fictícios que elegem um presidente fictício. Vivemos em um tempo em que temos um homem nos mandando para uma guerra por motivos fictícios. Quer seja a ficção da fita vedante ou a ficção dos alertas laranja: somos contra essa guerra, senhor Bush. Tome vergonha, senhor Bush. Tome vergonha na cara. E quando o papa e as Dixie Chicks (trio popular de música country) ficarem contra o senhor, seu tempo terá se esgotado. Muito obrigado."

Logo após o discurso, a caos tomou conta da cerimônia. Alguns aplaudiram, outros tantos vaiaram e houve também aqueles que tentaram agredir o documentarista. Depois daquele dia fatídico, os norte-americanos tinham um novo inimigo a combater.

Você deve estar com algumas dúvidas sobre o conflito. Mas o Iraque tinha armas de destruição em massa? A guerra era legítima, não era?

Bush invadiu o Iraque, um país soberano, de forma ilegal. Posteriormente, George Bush e Tony Blair assumiram que não havia o perigo, mas colocaram a culpa no trabalho dos serviços secretos. No entanto, 70% da população aprovava a intervenção, na época. E aprovava sobretudo porque o New York Times veiculou diversas reportagens de primeira página fictícias a respeito de como Saddam Hussein possuía essas armas. No futuro, o jornal viria a se desculpar por apoiar a guerra. Para o povo, se um jornal liberal diz isso, deve ser verdade. Feito o estrago.

Moore nunca mais teve um dia normal. Começou a sofrer ameaças diariamente através de cartas e telefonemas. Frequentemente, tentavam invadir a sua casa. E sair da residência também era difícil, pois ele e sua família eram hostilizados e agredidos. A partir de então, o documentarista se obrigou a contratar uma equipe de segurança que ficava 24 horas ao seu lado. Além disso, instalou um moderno sistema de câmeras e alarmes na casa.

Tudo isso por que mesmo? Porque queria defender seu ponto de vista. Só por isso. A suposta democracia sendo abalada pelos tiranos ignorantes de cada esquina. E isso serve para o Brasil também. Basta lembrar das manifestações clamando pela volta dos militares. A estupidez não tem fronteiras.

Procure analisar com cuidado o que é noticiado. A desinformação, ou seja, a informação inverídica com o objetivo de induzir ao erro, nos é lançada em lotes substanciais dia após dia. A situação se agravou ainda mais com a popularização das redes sociais. Alguns teóricos afirmam que estamos na Era da Informação. Eu, por outro lado, simpatizo mais com uma corrente minoritária que sugere o contrário: estamos no auge da Era da Desinformação.

Exercite esse poderoso cérebro que você ganhou "de grátis". Confira a fonte. Analise o discurso e as suas sutilezas. Observe os adjetivos empregados. Na televisão e no rádio, preste atenção no tom de voz utilizado, muitas vezes te induzindo a escolher uma determinada posição. Lembre ainda que um veículo de comunicação é uma empresa e, assim como as demais, tem o objetivo de lucrar o máximo possível. E a renda não advém apenas dos espaços publicitários. Como vimos no caso do NYT, uma notícia também pode ser vendida. No entanto, procure não ficar paranoico. Apenas crie o hábito de questionar, pois é nele que reside a base fundamental da liberdade.


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