Diálogo com Alceu (O encontro)


Dia típico de Verão. O calor e as sombras estendidas na calçada indicam que a temperatura passa dos 30º graus e os relógios avançam sobre as 17:00 horas.

Estou indo até uma loja de informática saber notícias do meu computador que está para conserto. Duas semanas de espera. Parece que foram dois anos. A dependência tecnológica é evidente. E ainda há a aflição em descobrir se perdi ou não todos os arquivos gravados no disco rígido. 

Fotos de família. Músicas. Livros digitais. Material da graduação. Textos e poemas que escrevi ao longo dos anos. Semelhante a uma agenda, como uma mesa de trabalho ou um guarda-roupas, o computador pessoal mostra muito sobre seu dono. 

Caminho com pressa na estreita calçada em frente à um ponto de táxi que fica numa espécie de pracinha formada pela bifurcação da rua. Uma minúscula ilha urbana com um relógio eletrônico que lembra um solitário coqueiro. 

- O sol torrando a testa propicia essas miragens. 

Me aproximo do relógio. Hora e temperatura piscam em algarismos vermelhos. A cor atrai. Olho dois segundos para o relógio e de relance passo a vista no sol. Ofuscado pela luz forte retorno o olhar para a calçada e enxergo um tipo inusitado escorado no poste do relógio. 

Completamente coberto pela sombra ele observa minha pressa. O tipo aparenta uns 50 e poucos anos. Usa um óculos Ray-Ban enorme. Tem cabelos lisos, sem corte. Bagunçado. Barba rala. Camiseta cinza ou preta desbotada. As mangas cortadas. Braços finos. Baixa estatura. É magro, mas não fraco. Parece alguém que pratica esporte ou que gasta calorias em algum trabalho braçal. Ele veste uma bermuda jeans desfiada que termina um pouco abaixo dos joelhos. Um dia deve ter sido calça. Tênis estilo sapão ou tipo pantufa, daqueles com mais espuma que muitas almofadas chiques. Entre os dedos um cigarro de palha. No pulso um relógio tão caro quanto o óculos Ray-Ban. Estranha mistura de estilos. Olho ao redor para ver se encontro alguma moto estacionada. Uma Harley? A primeira vista é um coroa aposentado que adotou o estilo Easy Rider. Mas sequer vi bicicleta. Tampouco tatuagens. 

Sem dúvida um tipo inusitado, que não se vê com frequência. 

Nesse passo apressado, estou cruzando à sua frente. Ele me encara e diz com voz fina, porém alta. 

- E aí, maluco, qualé? 

Sigo caminhando. Não respondo. Ele, novamente. 

Qualé, cara, perdeu a língua? Tá com medinho, playboy? 

Uma das coisas que mais me incomoda é ser chamado de playboy. Tenho a impressão que o cara sabe disso. 

Caminho um pouco mais e paro. Olho para trás e respondo. 

- Não, cara, não estou com medo, só estou com pressa. 

Ele emenda com a explicação. 

- A galera passa e fingi que não me vê. Pra mim é medo. Cagaço pelo meu estilo, tá ligado? 

- Eu não tenho medo do teu estilo, cara. Porque teria? Até acho que os mais perigosos, os temíveis mesmo, usam terno e gravata. 

Respondo seco. 

- Humm, tô ligado. Gravata é uma parada bem inútil. 

- Pois é. Cara, eu tô com pressa mesmo. Tenho que chegar num lugar antes que feche. 

- Tá só na correria, maluco, relaxa. Qualé teu nome? 

Penso em dizer outro nome qualquer, afinal é um estranho, mas falo o verdadeiro. 

- Me chamo Douglas, cara. Qual é o teu? 

- Alceu... Alceu dispor! 

Solto uma inevitável gargalhada e chego mais perto. 

- Alceu Dispor? Pergunto. 

- É cara, Alceu Dispor, serviços gerais. Faço de tudo. Pinto casas. Corto grama. Limpo piscinas. Trabalho de garçom nas festas dos granfinos. Vivo de bico. Não sou passarinho, mas vivo de bico, morô? 

Ele me alcança um cartão preto e branco feito de folha A4 cortada em pequenos pedaços e diz. 

- Marquetingue, maluco, é a alma do negócio. 

Rio alto, novamente. Menos de três minutos de conversa e o cara, agora com nome, Alceu, já me fez dar duas gargalhadas. Uma figura estranha, mas não é dos chatos. 

Apressado, guardo o cartãozinho preto e branco no bolso. 

- Alceu, a conversa está boa, mas preciso ir, tenho horário. 

- Pode crê, maluco, vai lá. Mas controla a pressa, sangue bom, o mundo gira pra todos. 

Diz ele quase gritando. 

Já caminhando, respondo sem olhar para trás. 

- Tá certo, cara, abraço.



  
Compartilhar: