Fé, sonhos e delírios de grandeza



Em tempos de crise, somos obrigados a apelar para todos os santos. Passamos a acreditar em milagres por força da ocasião. Movidos pela fé, vamos até a lotérica mais próxima e encaramos aqueles sessenta enigmáticos números do bilhete. Com apenas 6 dezenas, a probabilidade de ganhar é de uma em 50.063.860. Eu dificilmente ganho no cara ou coroa, mas não interessa, pois "só vence quem joga", como ensina a sabedoria popular. É hoje, é hoje, só pode ser hoje minha gente.

Acumulou! 90 milhões! - avisa a placa caprichosamente escrita à mão, em letras garrafais e num tom de vermelho que faz os esperançosos tremerem o corpo inteiro. Correria no dia do sorteio. Filas e mais filas. Entrevero para entrar, entrevero para sair. Apostadores experientes discutem sobre os números que nunca são sorteados, elaboram teorias intrincadas e, em intervalos regulares, reclamam dos canalhas de Brasília. Já os apostadores iniciantes ficam procurando absorver aquelas informações todas. São mais observadores. Alguns até arriscam alguns palpites na tentativa de entrar na roda, mas geralmente são reprimidos. "Olha esse garoto, ele marcou o um", eles dizem entre risos. O garoto não desiste e troca o assunto para os canalhas de Brasília. Sábia decisão.

Outro jovem lá no canto, transbordando confiança, esconde o jogo. Anota firme e confere com rapidez. Dá beijinho no bilhete. Já ganhou, certamente. Dá mais uma olhada. Faz o sinal da cruz. Agora sim, tudo pronto. Não, espera, falta beijar o crucifixo. Quase colocou tudo a perder. Que números são aqueles? Será que ele marcou o número um, contrariando os ensinamentos?

O velhinho do lado esbraveja porque errou ao marcar o último número. “Era pra marcar o cinquenta e dois. Puta que o pariu”. Então, ele pega outro bilhete e começa tudo de novo. Ajeita o óculos. O suor deixa a testa e se alia a naftalina num lenço desbotado. Com calma, o ancião vai riscando as dezenas escolhidas com um esmero comovente. Tento passar a mão no bilhete antigo, mas levo uma reguada na mão. “Larga o bilhete”. O velhinho usava a régua para se orientar melhor na marcação dos números. “Mas o senhor não disse que tinha marcado errado”? Ele me encara com um ar profético. “Deus pode nos surpreender, meu jovem”. Me obrigo a pegar um novo bilhete. Anoto os mesmos três primeiros números que o velho. Logo ele percebe e começa a inclinar o corpo para esconder as apostas. Resmunga algo indecifrável. Depois vocifera com voz rouca e trêmula: “Não é o cinquenta! Puta que o pariu”. Errou novamente. Olhares curiosos, pescoços erguidos. “Sai daqui, sai daqui”, ele grita já erguendo aquela régua diabólica.

Vou até o outro balcão e me deparo com uma cena peculiar. Uma mulher está de olhos fechados - uma mão na caneta e a outra na testa -, sussurrando algo. O suor escorre galopantemente pelas suas têmporas. Me aproximo lentamente, buscando não dispersar a concentração dela. Tenho a impressão de que se trata de uma sessão mediúnica no improviso, uma ligação direta com os bem informados do plano celestial. Obviamente, eu também anoto aqueles números. Psicografia na lotérica. Jesus, parece que é isso mesmo. Será que ninguém percebeu? Decido que devo ajudar - sutilmente, é claro. Então, eu tiro o meu boné e faço vento na direção da apostadora. Ela marca os números sem abrir os olhos. A coisa é séria. Gostaria muito de saber quem está do outro lado da linha. A situação se manteve igual por pelo menos mais trinta segundos. Então, a mulher abriu os olhos e eu parei de fazer vento, porém me mantive olhando para ela como um idiota. Ao invés de um "obrigado", ganhei apenas uma sugestão: "lave o seu boné de vez em quando". Mal agradecida.

O calor estava infernal e aquela era uma clássica tarde de verão. Os ventiladores não venciam a batalha contra o amontoado de seres naquele minúsculo ambiente e, parafraseando um certo jornalista beberrão, o meu sangue era espesso demais para suportar aquele clima. Eu estava com duas apostas infalíveis na mão: a primeira era fruto dos três primeiros números que eu copiei do velhinho, além do danado "cinquenta e dois" e da sabedoria dos apostadores experientes; a outra tinha sido psicografada. De uma forma ou de outra vai acontecer. Cinco reais hoje, noventa milhões de reais amanhã.

O jornal coloca as possibilidades em perspectiva. Eu poderia melhorar a minha vida e garantir que os meus descendentes esbanjassem por meia dúzia de gerações, pelo menos. Poderíamos adquirir trocentos carros populares e trocentos apartamentos. Zilhões de Chokitos. Dar uma volta ao mundo de vez em quando se hospedando nos melhores hotéis. Porém, "seria prudente investir uma fatia  no Tesouro Direto". São tantas possibilidades.

As horas que antecedem o sorteio são preenchidas com sonhos e delírios de grandeza. Obviamente, eu ajudaria a minha família e as pessoas mais próximas (não todos, pois a minha compaixão é limitada), além de algumas instituições que simpatizo há bastante tempo. No entanto, suponho que as cervejas em promoção, aliadas a um ego inchado e essas altas temperaturas também interfiram na formulação da lista. Vejamos: erradicar de uma vez por todas a dengue e certos gêneros musicais em Pinhalzinho (primeiro trabalharemos em nível local); show do Metallica no Grêmio Recreativo (medida complementar); abrir um cassino em Chapecó, transformando a cidade na Las Vegas brasileira ("já está tramitando o projeto que legaliza jogos de azar no Brasil e temos que largar na frente", disse um amigo); viajar para o espaço (só depois que a Virgin construir uma nave decente); duas torneiras na cozinha, uma com água e outra com Jack Daniel's... Eu ficaria confuso. Me parece que o sujeito realmente abonado precisa ser criativo, caso contrário não conseguirá aproveitar a sua vida satisfatoriamente. Terá que contratar um consultor. De fato, não sei. O sorteio vai começar. Prometo que escreverei, mesmo que esteja nas Bahamas.


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