As mulas e os trotes


Pleno período dos trotes nas universidades. A maneira mais imbecil que os “veteranos” recebem os “calouros”, e a forma mais inútil que os recém-chegados acham para se inserir no ambiente acadêmico.

A questão não é somente pintar o rosto, comemorar a entrada no ensino superior e confraternizar com os outros estudantes. O tema passa a gerar polêmica no momento em que alguém é forçado direta ou indiretamente a participar de um trote violento. Assim, imediatamente a reflexão se torna válida.

Surgem notícias que seguem a linha da violência psicológica e física. Ingerir comida com vômito e fezes. Correr sob o sol carregando vísceras de animais. Deitar no chão enquanto é pisoteado e coberto por lama, urina, tinta, comida estragada. Chamar de tortura não é exagero. Embora a tortura possua o frágil pretexto de arrancar informações, no trote, qual é o pretexto?

Alguns dizem que essa iniciação tem como pretexto marcar a passagem ao ambiente intelectual. Como se antes de entrar efetivamente para a universidade, o calouro precisasse ser domesticado através do trote violento. É trágico ouvir uma besteira dessas. E, como se não bastasse, existem professores que a dizem. São os mestres da repetição, popular “papagaiagem”. 

Achar normal a dita comemoração que, muitas vezes, acaba em morte por coma alcoólico, morte por afogamento, marcas físicas irreparáveis, desistência de seguir na faculdade, é tapar o sol com a peneira, empurrar o problema com a barriga. Coisa que muitos reitores são PhD no assunto.

Para minimizar a polêmica questão dos trotes, alguns reitores lavam as mãos baixando instruções internas que o proíbem dentro dos campus. A comemoração foge aos olhos da comunidade acadêmica e, em geral, concentra-se em repúblicas, sítios e clubes, onde a festa começa com intimidações e termina com violência. É repugnante ver o sadismo estampado nas faces de alguns “veteranos”.

Longe das universidades e sem uma repressão a essa prática ignorante, uma das formas de persuadir os “bixos” - que muita gente acha bonitinho escrever com X nas faixas comemorativas, é o chamado suicídio social. Consiste em forçar indiretamente o calouro a participar dos rituais de iniciação. Ou seja, o papo furado é; Se não participar dos trotes, o “bixo” não será convidado para as festas, viagens do curso, seminários.” Será excluído. Como se os calouros precisassem dos “veteranos”, - os mais babacas, diga-se de passagem, que dão um tempo nos “estudos” para aplicar trotes violentos, para exercerem a sua independência acadêmica.

Calouros jogam no lixo sua dignidade e cantam pelos corredores da universidade em tom de brincadeira; “Bixo não é gente, bixo não é nada.” Repetem, com orgulho desesperado, a mesma frase nas redes sociais. Fortalecem, indiretamente, uma possível atitude violenta por parte dos “veteranos”. Alimentam as mulas. 

Já que a maioria dos calouros vem do ensino médio, jovens com pouca idade, afoitos por aceitação, não resistem à ameaça de exclusão. Quem por volta dos dezessete anos quer realmente ser excluído? A armadilha dá certo e quase todos aderem. Aqueles que ainda assim resistem e se recusam a participar, são convencidos pelo uso da força.

O resto é fácil de imaginar. Discussões, brigas, mais violência e temos o alimento que os trotes precisam para serem repassados ano após ano, isso desde o século 14. Por volta do ano de 1340, na universidade de Paris, já constam relatos dos primeiros trotes violentos.

Vemos então que a boçalidade é importada. No Brasil, há um dos primeiros casos de trote que não terminou bem registrado no ano de 1831. Em 29 de março daquele ano, na faculdade de Direito de Olinda, Pernambuco, um estudante recusou-se a participar das humilhações e foi morto a facadas e bengaladas por um dos veteranos. O que mudou de lá para cá nos trotes violentos foi que as pessoas deixaram de usar bengalas como moda, pois a violência dos trotes ainda segue como tendência. Quanto mais idiotas são os “veteranos”, mais cruel é o trote. Constatação simples feito dois mais dois, que, para alguns praticantes de trotes violentos, a conta dá zero.

Fica claro que há um circulo vicioso nos trotes. O pensamento simplista é; “Se nesse ano recebi, ano que vem vou aplicar.” Repetir a humilhação nos então calouros.

Existem inúmeras possibilidades que substituem o trote por uma atividade que propicia a integração dos estudantes e, simultaneamente, traz benefícios à comunidade na qual a universidade está inserida. Basta incentivo da instituição de ensino e vontade dos alunos.

Passa, também, por uma questão pessoal a atitude de quebrar o ciclo. Reproduzir a babaquice dos trotes violentos, nada mais é do que uma espécie de vingança do avesso. De calouro intimidado, alguém passa à veterano que precisa a todo custo provar a sua suprema burrice. 

A palavra trote remete a cavalos, mas nas universidades, brasileiras e mundo a fora, trote lembra mulas e burros. Que empacam e repetem atos violentos erroneamente chamados de “brincadeiras”.


Breve Cronologia do trote no Brasil

1831 – Francisco da Cunha e Menezes, morto a facadas e bengaladas por um veterano na Faculdade de Direito de Olinda, Pernambuco.

1861 – Stockler de Lima, aluno do 5º período da Faculdade de Direito do Largo São Francisco – SP. Espancado por tentar defender seu irmão que sofria humilhação em um trote. Entre os agressores estão, Theofilo Carlos Ottoni (filho de um futuro governador de Minas gerais) e Manoel de Campos Salles (Futuro Presidente da República).

1881 – Fundação de um clube antitrote na Faculdade do Largo São Francisco, pelo escritor Raul Pompéia. Clube Nove de Setembro.

1957 – Na PUC Sorocaba – SP, alunos da primeira turma de medicina aplicam trote em si mesmos para terem o direito de fazê-lo na turma seguinte.

1962 – Na mesma PUC Sorocaba, um aluno foi colocado nu em um barril de água com cal. Resultando em sua morte.

1970 – Devido ao uso de ácido no trote, aluno fica cego em Faculdade do interior de SP.

1975 – Cinquenta alunos da faculdade de engenharia da Universidade Federal do Paraná, têm a pela queimada por cal.

1980 – Na academia militar de Realengo – RJ, calouro é amarrado aos trilhos do trem e morre devido à um infarto.

1990 – Mais um aluno morre de infarto, após fugir de um trote, na Fundação de Ensino Superior do Rio Verde, em Goiás.

1991 – Aluno sofre trote/tortura, durante 30 horas na Universidade Federal da Bahia.

1999 – O calouro da faculdade de medicina, da USP, Edison Tsung Chi Hsueh, morre afogado numa piscina dentro da Universidade. Outros calouros contam que ele avisou que não sabia nadar, mesmo assim, veteranos o jogaram na água e pisavam nas mãos de quem tentava se agarrar na borda.

2010 – Na Universidade de Brasília, veteranos obrigam calouras a simular sexo oral com linguiça molhada em leite condensado.

2014 – Jovem é levado em coma para o hospital devido a trote aplicado por veteranos do curso de engenharia mecânica da Universidade Federal de Santa Maria. O jovem tinha as roupas encharcadas com querosene.



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