Nós somos patéticos


Embora sejam muitas as coisas más deste mundo, a pior dentre todas é a sociedade.
Arthur Schopenhauer


Dizem que o cérebro humano é um dos órgãos que mais consome calorias. Talvez por isso, exista tanta gente apelando para os regimes. Consumir notícias enlatadas, cheias de conservantes de poder, impregnadas de realçadores de interesses, prejudica a saúde mental. 

Em contrapartida, indignar-se é uma das melhores coisas que pode acontecer com o ser humano. Tento me manter indignado com tudo que julgo estar errado no mundo. Quanta inocência a minha. Muita coisa passa despercebida. Não obtenho sucesso. Só o teria se fosse cego, surdo e mudo. Um vegetal, talvez. Obtendo o sucesso pela total falta de consciência. 

Quinta-Feira, 02 de Abril de 2015. Sou atingido por uma notícia que embrulha o estômago. 

No Quénia, extremo Leste da África, terroristas islamitas shebab, oriundos da Somália e vinculados à Al-Qaeda, invadiram durante a madrugada a Universidade de Garissa e mataram 148 pessoas, em sua maioria estudantes, além de deixarem outras tantas feridas. Inicialmente, a barbárie foi indiscriminada, depois, os invasores separavam as possíveis vítimas entre muçulmanos e não muçulmanos. Aqueles que não sabiam alguma oração muçulmana tornavam-se vítimas instantaneamente.

Esse fato isolado, já é motivo para dar um desarranjo em qualquer observador atento, porém a segunda torção intestinal é desencadeada pela forma com que os principais meios de comunicação brasileiros trataram a tragédia. Replicando a mesma forma fria de cobertura que as agências de notícias mundiais fizeram.

O tempo de exibição, composto por cortes imprecisos na edição das imagens, não durou mais do que dois minutos. Nada de câmera lenta e repórter descrevendo as cenas. Não lembrou nem um pouco o drama midiático dado ao ataque à redação do jornal satírico Francês Charlie Hebdo, em 07 de janeiro desse ano, que resultou em 12 mortos, entre cartunistas, funcionários do jornal, seguranças e policiais. 

Não estou querendo dizer com isso que a gravidade dos ataques possa ser colocada numa balança apenas pelo tempo que a mídia destinou a eles, mas, se a maioria das pessoas que está na frente da televisão, - e falo especificamente dela, estiver consumindo as notícias sem mastigar direito, o efeito é justamente esse. O ataque à redação do jornal francês dará a impressão de ser muito mais grave do que o atentado à Universidade queniana. 

Em decorrência do atentado em Paris, a frase “je suis Charlie” (eu sou Charlie) fez eco em grande parte do mundo, principalmente no civilizadíssimo e evoluído mundo ocidental. Líderes mundiais se uniram, artificialmente, caminhando nas ruas de Paris, para demonstrar repúdio aos atos terroristas em solo francês. Nas palavras de Slavoj Zizek, filósofo, teórico crítico e cientista social esloveno, é a mais pura imagem da falsidade hipócrita mundial. A imagem de líderes mundiais que caminham de mãos dadas enquanto, nos bastidores, enfiam facas uns nas costas dos outros.

Agora, nesse recente atentado no Quénia. - Quénia? Mas onde fica o Quênia? 148 pessoas assassinadas sob um superficial pretexto religioso, - pois há outros contornos (econômicos e geopolíticos) nesses ataques, e quem realmente digeriu o assunto por inteiro? Quem, numa semana marcada pelo consumo de chocolates e peixes, realmente deu-se conta que estávamos vendo mais uma demonstração de como a informação pode ser maquiada, para parecer mais ou menos aterradora? 

Existem dois pesos e duas medidas quando atentados terroristas são cometidos em países ricos e países pobres? Colocando no mesmo patamar os dois massacres, evitará que caiam no esquecimento daqui uma ou duas semanas? E, melhor, evitará novos atentados mais ou menos solidariedade mundial?

Mais enjoado fico, quando noto que a atenção da mídia brasileira equilibrou duas reportagens, colocando-as no mesmo nível, o descontrole emocional de um jogador de futebol que abandonou a partida, numa cena teatral em que atira a camiseta do time no chão enquanto a torcida o vaia, com a “cobertura” do atentado à Universidade Queniana. 

– Que horror! 

– O terrorismo no mundo? 

– Não, a falta de amor à camisa desses jogadores de hoje em dia. 

Volto à realidade, com a prova de que o direcionamento midiático é tão forte, que dediquei mais linhas escrevendo sobre a hipocrisia da solidariedade mundial à França, em detrimento ao massacre no Quénia. Falta-nos memória, atenção e senso crítico. “Nous sommes pathétique.” Pluralizando e traduzindo amplamente: nós somos patéticos.



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