Como você edita o que vê?


Quando comecei a gravar e editar vídeos, há oito anos atrás, eu apenas fazia tudo de modo muito técnico, deixando passar muitas experiências. A estética falava mais alto e o conteúdo bruto era pouco lapidado ou então era lapidado com base na rigidez do formato estético que se buscava. Aos poucos, fui buscando um equilíbrio nesse sentido.

Iniciei o dia editando um novo documentário e, mais uma vez, fico emocionado com os fragmentos de história que tenho a oportunidade de conhecer. Penso que se estivermos realmente em sintonia com aquilo que fazemos e com a realidade que nos rodeia, teremos acesso a alguns tesouros. Diz o coach que só passamos a enriquecer materialmente de fato quando passamos a entender e resolver os problemas dos outros. Em meio a selvageria do meio empresarial, não deixa de ser uma constatação sábia. De modo espiritual ou pelo viés da sabedoria, acredito que enriquecemos quando temos a capacidade de entender a trajetória e a intrincada complexidade de cada ser humano. Só compartilhamos experiências (as riquezas fundamentais) quando estamos conectados com o outro de alguma forma. Se não houver empatia, a relação se desenvolve como um rádio que só emite chiados e informações que não são captadas plenamente. Um simples ajuste de configuração pode melhorar tudo. 

Ao editar uma entrevista, conheci a história de um professor que teve que lutar para conseguir construir uma escola na comunidade na qual morava, isso lá na década de 40. Depois de pronta, a escola não tinha livros e a estrutura era bem precária, mas ele não mediu esforços para ensinar as crianças. Cabe salientar ainda, que ele e seus familiares tiveram que lutar para chegar com vida até o local em que iriam se estabelecer. Passaram semanas na estrada, viajando de carroças com a mudança por estradas enlameadas e diante de um clima intensamente chuvoso. Como se não bastasse, a comida começou a ficar escassa e era preciso abrir estrada no meio do mato para seguir viagem num determinado momento. Ao chegar, tinha início um novo desafio: construir moradias, plantações e tudo o que era necessário para que a pequena vila prosperasse. Eram outros tempos. Enquanto eu tomava conhecimento daquela incrível odisseia, fiquei me perguntando quantos teriam coragem hoje em dia de fazer aquilo tudo? 

Atualmente, dispomos de um arsenal de desculpas para continuar na mediocridade. É o governo, é o tempo, é a saúde, é o medo, é o azar, é o capeta, é a falta de dinheiro e é tudo junto somado a alguma coisa que não conseguimos nomear... Mas que interfere, interfere. "Meu Deus do céu, é tudo tão complicaaaado". Talvez, tenhamos nos perdido na vastidão de um vazio de significado. Foi essa epifania, aliás, que levou Viktor Frankl, psiquiatra austríaco, a desenvolver a Logoterapia enquanto estava vivendo dias terríveis preso num campo de concentração nazista durante a Segunda Guerra Mundial. Foi roubando papéis de um escritório do campo que ele esboçou o seu livro "Em busca de sentido", que explora o sentido existencial/espiritual do indivíduo. O que nos mantém vivos? Para ele, basta um forte significado para viver. Um objetivo claro pelo qual lutar, em outras palavras. No caso de Frankl na época, o objetivo era simplesmente escapar com vida (o que de fato aconteceu quando as tropas americanas libertaram o local). Para os desbravadores que entrevistamos para o documentário, talvez seja dar condições de vida melhores para os filhos e netos.

De acordo com alguns psicólogos, esse imenso vazio pode ser considerado como o fator determinante para a depressão e, inclusive, para casos de suicídio. A depressão já é a doença mais incapacitante, segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS). Se trata de uma crise global e que infelizmente continua crescendo de maneira alarmante. Comentei com a minha equipe de trabalho o quanto esses depoimentos que foram captados estavam impactando positivamente a minha vida. A diretora do projeto sorriu e me disse que era a "Catavento terapia" (Catavento é o nome da empresa para a qual eu presto serviço). Brincadeiras à parte, era realmente isso mesmo. Ao me sintonizar com aquelas pessoas, eu estava encaixando peças importantes do meu quebra-cabeças. Passei a entender o que estava mudando de uma geração para a outra e como eu me via em relação aos meus antepassados.

Já em casa, entre goles de café e no conforto de um condomínio fechado - fechado para o externo e fechado também para o próprio interno, entre trincheiras numeradas, olhos mágicos e regras frias de convivência pregadas no elevador - consigo refletir com uma dose ácida de clareza. Penso que estamos cada vez mais distantes de um sentido de comunidade e, pior, estamos distantes de nós mesmos. Muitas vezes não estamos sequer dispostos a iniciar uma revolução interior, visando uma melhor qualidade de vida. Não conseguimos nos motivar para que possamos evoluir e assim, consequentemente, não conseguimos ajudar ninguém, nem minimamente. Como você edita o que vê? Como você estrutura a realidade em que vive?



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