Nós somos a resistência


Depois de um breve período ausente, estou de volta. Os compromissos de trabalho e os imprevistos da vida me tiraram de campo por um tempo, mas a vontade de compartilhar experiências sempre se manteve intacta!

Lendo a recente biografia do Guga (Guga, um brasileiro), comecei a ter lampejos de consciência acerca da minha própria caminhada. Acredito que seja algo natural entre os amantes da literatura. A gente se deixar levar pelas histórias e, sobretudo, se identifica em maior ou menor grau com determinadas passagens, dependendo do nosso contexto.

Lá pelas tantas, o Guga fala sobre como é estar no topo, ser o número 1 do mundo no tênis. A princípio, nenhuma grande novidade: é preciso conviver com a enorme pressão dele próprio para ser cada vez melhor, além de saber lidar com o assédio da imprensa e dos fãs, acostumados com os repetidos sucessos do Brasil em outras modalidades mais populares (na época, futebol e F1). No entanto, ele continua a sua reflexão e toca num assunto interessante:

"No tênis, além do meu pai e do Larri, até os meus 20 anos, ninguém esperava que eu fosse me tornar o maior tenista do planeta. Mesmo eu tinha extrema dificuldade para me convencer disso. No Brasil, de maneira geral, convivemos com o hábito de depreciar nossa capacidade e nossos valores. Cresci envolvido nesse contexto [...]"

Infelizmente, foi assim comigo e talvez com você também. Não sei exatamente quando começou a circular essa espécie de "vírus da alma" que tantos males vem causando ao longo dos anos. Olha, é algo digno de estudo acadêmico. Confesso que ainda não estou plenamente curado, mas tenho fé que falta pouco.

Até por volta de 2010, no meu caso, eu seguia na base da encenação. As minhas convicções eram cambaleantes e os resultados dos meus esforços só enganavam os menos atentos. Eu fazia um vídeo pra faculdade e "poutz, alguma coisa não tá legal"; criava algumas músicas em casa (minha paixão eterna) e parecia que batia na trave; no trabalho, me empenhava até o limite do possível e não via quase nenhum progresso. Eu vivia numa inconsistência constrangedora e não via uma saída sequer. Na época, eu conversei a respeito disso com a minha família e até cogitei mudar de curso ou trancar a faculdade pra dar uma espairecida. Com a incentivo deles ganhei fôlego e decidi continuar, mas ainda sentia aquela fragilidade emocional. 

Começou um novo semestre e surgiram as primeiras figuras-chave da minha vida. Comecei uma disciplina chamada "Elementos de linguagem musical" com um professor que era novo na área. Era um figurão! O professor Gerson era conversador, agitado e com uma energia incrível. O que mais chamava a atenção nele, contudo, era a sua capacidade de simplificar e "destravar" as coisas. Nada era impossível. Seja lá qual fosse a maluquice que se tinha em mente, ele dava um jeito de operar. Criamos curtas (a minha história mais bizarra no curso envolve um desses pequenos filmes), uma radionovela e alguns projetos paralelos. A própria trajetória de vida do Gerson mostrava que ele tinha descoberto uma forma de se curar do tal vírus e queria compartilhar isso. Ele havia começado a cursar música numa universidade federal com 27 anos - relativamente tarde para os nossos padrões e mais ainda para algo de alto nível. Não é absurdo, mas exige um baita empenho. Mas ele foi lá e deu um jeito. Além de professor universitário, era produtor musical e já vinha sendo reconhecido por trabalhar com áudio para filmes.

Eu sentia que o clima estava mudando e decidi arriscar mais. Passei a botar no papel todas as ideias que pintavam na mente. Também me escalei pra criar o tema musical da radionovela que depois foi elogiado pelo professor e pelos colegas. No futuro, aquele sopro de incentivo seria o suficiente pra que eu criasse um disco inteiro no meu próprio quarto e viesse a realizar um dos maiores sonhos da minha vida: ter uma música minha tocando na rádio! Que mudança. Lembro também que ele foi o primeiro a insistir na ideia de que a gente deveria valorizar mais os nossos trabalhos e inscrevê-los nas mostras competitivas de cinema. Até poucos meses atrás, eu não queria mostrar nada nem pra minha mãe e agora estávamos mandando nossos filmes pro Brasil inteiro. 

E não é que o sujeito tinha razão nisso também? Alguns colegas começaram a ser premiados aqui e ali. O ambiente ficou mais competitivo. Nem parecia mais o mesmo curso. Era o nosso momento. Beliscamos algumas mostras competitivas e ganhamos confiança. Em 2012, no ano em que lancei meu disquinho, também encerrei a minha graduação levando um prêmio importante com meu trabalho de conclusão, um curta-metragem chamado "Dia da verdade". Nesse período fui orientado pelo professor Jair, outra figura importante e incentivadora, que sabia extrair 101% dos alunos nos momentos mais decisivos! De um modo geral, foi inacreditável a mudança que ocorreu em apenas dois anos. 

Saímos do ambiente acadêmico e encaramos a realidade brutal do mercado de trabalho. Muitos ficaram pelo caminho. Por vezes, as coisas demoram um pouco para engrenar, dependem de uma série de fatores além da nossa vontade e se torna uma parada duríssima manter o planejamento. No entanto, muitos também estão em empregos bacanas ou com seus próprios negócios e projetos. A verdade é que se você tem força de vontade suficiente pra se curar desse vírus (também conhecido historicamente como "complexo de vira-lata", forma pela qual o Nelson Rodrigues se referiu ao fenômeno) você vai vencer, cedo ou tarde. 

Oscilaremos, assim como os nossos ídolos oscilaram por diversas vezes. Faz parte da jornada, somos de carne e osso. Aos poucos também teremos a clareza sobre a efemeridade das conquistas pessoais. A impermanência vai nos dar uma outra perspectiva. Porém, a crença nos nossos valores deve ser inabalável. Jamais podemos baixar a guarda. Temos infinitas possibilidades de nos reinventarmos, de criarmos um contexto mais positivo para as pessoas do nosso círculo social. Nós somos a resistência! 



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