The end, madrugada



O fino feixe de luz marca o horizonte. Lembra ferro incandescente ou o fundo de uma garrafa de uísque quase vazia vista contra a luz. Luz é o que mais vejo nesse momento... 

“Faróis de carros. Postes na rua. A eletricidade destaca tudo. Vitrines com manequins de olhar estático. Calçadas com pessoas de olhar elétrico. Copos, goles, celulares. As placas de PARE mandam, por todos os cantos da cidade, fim de festa. 

A pressa de viver deixou espalhados pelo chão centenas de copos descartáveis. Algumas pessoas, sem querer, imitam o destino dos copos descartáveis. Uns em pé, meio cheios meio vazios. Outros pisoteados, partidos, com algum resto de líquido ou amor próprio. A noite é mesmo cruel com copos e pessoas frágeis. 

De pés descalços e vestido de um comprimento que quase revela a intimidade, - escreve buceta e deixa de ser puritano - uma menina chora sentada no cordão da calçada. Se olhássemos de perto, veríamos as lágrimas carregando a maquiagem até as maçãs do rosto. A sombra mistura preto com o tom rosado da pele. Aquarela? Tinta a óleo? Que tipo de moldura? A cena daria um bom quadro. 

Dramático, um homem chega ao seu lado e nem repara no choro. Hipnotizado pelas latas de alumínio que circulam a moça ele solta fumaça pelo canto da boca e cata uma a uma. A demonstração de felicidade é cinza e vem dos pulmões. O alumínio vai virar níquel. O níquel vai virar pão, cachaça ou fumo. Se der para os três, que sorte a dele. Cães o acompanham. Por um momento o catador lembra um nômade do século 21. Como na idade da pedra, caçador coletor. Hoje, de rua em rua, indiferente aos sinais de Wi Fi, ele procura onde a “lata” é mais abundante. 

Outros cães compõem o mesmo ambiente, machos e fêmeas, vestem roupas de grife. Trazem nos pulsos o tempo em ponteiros caros e fitas coloridas. Falam alto. Riem da moça sentada no cordão, do catador, e deles mesmos. O reflexo no vidro dos carros causa graça. Registram os momentos. Apelam e mostram a fé em Jesus Selfie. Distorcidos, tontos pelo álcool, se escoram na parede e na posição social. Pensam estar por cima e a falsa ideia de superioridade lhes deixa cegos. As fitas nos pulsos, - aquelas que diferenciam as pessoas nas festas – já não têm a mesma serventia, agora, parece que a única utilidade é indicar o que é esquerda e direita. Coitados de nós, brasileiros, que ainda precisamos de muitas fitas coloridas nos pulsos. 

Na outra calçada surge uma mulher vestida totalmente de branco. A lenda urbana seria confirmada, não fosse por ela carregar uma bolsa, um jaleco e um guarda-chuva. A cor da roupa e o coque no cabelo denunciam, ela vai cuidar da saúde dos outros. Assombrada, cara de sono, segue caminhando e olhando para o conjunto de cenas em frente ao último bar aberto. A moça que chora, o catador e seus cães, os cães com pulseira VIP. 

Na cabeça da mulher de branco é como se fosse um filme assistido pela metade, alguém que dormiu e acordou nos minutos finais. O sol já está transformando preto em azul.” 

...Fechei o cantinho da minha cortina. “Viver é um transitório e terrível estado de graça.” The End, madrugada.


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