O retronauta


Tínhamos apenas um plano A ruidoso e enérgico que vibrava em nossas almas. Condensávamos o eterno de mãos dadas com a morte. Confortavelmente alheios aos sinais. Confortavelmente alheios aos olhares. Tínhamos um sentido claro, porém indizível e isso bastava. Estávamos conectados por um tipo de amor primitivo. Precisávamos uns dos outros mesmo que nunca falássemos sobre isso. Vivíamos plenamente e sequer suspeitávamos.

A linguagem jamais será suficiente para traduzir certos momentos e percebo o quanto me limitei desde então. Todas as experiências devem ser traduzidas? Corro o risco de colocar as palavras erradas e reduzir o que vivi a uma narrativa pálida ou maquiada. Contudo, em algum lugar da minha mente existe um pescador tenaz que não vai desistir de fisgar memórias e depois contar tudo à sua maneira, quer se acredite ou não.

Mesmo a milhares de quilômetros de distância, eu tenho certeza de que poderia ouvir os ecos vindos daquela cidade. Algo mágico ressoa por lá entre o passado e o futuro. Será que aquela frequência extraordinária ainda pode ser sintonizada? Quem ainda dança no porão dos sonhos? O que será possível encontrar além de mofo e cacos de sábados perfeitos? Sempre subestimei o poder das lembranças e agora percebo que estou realmente em apuros.

A força do agora me faz avançar enlouquecidamente. Às vezes tenho que sair correndo e pegar o que dá. Quantas coisas já ficaram pelo caminho. "É preciso entender o fluxo, a correnteza". Não, mas eu preciso voltar pra compreender o que perdi. Fui crescendo e me encolhendo no útero apertado de uma consciência precoce. Minha inocência ficou em algum lugar entre a casa da vó e quadra de futebol do colégio velho. Recolheram os meus jogos e mudaram minha cama de lugar. Minha tia pegou o seu violão de volta. Esvaziaram os meus bolsos e me deram um diploma. Enchi minhas estantes de frivolidades. Os amigos partiram. Ou será que fomos todos sorrateiramente levados? Mas não estávamos sempre de mãos dadas com o livre arbítrio?

Quero tirar essa história a limpo, mas minha cabeça não ajuda.  Vou ter que apelar pra malandragem. Farei um relógio que gira ao contrário e uma nave "especial". Serei um retronauta. Já tenho um capacete e uma rota pra desbravar a imensidão desse espaço misterioso. Só preciso entender ou quem sabe desentender um pouco mais. Aquele pequeno ponto luminoso ainda está lá.




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