A crise migratória na Europa e suas razões



O drama atual dos refugiados que chegam à Europa é um reflexo direto da crise política que vivem diversos países do Oriente Médio e do Norte da África nos últimos anos. No centro do furacão estão Síria e o Iraque, pois é lá que grupos extremistas, como o Estado Islâmico, juntamente com outras organizações similares à Al-Qaeda, espalham o terror. Ganhando território e impondo, por meio da violência, o seu retrógrado sistema de Califado, idealizado pelos extremistas como solução (teocrática!) contra qualquer outra forma de governo, o Estado Islâmico avança, deixando para trás um rastro de sangue e de atrocidades quase inacreditáveis. Na lista destas ações estão a destruição dos templos de Bel e Baal-Shamin, em Palmira (considerados patrimônio da humanidade), de dezenas de relíquias arqueológicas milenares no Iraque, além da execução de mais de 1.500 prisioneiros. "Podemos confirmar a destruição do principal prédio do templo de Bel, além de várias colunas em suas imediações", informou o Instituto das Nações Unidas para Formação Profissional e Pesquisas (UNITAR), segundo reportagem publicada no site G1, no dia 1° de setembro. Mas, nem tudo é o que parece, pois a devastação deliberada dos sítios arqueológicos não é apenas motivada pela fé cega (fim da idolatria), mas serve de fachada para o roubo e o comercio ilegal dos “espólios de guerra” no mercado negro de Londres.

Como se não fossem suficientes as decapitações, crucificações e queima de seres humanos vivos, tudo gravado e divulgado com requintes de crueldade, o grupo extremista muçulmano Estado Islâmico, tem participação indireta na morte de mais 100.000 pessoas na Síria. Desde o inicio dos conflitos, em 2011, para a derrubada do regime de Bashar al-Assad, o país mergulhou em uma guerra civil sem previsão de término. Motivada pela irredutibilidade do presidente de um lado e pelo ódio dos grupos religiosos sunitas e de oposição de outro, a guerra vitima principalmente civis, somando mais de 240.000 mortes. Mas o horror não se restringe apenas ao Iraque e a Síria. De acordo com o jornal O Globo, são nove guerras civis acontecendo nos países islâmicos, desde o Paquistão até a Nigéria. Até agora, ainda conforme o periódico, foram mais de 11 milhões de sírios a abandonarem suas casas, sendo que deste total, aproximadamente 4 milhões refugiaram-se em países vizinhos. Turquia, Líbano, Jordânia, Iêmen, Líbia, Somália, todos países considerados “falidos”. Falidos hoje, pois já abrigaram milhares de refugiados no início dos conflitos, com exceção da Somália. Falidos por que sofrem com as guerras internas, sendo fendidos de ponta a ponta por gangues de criminosos, protegidos principalmente sob a bandeira do extremismo religioso.

Estes grupos, que agem de forma muito parecida entre si, vêm sendo financiados por banqueiros internacionais escusos, que jamais assumem suas ações sob a luz do dia e assistem ao Oriente Médio e ao Norte da Africa se desintegrarem na segurança de suas fortalezas no coração da Europa. Mas esta é a intenção. Absurdamente ricos, eles jamais serão afetados pela crise migratória. E, através dos extremistas, eles já conseguiram alterar significativamente a geopolítica da região. Mas ainda não terminaram. Nomes como Jabhat al-Nusra, Ahrar al-Shan, Boko Haram, Al-Qaeda e o infame Estado Islâmico, tornaram-se famosos no mundo pelo fanatismo e disposição para o cometimento de crimes inenarráveis, assim como pela intenção de propagar a violenta imagem do Islã sunita para o resto do planeta. Se uma solução (mesmo que radical), não for encontrada em breve, os perigosos objetivos destes personagens irão, inevitavelmente, se consolidar. Se isso acontecer, conflitos ainda maiores poderão agravar dramaticamente a crise migratória, com consequências nefastas não apenas para o continente europeu. 

Se a intenção é fomentar a crise, é por que quem opera o caos a partir das sombras pretende se beneficiar ao pescar em águas turvas. O resultado disso é o que temos visto acontecer na Europa. Uma fuga em massa de cidadãos que clamam por uma chance de viver com dignidade, longe dos sequestros, estupros, linchamentos, decapitações, bombardeios e horrores promovidos pelos grupos guerrilheiros e pelos próprios governos. Cidadãos já sem pátria que, antes de tudo, são seres humanos, arriscando a vida ao atravessar o Mar Mediterrâneo em barcos precários e superlotados, buscando um acolhimento que existe somente em suas esperanças mais sinceras. Refugiados que, no afã de cruzar a linha cruel entre o terror da guerra e um futuro menos incerto, são recebidos a chutes e pontapés, como vimos na imprensa mundial, há poucos dias, quando uma cinegrafista húngara agrediu despropositadamente crianças e pessoas de idade que tentavam escapar das autoridades. Provavelmente uma representante da extrema direita europeia e de suas politicas xenofóbicas.

Onze milhões de sírios estão se espalhando pela Europa e Oriente Médio neste exato momento. Dois milhões e meio de iraquianos abandonaram seu país e estão tendo o mesmo destino. Cento e quinze mil refugiados, somente neste ano, percorreram mais de 1700 quilômetros da Costa da Líbia até a Itália, sem contar os milhares que tiveram o sonho interrompido ao afogarem-se no mar. No ano passado foram 112 mil a percorrerem o mesmo caminho. Mais de 1,5 milhão de cidadãos do Sudão do Sul abandoaram suas terras desde 2013. Hoje o número de pessoas que tenta chegar à Grécia pelo Mediterrâneo cresceu de 45 mil para 239 mil! Um aumento de quase 500%. A Alemanha começa a dar um bom exemplo ao resto do mundo afirmando que receberá até 800 mil refugiados em seu território. Um bom sinal, mas a iniciativa esconde outros objetivos por trás da hospitalidade, entre eles a necessidade crescente de mão de obra barata. A esta altura a foto do menino sírio Alan Kurdi, encontrado morto na praia de Ali Hoca, em Bodrum, na Turquia é apenas um pálido reflexo do que realmente está ocorrendo. A imagem que fica, para que possamos refletir e tomar nossas próprias conclusões, são as cenas de violência na fronteira da Sérvia com a Hungria (que deixaram dezenas de feridos dos dois lados, incluindo crianças), em que centenas de refugiados foram recebidos com bombas de gás lacrimogênio e jatos d’água. Eles nem sequer pretendiam ficar no país, queriam apenas cruzar a fronteira em busca de uma vida um pouco mais digna no continente europeu.



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