Biscoito, chimia e cultura colaborativa


Em maior ou menor grau, acredito que todos sejamos nostálgicos. No meu caso, então, nem se fala! Às vezes, passo um bom tempo relembrando histórias e pequenos recortes, principalmente da minha infância. Atualmente, acho emocionante e curioso que esse resgate de memórias, mesmo as mais singelas, desperte em mim os mais variados insights. Talvez sejam os refluxos da vida adulta. Busco conforto e refúgio no passado, mas os dilemas atuais (trabalho, família e aspirações) me acompanham discretamente até mesmo nesses momentos.

Lembro vividamente da mãe e da vó saindo carregadas de utensílios domésticos, em direção a casa da dona Florinda (eu adorava esse nome por causa do Chaves). Juntas, as três passavam a tarde inteira preparando biscoitos caseiros. Ao final da empreitada, dividiam a produção e já marcavam a data do próximo encontro. O mesmo acontecia com a minha vó e sua comadre. Quantas e quantas vezes, tive o privilégio de ajudá-las no preparo das chimias de uva e de figo que eu sou fã de carteirinha até hoje. Eu tinha uns seis ou sete anos de idade e me recordo de muitos detalhes. As frutas eram despejadas e preparadas num caldeirão enorme que ficava ao ar livre, na frente da casa. Todos que passavam pela residência sentiam aquele cheiro atraente e alguns até paravam para dar uma espiada.

Essas interações entre amigos e vizinhança, hoje cada vez mais escassas, funcionavam de forma cooperativa. Na maioria das vezes, transcendiam a simples cooperação. Eram momentos oportunos de sociabilidade em um nível profundo - a ajuda mútua, o escambo, o compartilhamento de saberes e ferramentas, as conversas -, nos quais o dinheiro era algo totalmente secundário. Mesmo que de modo primitivo (não teorizado e sistematizado), já se tratava de colaborativismo com toques significativos de algo denominado nos últimos tempos como "economia criativa".

Será que não é disso que estamos carentes ultimamente? Buscar tornar viável a vida, ao invés de enlouquecidamente torná-la apenas "lucrativa"? Para os teóricos da cultura colaborativa, essa postura seria o equivalente a um deslocamento do conceito de Capital Humano para o de Capacidade Humana. O foco não está estritamente na compra e venda, mas na construção de relacionamentos significativos, capazes de compor um ecossistema eficiente.

Mesmo nas pequenas coisas (como nos exemplos acima), acredito que podemos interagir de uma forma mais saudável/sustentável. Isso não quer dizer que excluiremos nossas fontes de renda tradicionais para embarcar numa fantasia. Quando se toca nesse tema, muitos acreditam que uma abordagem exclui a outra. Contudo, o equilíbrio entre elas talvez seja o caminho mais eficiente.

O principal ativo de um sistema baseado na colaboração é o tempo livre. Muitas vezes, nós desperdiçamos completamente esse precioso bem! Utilizar uma porcentagem desse tempo ocioso e transformá-lo num bem social, através de projetos colaborativos resulta em uma série de benefícios. Mas como mensurar a dimensão desses benefícios? Inevitavelmente, depende do nível de engajamento e reciprocidade dos indivíduos.

Cá entre nós, teorias à parte, basta ir ajustando o nosso modo de vida e partir para a ação. A vida é movimento. Simplicidade, como antigamente! Colabore com um amigo, colabore com a sua escola, colabore com o seu bairro, colabore com os projetos que você se identifica. Que prejuízo você terá?


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